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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

(2010/641) Simone Weil, uma escrava - como Nietzsche queria



1. Somos nossos caminhos. Frase de efeito, que, todavia, não é de todo equivocada. A memória da procissão dos barqueiros do Volga, cantos de mulheres de uma tristeza que ela disse dilacerante, arrancaram-na uma confissão: "ali, de repente, tive a certeza de que o cristianismo é, por excelência, a religião dos escravos, de que os escravos não podem deixar de aderir a ele, e eu com eles" (Giulia Paola Di Nicola, "Simone Weil (1909-1943 - Vocação e provocação", em PENZO, G. e GIBELLINI, R (org), Deus a Filosofia do Século XX, Loyola, p. 452).

2. Já meu filósofo preferido, que vai se tornando um desalmado a cada dia que passa, dizia exatamente isso, isto é, para as plebes, para mim, Cristianismo é religião de escravos, e, para as classes dominantes, tem um lado bom e um ruim - bom, aquele já apontado por Marx, nesse caso, como mau: é entorpecente de massas, e dá a cada um a dose diária e necessária de morfina; mau, tem o pendão de despertar a misericórdia, e, as elites, se se deixam intoxicar por esse veneno, a civilizalção entra em colapso.

3. Simone Weil confessa-se escrava. Mas nem tanto. De modo curiosamente próximo à minha própria experiência, considera as doutrinas farrapos humanos, inúteis, imprestáveis, e abre-se para a mística: uma "escrava" com liberdades filosóficas e teológicas... Eu deixei-me batizar quando o laço do passarinheiro armou-se sob meus pés; ela, antes de morrer, depois de uma vida de mística e anti-dogmatismo. Nisso, muita diferença... Mas os dois olham com toda a desconfiança do mundo, e ainda mais, para as catequeses de cabresto, que fazem de Deus, para Simone, um "objeto" e, a meu ver, uma naftalidade de espantar baratas...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 6 de março de 2010

(2010/190) Do meu deus


1. Vivo de tal modo que não me é possível mais deixar que meu deus caiba na boca de outrem. Se ouço alguém falar em nome do que ela diz ser "Deus", imediatamente, sentencio, silencionsamente: só se for o teu... Seja pastor, seja ovelha, seja padre, seja coroinha, seja diácono, seja seminarista - seja quem for: meu deus não cabe nessas bocas. Só numa - só na minha...

2. Isso fez de mim uma pessoa imune aos discursos homiléticos, às prédicas pastorais, às homilias semanais, movidas que são pelo motor das citações de "Deus". Não reconheço o deus desses sermões. Se me querem dizer algo, é esse algo que deve ter valor, porque o fato de ser enrolado em papel-deus não me encanta mais...

3. Sim, eu sei as conseqüêcias disso: também meu deus é um deus pessoal, que mora na minha cabeça. Eu sei disso. Foge-se de reconhecer tal fato desde há cento e cinqüenta anos. Mas, no dia em que me contaram, eu vi que era assim, e dei de ombros. Eu não preciso ter o "verdadeiro" Deus na boca, para estar seguro. Basta-me o meu deus, poético, criado e alimentado por mim mesmo, como são os de todos e de cada um. Basta-me, sim, o meu. Porque, de mais a mais, se houver uma única chance de haver o verdadeiro Deus, não há, certamente, de ser a minha mente a sustentá-lo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

(2009/620) Para que não pairem dúvidas


1. Quem o queira, quem o possa, faça-o. Eu não posso mais. Não hoje, agora, aqui. Talvez, quem sabe?, amanhã, após uma doença grave, uma perda dolorosa e perversa, coisas com as quais os deuses nos põem de joelhos, para mostrarem sua superioridade... Em sendo assim, em sendo os deuses tão "superiores", tão "aristocráticos", em sendo assim, então, talvez eu volte a podê-lo, como, um dia, já pude. Mas hoje, não mais...

2. Do que falo? De me enganar - e falo de mim - com uma mística "verdadeira", que fosse outra coisa que não relação estética com a própria comcepção de "além". Depois do XIX, para aqueles que beberam da águas que correm ali e dali, nem a mística, meus amigos, nem ela, a última fronteira, fica incólume. Toda a mística - t o d a - é relação (estética) do "si" consigo mesmo. Tal qual se pensa a divindade, assim se goza a divindade, e o gozo "demonstra" - ah, inequivocamente, dirá o medievo e o pós-moderno (para quem tanto faz) - a exatidão dessa "realidade". Dizendo-se de modo simples: eu imagino como é a coisa, experimento-a na imaginação, "atualizo-a", presentifico-a, e meu corpo goza todas as sensações dessa "experiência...

