1. Nasci na fronteira do mundo, entre duas placas tectônicas, não sei dizer a intensidade do tremor que mais cedo ou mais tarde suceder-se-á. Não, o que se viu até agora, nada é se comparado ao que vem, e o que vem é a transformação de tudo, um mundo novo, mas não o de Colombo. Lá, a Teologia terá outra face, a música será seu sangue, a poesia, a sua alma, de fantasia viverão os teólogos, enquanto estudam atentamente. As musas e os anjos, alados, descerão dos céus distantes, e habitarão as antigas moradas da terra, pousando nos ombros das pessoas que tranqüilamente atravessam a rua. Nesse dia, então, aí sim, o mar terá a cor do céu, os homens serão sinceros, e não precisaremos mais ter medo. Água e ouro jorrarão de todos os lugares, mas cada um de nós só colherá o que lhe baste, porque não haverá preocupação quanto ao amanhã, porque o amanhã terá chegado e, com ele, o mar, os céus, a terra, a terra azul do mar do Caribe...
1. Quando eu falo que a Teologia já está esteticamente superada, quando sua dimensão mítica perdeu o encanto para as novas gerações - as gerações que vivem no presente e se preparam para inventar o futuro (porque ela ainda faz sucesso na "Idade Média"), talvez os teólogos sistemáticos não entendam o que estou dizendo... Então, deixem-me tentar ilustrar isso com um simples - ai, que pecado, chamar Chrono Cross de simples! Mea culpa... - jogo de computador: Chrono Cross...
2. Joguei Chrono Cross faz alguns anos, deitado na cama de meus filhos, no quarto deles, onde fica o console de PlayStation. Foi uma experiência hierofânica, como ler Tratado de História das Religiões, uma verdadeira viagem de Daime. Deitei-me, e só levantei três dias depois - quando havia "virado" o jogo. No final, chorava como uma criança, de soluçar... Kid... Kid...
3. Até Schleiermacher pode ser trazido à cena: tem que experimentar... Quando estou "in game", experimento a mesma sensação beatífica de quando me encontro em liturgia.: ao voltar à vida prosaica, tudo é insosso, tudo é frio, tudo é out. Somente as urgências da responsabilidade de pai de família me trazem de volta. É como Pedro querendo armar tendas e ficar... Nos dois casos, sei exatamente o que está acontecendo. A diferença, é que a liturgia e a Teologia não sabem, ou, o que é pior, mentem que não sabem! O mito é transparente em Chrono Cross - e opaco na homilética. Minha surdez eclesiástica desfez-se no mundo de fantasia e magia dos jogos fantásticos.
4. Confesso que não sei onde vamos parar. Dentro de alguns anos - e não há de demorar tanto, os jogos evoluirão para a realidade participativa, para a dimensão de imersão total. Temo que, entrando num mundo como o de Chrono Cross, naquelas condições futuras, não queira mais sair de lá... Será, para mim, o arrebatamento...
4. Aos iniciados, matem a saudade dos encontros hierofânicos. Aos não-iniciados, "evangelizo-os" em nome de Serge, Leena e... Kid...
1. Dançam em mim danças inconfessáveis os pés dos deuses, danças africanas de tambor e pisar de chão, danças rotundas e sonoras, cadenciadas no ritmo do coração da terra.
2. Dançam em mim danças inebriantes os pés das deusas da água, da terra, das deusas do fogo, de fogo, do ar, danças por demais pudicas, conquanto sensuais, que disso entendo, de pegar com a mão e olhar nos olhos, de rodopiar à luz da Lua Cheia.
3. Vão entrando, um a um, os casais divinos, e dançam no meu peito, sobre minha cabeça, em meus ombros, nas palmas estendidas, na minha língua, nos meu pés doridos.
4. Faz quatro dias que acabou a festa, mas eles permanecem, dançando, e rindo-se, folgando, e rindo-se, alegres, que deuses não sabem chorar e, se choram, é só um pouquinho assim, já acabou, pronto. Não me deixam ir, que aqui é teu lugar, e vinho, há muito, ainda.
5. Posso ler? Ler? Mas claro! E dão-se gargalhadas... Por que achas que ler te afastará de nós? Não sabes que quanto mais fundo cavas, mais te molhas d'água da terra, sangue e saliva de deuses e deusas inaturos?
6. Leio e escrevo como quem faz exorcismos, quem celebra ritos de interdição a sal de espectros de além-mundo, aprendidos em alfarrábios de duzentos anos, como quem arranca um membro implantado... Mas os deuses, ah, bum!, bum!, bum!, bum! E riem-se...
7. Como ler, com esse barulho? Barulho, que barulho? Esse, dos bumbos. Bumbos? Que bumbos? Esses, da festa. Mas que festa? Essa, em que dançais. Quem dança, Osvaldo? Não vês que são teus pés, e que falas contigo mesmo?
Peroratio é o principal blog de de Osvaldo Luiz Ribeiro. O que se quer aqui é voar. Voar, ora como condor, ora como águia, ora como beija-flore. E mesmo como inseto, que seja. Voar. Rasgar as linhas de todos os quadrados - e sem medo do sol.
Aqui discutirei sobre tudo que me toca e tocar, sobre tudo que traz em si o cheiro da carne humana - como quereria o ogro de Bloch. Mesmo os deuses - ah, não sabias?! - cheiram à carne humana. Daí - teologia, filosofia, história, política, fenomenologia da religião, arte, cultura. Ratio, oratio, peroratio.
O quê? Queres voar, também?, entrar na formação? Também tu? E tens asas? E tens coragem? Ah, mas se tens asas e coragem, observa bem, e verás que, no fundo, tens os pés, já, a flutuar no espaço...
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