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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

(2010/580) Há um ano, sobre Deus, os homens e a mulher


1. Bruxa, Bel devia estar a lançar seus feitiços lunares sobre minha grisalha copa, de modo que, assim enfeitiçado, compunha eu essa heresia poética, que, agora, reli, depois de ter instalado o sistema LinkWithin em Peroratio. O LinkWithin é um sistema free que dispõe nos blogs em que é instalado um serviço de referência cruzada de postagens, com imagem e texto. O LinkWithin ajudará aos leitores a aproveitarem o máximo de Peroratio. Em dois anos e pouquinhos meses, há, já, sem dúvidas, alguns "livros" dentro do bog, de tanto que já escrevi, e que Harldo e Jimmy escreveram. Aco que, a partir de hoje, Peroratio entra em uma nova fase. Vaos ver se, agora, passaos das 60 visitas diárias, que estamos alcançando até agora. Vejamos se chegamos às 10o visitas.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 5 de abril de 2009

(2009/141) "Estupro legal" interrompido...


1. Pressionado pelas autoridades ocidentais (Europa e EUA), o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, recuou. Ele havia declarado que sancionaria uma lei autorizando o estupro de esposas que se recusassem ao coito conjugal - a valer, diz-se, para a comunidade muçulmana xiita. Karzai dissera que "a mulher, entre os xiitas, não pode se recusar às relações sexuais com o marido". Assim, se, por qualquer razão, uma esposa xiita recusasse deitar-se sexualmente com o marido, este estaria plenamente no direito de forçá-la. O Ocidente reclamou. O presidente voltou atrás.

2. Aí está. Eu não diria que o Ocidente é a quintessência da civilização - o consumo de drogas, a violência, a prostituição infantil, a corrupção endêmica, a desigualdade social monstruosa, são alguns dos exemplos que desmentem a presunção de que nós, ocidentais, somos "os caras". Não, não somos, não. Contudo, sem hipocrisias desnecessárias, não há como comparar os ganhos individuais (sejam quais tenham sido as razões históricas de sua emergência político-cultural) do Ocidente relativamente ao Oriente, bloco versus bloco. Conquanto lhe falte, ainda, muitos degraus para alcançar, em relação ao gênero masculino, a absoluta igualdade político-cultural, todavia, o valor da mulher, no Ocidente, é relativamente bem maior do que o valor que a mulher tem no Oriente - admissíveis, naturalmente, também lá, as exceções.

3. O curioso é que essa dignidade da mulher, conquistada à força no Ocidente, é verdade, mesmo aqui, entre nós, ocidentais, parece estar ligada a uma "secularização" cultural e civilizatória. Parece - estou errado? - que à medida que um povo se teocratiza (ou mantém-se teocratizado), tanto mais grave aí é a situação da mulher. No Ocidente, não é justamente no ambiente das religiões monoteístas, mas não apenas aí, o lugar onde as mulheres ainda enfrentam obstáculos à sua participação absolutamente preoporcional aos dos homens nas coisas públicas? Também não é aí que o "valor" da mulher alcança uma muito meramente retórica, quando, na prática, faltam-lhe os acessos concretos às práticas acessíveis aos homens? Até hoje, por exemplo, a "principal" religião ocidental - o Cristianismo católico romano - recusa-se a considerar a mulher legitimamente no direito de, também ela, assumir o sacerdócio. No Protestantismo, a situação está confusa, ainda - algumas Igrejas vão modificando as relações institucionais com as mulheres, enquanto outras mantêm-se irredutíveis. É curioso que à mística do Oriente perfile-se, igualmente, o papel não apenas subalterno da mulher, mas seu papel desumanizado.