3. Como vêem, estou perdido. Encomendada minha alma aos infernos da tradição dogmática, estou livre para minhas próprias viagens teológicas. A despeito da consciência crua e cruel de que tudo não passa de minha própria construção, preciso da mística. Preciso, por alguma razão pessoal - talvez, da espécie" - lidar comigo mesmo por meio de uma "refração" no além. Talvez se trate de uma "abertura" de mim para comigo mesmo, resíduos ou efeitos colaterais da consciência "freudiana". Seja como for, o carbono não consegue segurar-me, conquanto eu saiba, de algum modo que, além do carbono, vai o sonho... Toavia, nao é programático. É assim que é. E basta a mim sabê-lo.

4. Pois eu sonho, sem enganar-me que se trata de ficção. Não se me dá mais, pois, sonhar a ficção dos outros, de um Agostinho, de um Paulo, de um Platão. Serei eu mesmo meu roteirista, meu diretor, meu ator, nesse monólogo lúdico comigo mesmo, como que com meu Amigo. Desde dentro da tradição, colho os elementos que me importam, deixo outros à beira do caminho - alguém os há de colher, decerto. E sigo em frente. Obviamente, meu saco de heresias vai comigo, que serve para exorcizar os poderos hipnóticos da Norma...

5. Aos quinze anos, reservava um travesseiro e um lençol para "Deus", que dormia ao meu lado. Hoje, é Bel quem divide comigo a cama. Não há lugar, mais, para "Ele". E, uma vez que eu descobri que, por mais que Ele seja Ele, nos limites da minha experiência, Ele é sempre "eu", finalmente o lençol é o mesmo, o travesseiro, o mesmo, e nós, um só...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/619) Da (minha) mística - e culpa


1. Não acho que a mística seja mais relevante que a pastoral. A mística é algo pessoal, particular, subjetivo, estético. A pastoral, ao contrário, é algo comunitário, político, "objetivo". Posso vivenciar minha mística em casa, solitário. Pastoral assim é impossível. A pastoral só pode ser - é assim que a concebo - não como um impulso místico na direção de Deus, mas um impulso humano na direção do homem.

2. A mística faz com que corramos para o deserto, em busca de paz e solidão. A pastoal, por sua vez, há de nos fazer correr à 25 de Março, se me entendem. A mística pensa em "espírito". A pastoral, em carne, sem aspas. A mística é de fechar os olhos. A pastoral, em todos os sentidos, "de abrir os olhos".

3. Todavia, há uma doença, um fungo, uma ferrugem, uma praga, uma casta, corroendo a pastoral, fazendo-a mística de massa. Há, por aí, uma mística pastoral, que nem é mística nem pastoal, de virar os olhos, de esgoelar-se, de encher palácios de pedra, de ajuntar dinheiro, de alienar pessoas. Para essa pastoral, eu viro as costas. Fujo dela, diabo, da cruz. Ela tem o nome de pastoral, mas é pecado, é crime, é maldade.

4. Queria voltar ao tempo dos curas d'alma, do "estilo" rabínico, quero dizer, da vocação pastoral sem a megalomania contemporânea dos evangélicos megalomaníacos, perdidos, doentes. Queria uma pastoral de pouca gente, de sentar à mesa, por assim dizer.

5. A verdade é que, para a pastoral de hoje, de aqui, de agora, tornei-me absolutamente imprestável, seja para ela, seja para o redil que ela pressupõe. E, ao fim e ao cabo, a culpa terá sido minha... Manda a conta.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 15 de agosto de 2009

(2009/427) Da exclusão da transcendência - PARECER CNE/CES 118/2009


1. Um citado do PARECER CNE/CES 118/2009: "Por essa razão, o estudo das teologias, da área de Ciências Humanas conforme classificação CAPES/CNPq, não pode prescindir de conhecimentos das ciências humanas e sociais, da filosofia, da história, da antropologia, da sociologia, da psicologia e da biologia entre outras. Essas ciências permitem estudar o universo teológico respeitando o princípio da “exclusão da transcendência”, condição da abordagem científica, ou seja, não se trata de afirmar ou negar a veracidade das afirmações teológicas, mas, sim, estudar o modo como elas surgem, como se manifestam e como atuam nas diferentes dimensões da vida, das experiências e do conhecimento humano. O estudo da teologia deve, ainda, buscar diálogo com outras áreas científicas, possibilitando estudos interdisciplinares".

2. Eis, aí, límpida como águas de ribeiros rasos, a síntese do estatuto epistemológico da Teologia enquanto ciência. Como um bocado de comida, mastiguemos aos poucos.

3. (Deixando por ora de lado a questão do plural "teologias" [porque isso faz confundir a Teologia, enquanto ciência humana [ainda a ser formulada], com as teologias, enquanto práticas vivenciais de comunidades histórico-sociais]) fala-se que a Teologia está enquadrada no conjunto das Ciências Humanas: "o estudo das teologias, da área de Ciências Humanas conforme classificação CAPES/CNPq".

4. Na seqüência, e em conformidade com a declaração apositiva, a Teologia "não pode prescindir de conhecimentos das ciências humanas e sociais, da filosofia, da história, da antropologia, da sociologia, da psicologia e da biologia entre outras". Isso só pode ter um significado: ela deve ser compatível. Não há uma "verdade" teológica que não seja, nesse sentido, obrigatoriamente antropológica, sociológica, psicológica, fenomenológica. Se há uma proposição teológica pretensamente verdadeira, mas tal proposição não pode ser assumida pelas demais ciências humanas, segue-se que essa não é uma proposição científicamente teológica, restando-lhe ser imediatamente descartada. Nada mais pertinente do que isso.

5. Mais: "Essas ciências permitem estudar o universo teológico respeitando o princípio da 'exclusão da transcendência', condição da abordagem científica, ou seja, não se trata de afirmar ou negar a veracidade das afirmações teológicas, mas, sim, estudar o modo como elas surgem, como se manifestam e como atuam nas diferentes dimensões da vida, das experiências e do conhecimento humano". Ceticismo metodológico. Pertinente.

5.1 Todo o esforço da Teologia, que tenho lido em contínuos pronunciamentos, resume-se a isso: manter a Telogia vinculada à fé, logo, à formulação de proposições normativas sobre (e do!) transcendente. Sem isso, eu entendo, a Igreja dissolve-se, uma vez que construiu-se por meio da afirmação não mais sustentável de que comporta a "fala de Deus". Enquanto ciência humana, a Teoloia não é teísta, nem ateísta - ela é cética, não sabe nem nada pode saber sobre "Deus" e o além, conquanto deve investigar as condições de produção das crenças, desejo de crer, as conseqüências da crença.

6. Há um embate no coração da Teologia: a Igreja e a Ciência batalham, ainda no campo da retórica, dos pareceres e das cartas abertas, pela caracterização da disciplina. Os teólogos pronunciam-se com um pé na cátedra, e outro, no púlpito. Nesse sentido, a ciência deve resistir: se o púlpito, se "Deus", invade a cátedra, teremos dado muitos passos para trás - no pior sentido da expressão.

(7. Uma palavra sobre Teologia acadêmica [que defendo prostaticamente] e mística [a que me permito]. Tudo, absolutamente tudo a quanto eu me entregue na direção de pensar o "transcendete" (em sentido ontológico-metafísico) é, repito, tudo, invenção minha. Crer, sentir, "ver" - não "põe" nada, não "dispõe" nada, senão psicologicamente. Se eu fujo de encarar minha fé como invenão minha, mas não quero, a despeito disso, admitir que ela é o que é, que é crença, resta-me iludir-me que ela não é, tão-pouco, invenção de outro, de Buda, de Maomé, dos seguidores de Jesus, de quem quer que seja: invenção, mito, imaginação, especulação. Não há, para a consciência moderna - salvo o recurso político à metáfora - como encarar os conteúdos da fé como outra coisa que não o que são - invenções.

7.1 Não posso abrir mão da mística. Não (mais) eu. Não posso, todavia, levá-la para a academia. Não no sentido de transformá-la em plataforma, como se tem dito nos artigos: teologia é um estudo que se dá a partir de Deus, que se dá como que em Deus, "de" Deus, essas racionalizações meramente políticas e sem qualquer fundamento cintífico, ainda que político, eventualmente, estético. No entanto, se essa política e essa estética se esclarecem, elas cedem. E por que não cedem? Porque recusam-se a encarar os fatos. Recalcam-nos. Querem fazer o real ser como eles querem que seja. Isso é alguma coia entre self deception, pirraça e - não descarto para alguns casos - má consciência (e, não duvido, má fé).

7.2 A academia não resolveu, ainda, na minha cabeça, esse conflito entre a consciência de que essas imaginações - o conteúdo de qualquer teologia "engajada" - são mito e especulação, e mais nada além disso, e a "necessidade" psicológica de pensar (e viver no) transcendente. Talvez a academia seja justamente o (único?) lugar onde eu poderia pensar justamente esse conflito. A "religião" o disimula, recalcando a compreensão científico-humanista acerca do fenômeno religioso. Eu não quero (mais) essa teologia, esse recalque, esse conforto, essa política. Quero a cátedra, a pesquisa, a investigação. Sobre o que vier a sobrar, se sobrar algo. Isso, precisamente, será a minha espirutualidade).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 21 de junho de 2009

(2009/370) Sols"lixo" de verão em Stonehenge


1. Moro em Mesquita - e isso nada tem a ver com Stonehenge. Moro em um condomínio popular. Ao lado dele, há uma "Catedral Metodista". Não chega a ser um "Patrimônio Cultural da Humanidade" - mas ali tem fogo! Fala-se língua estranha ao microfone... às seis horas da tarde (o símile da Ave-Maria de vovó, ao pé do rádio...). Uma beleza... Interessante essa de língua estranha ao microfone - entenda-se: megafone... Uma beleza...