4. Não é que mulheres não sejam estupradas entre nós - o são, diariamente. Não é que maridos ocidentais não estuprem suas esposas - estupram, sim. Quando isso ocorre, contudo, é um crime que se comete, que, se funcionam bem a sociedade, a polícia e a justiça, acusa-se, condena-se e prende-se. O que falta no Ocidente é a nossa conversão íntima aos valores ocidentais - a rigor, democráticos e de direito, valores de igualdade, de liberdade, de fraternidade. Enquanto a conversão a eles não vem, vamos tentando fazer valer seu ideário por meio de leis e sistemas de fiscalização e punição. Enquanto isso, porções enormes do planeta não apenas desconhecem tais valores, mas ainda oprimem qualquer tentativa de reação da mulher em libertarem-se dos homens e da sociedade que as mantêm cativas.

5. Não é que a mulher, nesses lugares, seja passiva, pacífica, submissa. Não faz sentido uma lei para autorizar estupros domésticos, se aí não há casos de recusa da mulher em entregar-se ao marido. Mas há a recusa - e Deus sabe por que razões! -, logo, há a "contra-reação reacionária" dos maridos enfurecidos, o conluio do sistema social e cultural, e, finalmente, a opressão sobre a tentativa de libertação das mulheres. Patriarcado e cultura jurídica se unem para manter sob controle os corpos de mulher. E Deus os os Deuses homologam o acordo espúrio.

6. Estamos longe, muito longe do Paraíso, e dizê-lo não significa assumir que devemos nos contentar com o que conseguimos até aqui, antes, devemos continuar lutando até a utopia, não posso, por isso, deixar de dizer: viva o Ocidente! Porque ele ainda tem praticamente todos os males do espírito e da carne que há no Oriente (para aqueles que os sofrem, que diferença há entre eles e nós?), e, contudo, sabe-os pecados mortais... Bem, talvez seja apenas mais um pecado do Ocidente, o cinismo e a hipocrisia. Penso que não. Penso que começamos uma nova história, ainda lenta demais para as e os que sofrem. Podíamos andar mais rápido. Mas, ao mens, estamos andando. Que nos perdoem as estupradas o lento andar da procissão...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Sobre a menina da foto: "A menina Afegã Sharbat Gula foi fotografada quando tinha 12 anos pelo fotógrafo Steve McCurry, em junho de 1984. Foi no acampamento de refugiados Nasir Bagh, do Paquistão, durante a guerra contra a invasão soviética. Sua foto foi publicada na capa da National Geographic em junho de 1985 e, devido a seu expressivo rosto de olhos verdes, a capa converteu-se numa das mais famosas da revista e do mundo. No entanto, naquele tempo ninguém sabia o nome da garota. O mesmo homem que a fotografou realizou uma busca à jovem que durou exatos 17 anos. Em janeiro de 2002, encontrou a menina, já uma mulher de 30 anos e pôde saber seu nome. Sharbat Gula vive numa aldeia remota do Afeganistão, é uma mulher tradicional pastún, casada e mãe de três filhos. Ela regressou ao Afeganistão em 1992". Para ler a história na página da National Geographic, aqui.

sábado, 4 de abril de 2009

(2009/138) Estar disposto a ceder


1. Democracia. Um dia, talvez, a História não tem um único rumo possível, conquanto, dentre os possíveis e, às vezes, insuspeitáveis, é sempre um e um único caminho que ela toma, um dia, eu ia dizendo, talvez se volte para o tempo em que a vida de milhares, milhões de pessoas se decidia por uma única autoridade política. Aliás, há, ainda, no planeta, nações assim. Enquanto, contudo, caminhamos - ao menos no "Ocidente" - na estrada aberta pelas lufadas democráticas modernas, é por aqui que temos de pensar, é por aqui que devemos aprender a pensar.

2. A democracia está longe, muito longe, de consolidar-se, e, mais do que isso, de tornar-se "justa". Talvez ela esteja próxima da "perfeição" teórica naqueles países escandinavos. No coração da Europa e nos Estados Unidos da América, talvez ela esteja em relativo processo de aperfeiçoamento - com gravíssimas restrições, ora sistêmicas, ora localizadas. Em outros locais do "Ocidente", o Brasil, por exemplo, ela é, ainda, uma quimera - existe, apenas, no "papel" (democracia sem justiça social é cinismo de direita, é aviltamento). Todavia, é necessário pensar a democracia, em termos teóricos, antes mesmo de sua consolidação, em termos concretos, porque a democracia não é, como nada que histórico seja, um sistema determinista. Ela será aquilo em que ela vier a se tornar. E é preciso pensar aquilo que queremos venha a ser a futura democracia.