2. Bem, menos... Durante os cultos, os carros amontoam-se nas calçadas. Para você passar, que vá para o meio da rua. Se um carro te pega, torça para ser um "salvo"... Se não, já estava danado mesmo...! Há um cano desses de boca larga, de polegadas e mais polegadas, jogando água - bem, "aquilo não é bem água" (Bel suspeita de coisas mais "orgânicas" e humanamente intestinas) - há meses. "Aquilo", seja o que for, escorre pela calçada, ganha a sarjeta, e procura os bueiros, envergonhado. Deus não liga mesmo para essas coisas. Os cidadãos é que sim... mas, quem, ali, está preocupado com isso, não é mesmo? O "negócio" (com trocadiho e tudo) é "adorar"...

3. Aí você pensa: talvez esses evangélicos pós-modernos neo-liberais capitalistas poderiam retornar àquela época mais idílica e espiritual... a dos druidas, por exemplo. Conta-se que Stonehenge era uma espécie de "catedral" druida, talvez uma catedral-observatório astronômico. Se não fora, deveria ter sido. Aquilo é lindo... Uma beleza...

4. Aliás, hoje foi solstício de verão na Inglaterra - e mais de 36.000, diz a BBC Brasil, com vídeo e tudo, foram lá, para, dirigidas/acompanhadas por... druidas!, apreciarem o nascer do Sol... Que, contudo, não deu as caras...

aqui, a beleza - o luxo!


5. Oh, mas a cena é frustrante. O que aquele pessoal espiritualíssimo deixou de lixo no local ganha de dez a zero de minha "Catedral" de bairro. Veja você mesmo a cena, triste, lamentável... Parece que quanto mais do céu nos achegamos, mais estragamos a terra. Pensei que era vício cristão... Parece que é vício da mística mesmo... Bem, ao menos dessa mística contemporânea, mística de shopping center...


aqui, a tristeza - o lixo:
Druidas celebram sol em Stonehenge


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 26 de maio de 2009

(2009/296) Mão na consciência, Teologia!


1. Que sejamos místicos. Não há nenhum problema nisso. Edgar Morin, gênio vivo e ateu - quer dizer, neo-ateu - confesso, diz-se místico. Eu, um crítico-cético-autônomo, sou místico, e não vejo nisso nenhum problema. O problema é, apenas, nesse campo, o que chamamos de mística - uma mística ou é cética, ou não é mística, é dogmática... E, aí, é transtorno.

2. Mas na academia, não há lugar para dar vasão à mística como regime heurístico, porque a mística não tem sequer conteúdo. A mística é tão-somente uma pulsão vital, uma abertura hermenêutica que rompe a redoma da cosmovisão físico-civilizatória em direção ao Místério (os Mistérios) assim intuído(s) - e apenas assim permanecendo Mistério(s). Nisso não há qualquer possibilidade de fazer-se de ferramenta, qualquer uso possível para a "pesquisa". A mística é, aí, no máximo, respiração.

3. Bem, se a "alma" do pesquisador se deixa encantar pela mística - qual o problema? Se ele não permite que a mística corrompa os "dados" (há uma mística que mente!), se ele não permite que a mística deturpe a realidade (há uma mística que frauda!), qual o problema? Minha insistência neurótica e quase-patológica quanto à interdição dos regimes místico-dogmáticos na academia é meramente instrumental - a mística converte-se em "saber" (o que não é) e pré-determina resultados de pesquisa, pior!, pré-determina questões de pesquisa, que, naturalmente, apenas ela, a mística supostamente bem-informada há de responder - mas mente, porque simplesmente inventa respostas.

4. A insistência de a Teologia em não largar seu vício dogmático, disfarçado que seja em tradição e metáfora, nenhuma diferença, vício conteúdístico, vício terminológico, de teimar em tratar como saber o que é mera crença e mito - essa Teologia será a responsável pelo retorno do obscurantismo religioso do passado em pleno século XXI. Para manter seu discurso em praça pública, a Teologia - os teólogos! - há de amargar o preço de ressuscitar demônios. E lamento profundamente, mas a quem hei de reclamar?, de ser eu também a pagar o preço por esse crime de terceiros.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(2009/236) Sexo - prazer e crítica - mística

1. Pensemos na vida. Imediatamente, a sua manutenção. Incontinenti, a sua deterioração. Ato contínuo, a sua reprodução. Pensemos a vida...

2. Ao nível biológico, a reprodução é pulsional. Ao nível das estruturas vivas superiores, é, além disso, estratégico - hormônios hipnotizantes, cores sensuais, movimentos libidinosos, performances arrebatadoras. Ao nível do Homo sapiens, as estratégias conventem, todas, para o prazer.

3. Está lá, ainda, tudo quanto antes - biológico e animal - havia. Das profundezas da célula e do cérebro, emerge o prazer. Que pode ser, e é, deslocado de suas origens estratégicas, funcionais. Que pode, e é, tornar-se fim em si mesmo. O sexo não é mais, apenas, para. O sexo, agora, é. Por obra e graça do prazer - que, contudo, eis que quem o gerou foi a reprodução.

4. Para a vida, o prazer é secundário - a reprodução, não. Para o homem e a mulher, enquanto sujeitos, a reprodução pode ser dispensada - o prazer, não.

5. Pensemos no conhecimento. Imediatamente, a prospecção. Incontinenti, a verificação. Ato contínuo, a crítica. Pensemos o conhecimento...

6. É da rotina básica de conhecer, levada à sofisticação antecipatória, imaginativa, intuitiva, a hipótese. É da rotina imprescindível do conhecer a crítica das antecipações hipotéticas. A mística constitui tanto uma antecipação quanto uma reação, uma atitude, em face de antecipações que, pelos homens e mulheres, se deixam constituir. Mas não podem ser verificadas - tão somente animadas, fruídas, experimentadas. A crítica pára diante do portal da mística - e não entra. Não pode.

7. A mística poderia, eventualmente, ser dispensável. A crítica, não. A vida haveria de permanecer sem a mística, mas não o contrário, bem como, sem a crítica, a vida cessa. Nem a célula sobrevive sem crítica, nem a bactéria, nem Harriet, nem Darwin. Sem mística, eventualmente. E, contudo, a mística, senhores, a mística, senhoras, é produto das rotinas básicas do conhecimento, é seu refinamento, sua sofisticação, a emergência última de rotinas telúricas, ctônicas, espeleológicas, conquanto ela, a mística, por elas parida, já tenha, desde o útero, vergado e destendido asas alucinantes... A crítica tem pés. A mística vôa.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

(2009/226) Numerologia


1. Ah, o fascínio dos números. Não são, universalmente, o que de mais perto podemos chegar do mundo dos deuses? Pitágoras não os considerava praticamente seres divinos? Não era deles que era feito o mundo? Mesmo as notas musicais não eram - e são - relação entre números? (cf. Louis Rougier, A Religião Astral dos Pitagóricos. São Paulo: IBRASA, 1990, p. 33-35).

2. Até hoje, nós, homens e mulheres modernos, não nos vemos à volta com a atração mágica dos números? Auspiciosos, dizemos, às vezes. Outras vezes, portadores de más influências... Superstições, claro, mas que habitam a alma, o fundo do poço das almas, das nossas almas. Não? Está bem, é só sacudir a cabeça e a miragem se vai - mas, eis o que importa, por que elas continuam a vir, depois de as mandarmos embora, descrentes delas? É como se o preço que eles cobrassem pela inteligibilidade arquetitônica do mundo fosse a nossa eterna assombração mágica, porque é como se eles transbordassem de nós, como fantasmas, e nos assustassem...

3. Eis minha miragem atual. 2009 / 2 + 0 + 0 + 9 = 11 / 1 + 1 = 2. Em 2009, faço 44 anos. Em 2009, faço 22 anos de casado. 2 x 22 = 44. Ou 2009 será um ano de perfeição absoluta para meu casamento, ou será o contrário... Algo assim como aquele "retângulo de ouro", uma certa relação perfeita entre altura e largura (cf. Número Áureo Phi [parte 1] e [parte 2]) ... Sim, sim, no espectro de minha existência consciente e histórica, isso não significa nada, absolutamente nada. Mas não é revelador - seja lá do que - que os números nos aprontem essas brincadeiras? E que, para além das assombrações de nosso espírito, eles estejam presentes no coração na matéria e da vida?

4. Mais do que isso - não nasceu no meio também do judaísmo uma tradição numerológica muito íntima da cabala? Sim, nasceu, e estava relacionada à mesma fantasia mística e mítica dos números como abstração do mundo, e, em contexto judaico, como letras, através das quais "Deus" escrevia sua mensagem particular...

5. Nasci num dia 22. Não importa se faz sentido ou não essa brincadeira de números. Certamente há centenas ou milhares de pessoas que, em 2009, farão 44 anos, tendo nascido em qualquer dia 22, e - mas isso só se o calendário usado for o gregoriano!, ou seja, chineses, judeus, persas, paquistaneses, indianos, dentre outros, estão fora... -, até, em 22 de fevereiro ou de abril, o que traria mais um dois ou um quatro para a brincadeira. Num universo de seis bilhões de pessoas, os números se tornam repetitivos, as histórias, iguais, o mistério, trivial. Ou seja, para brincarmos com números desse modo, só trancando-nos em nossos quartos, e cuidando sermos o centro do Universo, e, alguma coisa entre místicos e neuróticos, perguntarmo-nos pelo que Deus estaria querendo dizer para nós com essa aritmética numerológica...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 6 de abril de 2009

(2009/144) "A Floresta", de Augusto, e eu


1. Às vezes, tenho a sensação de que a (minha) vida [talvez devesse tirar os parêntesis] é a representação de um enredo, que ignoro, como se cada "ato" estivesse ligado ao outro não "por dentro", mas desde fora. Não, não, por favor, que tenho horror, abjeção mesmo, a qualquer laivo de "determinismo" - teológico (calvinismo) ou secular (estruturalismo). E, no entanto, essa neurose mística que me acomete, quantas vezes, beira essa patologia!