3. A princípio, trata-se de um sistema que postula a decisão pela maioria - o "povo", mas, ao mesmo tempo, cada um do povo. É o governo do ímpar, onde, então, o par impõe o "voto de Minerva". Na prática, a democracia inspira a organização na defesa dos interesses coletivos. O lado de cá quer ganhar do lado de lá - ninguém quer perder, ninguém quer ceder. Da organização coletiva das forças de interesse, passa-se, às vezes sem que se perceba, às vezes, programaticamente, para o jogo menos decente - como a combinação de votos antes de reuniões, como estratégia de minar as forças do oponente (já vi isso, e essa prática é muito comum entre "religiosos democráticos" - no meio onde se pratica tal estratégia, considera-se isso uma demonstração de inteligência: para mim, astúcia e subversão do espírito democrático).

4. Nesse sentido, a democracia, para ser equilibrada e saudável, exige que estejamos sempre dispostos a ceder. Se não, a democracia está, apenas, sobre a mesa, mas, não, sob nossos pés - o jogo que jogamos, no íntimo, é outro. Quanto a isso, gosto imensamente de um "princípio" filosoficamente democrático, constante de Princípios Batistas. Ei-lo: "A democracia, o governo pela congregação, é forma certa somente à medida que, orientada pelo Espírito Santo, providencia e exige a participação consciente de cada um dos membros nas deliberações do trabalho da igreja. Nem a maioria, nem a minoria, tampouco a unanimidade, reflete necessariamente a vontade divina". Se, por um lado, a primeira parte contém uma expressão doutrinária cuja validação não se pode alcançar senão por meios políticos "teocráticos", a segunda parte do princípio, contudo, tira de sob os pés batistas toda e qualquer possibilidade de instrumentalização da fé ou da vontade pessoal sobre os demais, porque impede, automaticamente, qualquer partidarismo "divinatório", como se a "minha" opinião e vontade fosse a mesa que a "divinas" - "nem a maioria, nem a minoria, tampouco a unanimidade, reflete necessariamente a vontade divina". Ora, se nada, nem a minoria, nem a maioria, nem mesmo a unanimidade, reflete necessariamente a vontade divina, posso eu, "democrático", arrimar-me na idéia de que a minha idéia é a única que pode apresentar-se de direito? Não devo, antes de tudo, conceder-me o direito ao equívoco?, e, ao outro, o da razão?

5. No enfrentamento das vontades políticas, há de chegar um momento em que se tem de decidir. O consenso avançou até onde é possível - daí em diante, alguém terá de abrir mão de alguma coisa. O "voto" resolve isso "por cima". É do sistema que o faça. Há, então, que se aprender não apenas a perder, mas a perder com "alegria", eu diria, reconhecer-se que é essencial para o espírito democrático não apenas a luta pela vitória, mas, sobretudo, a nobreza da derrota. Porque, quando se vai ao voto, vai-se ao voto para ganhar... ou perder.

6. O que me leva a pensar a situação em que o casamento moderno, dito "por amor", nos coloca. Aí, temos uma relação democrática de modelo "par". Ela, a mulher, eu, o homem, casados, temos de decidir. E se não há consenso? Não há "votos de Minerva" possíveis - o macho já era... Se eu não abro mão de alguma coisa, nem ela, como se resolve a questão? Pela força? Pelo dinheiro? Não se resolve? Penso que, nesse caso, na relação conjugal, exercita-se o espírito democrático, o jogo de ganhar e de perder - quando ganhar e perder, sempre, relacionam-se ao bem comum, o do casal. Naturalmente que haverá conflitos possíveis até de promoverem a absoluta ruptura do relacionamento - para isso constituiu-se a justiça. Ela decidirá, e pronto. Nesse ponto, contudo, a relação democrática tornou-se impossível, no micro, e será resolvida pela sociedade, ela mesma, ainda que nessa instância arbitrária, do direito, democrática. Mantida a relação conjugal democrática, contudo, o conflito se resolverá pela cessão de um dos dois parceiros - é do jogo.