2. Sou Wald, já sabemos - floresta (selvagem). Agora há pouco, em meu ritual litúrgico de consulta ao Oráculo, bati-me de cara com um poema de Augusto dos Anjos - "A Floresta". Na minha adolescência, o Simbolismo de Augusto dos Anjos e de Cruz e Souza me apaixonava, também pelo fato de que, como o primeiro, eu não sabia, até então, o que era o amor. Sofrer de amor, ah, era o maior dos prazeres... É compreensível uma tal experiência, posto que eu vivia "preso" dentro de casa. O amor era, para mim, hormônios e olhares, mais nada.

3. Há muito não lia dos Anjos. E acabei de ser petrificado por "A Floresta":

A Floresta
Em vão com o mundo da floresta privas!...
- Todas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
São absolutamente negativas!

Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamento de álamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!

Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
É dor viva, trancada num disfarce...

Vivem só, nele, os elementos broncos
- As ambições que se fizeram troncos,
Porque nunca puderam realizar-se!

4. Impactado pelo poema, fui verificar a procedência de sua autoria (difícil alguém escrever como Augusto dos Anjos, mas, em todo caso), e, para minha ainda maior perplexidade, deparei-me com um artigo em que Augsuto dos Anjos é relacionado a ninguém mais do que Schopenhauer - um dos românticos, em grande medida, meus "pais epistemológicos" -, e isso precisamente por força desse poema. Trata-se de "A Racionalização de Schopenhauer na Poesia de Augsuto dos Anjos", de Cristiano de Sales (aqui). Eis um extrato de suas observações, nesse caso, aplicadas diretamente a "A Floresta":

4.1 "A começar do título já se pode notar que o soneto sugere um lugar cuja essência está no instinto, já que esta é a força que impera em meio à vida que lá existe. Ou seja, a intervenção racional do homem não é invocada ao que tudo indica. Afinal, conforme traz a primeira estrofe, toda a tentativa de interpretação se revelará negativa diante da complexidade da floresta.

4.2 A segunda quadra é um convite à reflexão e ressalta a sedução de um mundo que em muito lembra o olhar, ou a descrição, que Euclides da Cunha volta ao sertão, também na virada do século. Mas é a partir do primeiro terceto que a idéia schopenhauriana começa a ganhar traços bem definidos, pois nele estão contidos dois pilares fundamentais na construção teórica do pessimista filósofo: a dor como essência e o disfarce".


5. Também aí eu me encontro. Quem me vê, por fora, fatalmente empregaria a palavra "razão" ("ele é um crítico!") para descrever-me. Não, não, não. Emprego, sim, epistemologicamente, metodologicamente, a razão, sem a qual, não há, decerto, emancipação, jamais, crítica. Mas é, sobretudo, o instinto, a mística, o farejamento, o que me define - o assombro romântico em face do mundo. A razão, nesse caso, é tão-somente uma ferramenta de defesa, de terraplenagem, de arroteamento, com a qual constuímos nosso mundo, furtando-nos ao peso insuportável da nudez da matéria. Na prática, o que faz de mim um não-carismático, um não-fundamentalista, um não-apologista é essa correlação entre a mística de fundo (um cheiro de mistério impregna a vida) e a crítica (mas tudo quanto dela se diz é puramente invenção do dizer). Nisso, mais uma vez, encontro-me, se ele me permite, ao lado do incomensuravelmente genial Edgar Morin, quando ele diz: "é preciso ser racional e místico"... É talvez apenas no interior da floresta selvagem que se pode encontrar o equilíbrio adequado entre forças cosmogônicas tão poderosas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 19 de março de 2009

(2009/089) Da fé-enquanto-encontro


1. Há alguns anos, escrevi, a pedido, um livrinho sobre , que a MK publicou. Nada de excepcional, eu diria, até porque a editora solicitou-me, a rigor, a todos os autores da coleção, que tentássemos o máximo de simplicidade, dado que a coleção se destinava a um público evangélico pouco familiarizado com as questões da teologia acadêmica. Sob esse recorte, não deixaria de recomendá-lo. Se, contudo, eu o analiso por si mesmo, enquanto resultado, decido-me por guardá-lo na gaveta e reescrevê-lo inteiramente.

2. Exceto no que diz respeito às quatro classificações do termo "fé": fé-enquanto-encontro, fé-enquanto-ensino, fé-enquanto-encanto e fé-enquanto-entrega. Ainda penso que essa foi uma "sacada" muito boa - modéstia à parte. Penso mais: que ela se preste, realmente, à classificação dos conteúdos comuns a que costumamos nos remeter quando usamos a palavra "fé".

3. Chamamos de fé muitas atitudes que são, a rigor, diferentes entre si. A mística do mistério, por exemplo, já não é mais a crença em dogmas ou doutrinas - e, todavia, fé é o termo que usamos para as duas atitudes. Além disso, a "oração", em última análise, magia, é um exemplo de fé-enquanto-encanto, de resto, totalmente diferente, até relativamente contrária, à sua companheira, a fé-enquanto-entrega, que, por força de seu espírito de otismismo, prescinde, mesmo, de orações - e, contudo, ambas são tratadas como atitudes de fé: a fé que, acredita, será atendida, enquanto a fé que, acredita, nem precisa pedir...

4. Penso que essa confusão de atitudes (mística, dogmática, magia e otimismo), todas elas reunidas sob a mesma rubrica - fé -, seja a causa de enormes problemas no ensino teológico, mormente o nosso, brasileiro, cuja base constitui-se de tradição, doutrina e normas denominacionais.

5. No campo do ensino teológico, propriamente dito, o conflito se estabelece em torno da confusão infernal entre fé (mística) e fé (doutrina). O estudante confunde mística e crença dogmática, e, assim, torna-se imprestável à reflexão crítica conseqüente. No extremo, assume atitudes de "martírio", de "cruzada", de "apologética", na defesa da "fé". Coitado - não percebe que aí a fé é o maior dos exemplos de ignorância crônica...

6. A fé-enquanto-encontro constitui, ao contrário da fé-enquanto-ensino, que é fundamentalmente política, uma atitude estética. O homem e a mulher tomados por essa atitude foram atingidos/deixaram-se atingir por uma abertura estética em face da "realidade", ultrapassando-a, de forma intuitiva, hermenêutica, "mística", ultrapassando a linha imaginária do limite físico da matéria, e transportando para esse mistério estético todas as angústias, sejam angústicas existenciais, sejam angústias civilizatórias. Acima de tudo, não se trata de uma experiência de conteúdo - ela nem parte de conteúdos dados, nem chega a quaisquer conteúdos. Ela é tão somente uma experiência de mistério que deve permanecer mistério, uma abertura para a inefabilidade que deve permanecer inefável.

7. A fé-enquanto-encontro, sendo estética, cnquanto mística, é, a rigor, o encontro do sujeito consigo mesmo por meio do "espelho" da transcendência mítica postulada e experimentada hermenuticamente. Nem o limite é dado, é postulado, nem a realidade última, mítica, é dada, é, igualmente, postulada, e, enquanto postulação mítica/mística, serve de ricochete para a auto-contemplação do eu místico. Ela é o desdobramento arquetípico da solidão por meio da mimese do(s) "Outro(s)/Alguma Coisa". Tudo, aí, absolutamente tudo, é "pura" experiência, mediada culturalmente, seja em seus contornos plasmáticos, cenográficos, seja em seus conteúdos pontuais.

8. Dizer que essa fé não constitui uma experiênca de conteúdo é dizer que ela não pode ser teísta, porque o teísmo é doutrina, especulação filosófica humana. Nem panteísta, nem deísta, nem ateísta, ´nem anímica, nem nada que o valha, porque tudo isso são conteúdos humanos, logo, políticas comunitárias, conteúdos engendrados na história de povos, como o sabe, insofismavelmente, a Fenomelogia da Religião. Logo, nenhuma doutrina, de nenhuma espécie, de nenhum povo, de nenhuma época, de ninguém, é-lhe tributária, conquanto, a seu tempo e modo, todas o sejam.

9. Nenhuma fé-doutrina, nenhuma fé-enquanto-ensino é o mesmo ou tem parentesco privilegiado com a mística da fé-enquanto-encontro. Daqui não se chega necessariamente a nenhuma fé-enquanto-ensino em particular, conquanto se compreenda por que e como se chega a todas. A fé (doutrina) de um povo, de uma gente, de uma comunidade, são invenções dessa gente, eventualmente de algum poder aí concentrado, invenção essa que usurpa - é o termo - a experiência aberta e inexprimível da estética mística subjetiva. Não, ela não substitui, ela castra, adestra, atacanha, empobrece, aprisiona, atrofia, mata, a estética da experiência hermenêutica da abertura ao mistério - filho da consciência humana, sua outra metade. Nisso, a doutrina é assassina, conquanto, por outro lado, também ela, um impulso antropológico.