7. O casamento, se exercitado como relação democrática de gênero - ela e eu em relação de iguais - é uma excelente forma de exercício do espírito democrático. É mesmo curiosa a relação entre o surgimento institucional/cultural do casamento por amor, nas sociedades democráticas modernas, e essas mesmas sociedades democráticas modernas. É como se uma sociedade politicamente autocrática devesse ser respaldada por micro-sociedades familiares igualmente autocráticas - historicamente, patriarcas, quiriarcais. Se essa intuição for válida, é como se as políticas institucionais democráticas modernas demandassem micro-estruturas familiares democráticas - daí, a "evolução" da relação familiar para o casamento por amor, que um aristocrata, como Nietzsche, não podia tolerar, fosse a democracia, fosse o casamento por amor.

8. Não diria que se aprende a viver numa sociedade democrática vivendo-se uma relação conjugal democrática, ou que, ao contrário, é casando por amor que se aprende a gostar do jogo democrático. O que quero dizer é que a relação democrática entre homem e mulher, no micro, está culturalmente e socialmente relacionada ao jogo maior da política nacional, da democracia institucional, de modo que o que se faz, por atacado, aqui, se faz, ali, no varejo. A questão que permanece latente é justamente essa: se a relação conjugal for honestamente democrática, ou o marido cede, ou a esposa cede, quando houver conflito, ou a relação trava, e corre o risco de romper. É necessário, inegociável, que os jogadores do jogo democrático sirvam à democracia, e não que se sirvam da democracia. É necessário que saibam - e, mais do que isso, que estejam dispostos a - perder aqui e ali, para ganharem, sempre, no bem maior- no bem de todos.

9. Pano rápido: Bel e eu "arengamos", de vez em quando. É mais raro do que comum, e, salvo uma ou duas vezes nesses vinte e dois anos, são sempre por questões absolutamente desprezíveis, o que, contudo, não faz desaparecer, automaticamente, o conflito. Bel há de concordar comigo que, estatisticamente, sou eu a ceder na maioria das vezes. No início, depois de dois ou três dias emburrado, de cara fechada. Digamos que os hormônios me resolviam a questão, e, fazendo então as contas do que, afinal, eu perdia, eu cedia. Hoje, não espero mais os hormônios reclamarem de saudade, e já aprendi as contas, antes mesmo de passado meio dia. O fígado fica emburrado, o coração, machucado, mas a cabeça lhes diz, em tom político-professoral: amigos, pensem no que estamos a perder com essa arengação tola... E, aí, então, o coração bombeia sangue, o fígado inflaciona, e o corpo inteiro grita: Bel, cadê você, amor?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 2 de março de 2009

(2009/047) Então sou marxiano...


1. "Nunca se pode alcançar um ponto na história no qual seja possível dizer: 'agora a substância humana foi plenamente realizada'. Pois uma tal delimitação privaria o ser humano de seu atributo essencial: seu poder de 'automediação' e 'autodesenvolvimento'" (István Mészáros, A Teoria da Alienação em Marx. Boitempo, 2006, p. 111). Haroldo, não era essa a definição que eu dava, há algumas semanas, para o termo Übermensch de Nietzsche? Ora, então Nietzsche era, igualmente, marxiano, e, nesse sentido, é por isso que sempre me deixei encantar por esse Nietzsche, por causa dessa alma de auto-determinação, de auto-criação, que me animava desde há muito - e que me continua animando! - e que me faz, agora, enxergar-me nesse Marx.

2. Deliro, ou, se despirmos das insinuações propriamente cristãs o Protestantismo teórico do primeiro Lutero, teríamos, ali, incipiente, mas, logo, imediatamente, incontinenti, morto, esse mesmo espírito? Ah, não, deliro - é um pouco demais, certamente... Ah, que pena... Mas, ah, que bom que ele, sempre, pode, ainda, despertar... Aqui e agora, por exemplo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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