10. Eu aprendi a me relacionar de modo adulto e maduro com essa fé-doutrina, sempre menor do que eu, menor do que nós: nada que ela me diz me encanta, me enfeitiça - mais. Sei quem ela é, como a criança que, um dia, flagra o pai a pôr presente sob a árvore, e o Papai Noel se despede, lentamente, naturalmente, sem dores maiores, para sempre. A fé-doutrina é o mito que não quer ir embora, que quer ficar - e fica. Não mais comigo.

11. Fica na minha experiência a fé-enquanto-encontro, que, insisto, é experiência estética de abertura para o mistério sem nome, e que sem nome fica, sem nome, sem figura, sem conteúdo, meramente abertura estética. Essa fé é doce e natural. Ela pulsa em cada batida do músculo cardíaco, ao ritmo do balanço da cadeira na varanda...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

(2008/44) Rumo a Lévinas


1. Jimmy tem me recomendado ler Levinas. Acabo de aceitar a provocação. Logo, Jimmy, terei algo a dizer.

2. Há algo nos pensadores judeus que me atrai - confesso. Penso que seja uma tendência à mística, sem, contudo, cair numa normatização doutrinária, de caráter platônico, irritante. Talvez seja isso. Talvez, no fundo, eu seja um místico incorrigível - mas não mais um "teólogo" em sentido clássico. Em um sentido "novo", sim. Mas não creio que aceitaria noções do tipo "queimar a face"...

3. Talvez - refletirei sobre isso - a Teologia-como-ciência se me apresente como uma definitiva libertação de "Deus", eu dele, ele de mim, para, livres, ambos, voltarmos a nos olhar na imensidão gélida da solidão insuperável. É isso, sim, vai ver: cansei do retrato amarelo sobre o altar. Aliás, cansei do próprio altar.

4. No fundo, minha insistência numa Teologia científica, seja lá o que vier a ser isso, quando vier, seja uma agonia em direção à reconciliação de meu espírito crítico e minha mística telúrica e tectônica: salvar-me a lucidez, libertando Deus. É mais ou menos como aqueles filmes de espíritos que precisam ir, para se libertarem de nós, e nós, deles. Somos sempre nós quem os deve libertar - e eles sempre se vão, agradecidos.

5. Vejamos o que tem Levinas a dizer sobre isso. As sinopses que li, antes de decidir gastar meu pouco dinheirinho com ele, indicam-me que há com o que trabalhar aí. Que seja para construir uma boa jangada, nesse mar novo e sem porto - valerá a pena.

6. Jimmy - prepare-se: afio o corte de minha espada. Aceitei o desafio. Haroldo, atenção! - talvez Levinas me cure...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2008/43) Mística e Teologia/Ciência


1. Não há jeito e modo - sempre sob meu juízo! - de esquivarmo-nos da crítica radical de Marx: a religião como ópio: "la religion est le soupir de la créature opprimée, l'âme d'un monde sans coeur, comme elle est l'espirit de conditions sociales d'où l'espirit est exclu. Elle est l'opium du peuple" (Karl Marx, Critique de la Philosophie du droit de Hegel). Há, contudo, a necessidade de enfrentarmos a crítica que está contida nessa inesquivável "leitura" da realidade: a religião, enquanto fenômeno e sistema social, enquanto plataforma cultural, enquanto "mito" e "rito" significantes, só e somente só pode subsistir sob a forma de alienação humana? Insisto: a religião tal qual se atualiza, hoje, e desde sempre, fez-se e faz-se por meio do velamento do real promovido pela inoculação de uma cosmovisão heterônoma e normativa, que, conquanto experimente a adesão "livre" do sujeito religioso, o faz pelo meio da subjetivação de "um mundo" como "o mundo" (sob demandas inconfessáveis). Doravente, é "no mundo" dessa religião, conforme essa religião o descreve, que o Homo religiosus viverá. Se essa for uma religião proselitista, e, pior, imperialista, de conquista, vale dizer, evangelizadora, esse mundo será, também, aquele em que todos os homens e mulheres do planeta devem, por soberania de "Deus", viver.

2. Também Nietzsche disse algo muito apropriado a respeito dessa heteronomia inexorável da religião tal qual ela, até hoje (e para sempre?), permite ser observada. Trata-se do Aforismo 129 de A Gaia Ciência: "As condições de Deus - 'o próprio Deus não oderia subsistir sem os homens sábios', disse Lutero, e com muita razão, mas 'Deus ainda menos poderia permanecer sem os insensatos', foi o que esse bom Lutero não disse".

3. Vero. Não se trata, por cima, pisando sobre a nata, considerar que haja uma religião opiácea, enquanto haja uma outra, de outro tipo, libertadora, digamos. É verdade que, sob certo aspecto, há uma diferença de "projeto" - mas, mesmo aí, até certo limite apenas - entre religiosidades de "direita" (reacionárias, quero dizer) e religiosidades de esquerda (revolucionárias, seja dito). Mas, a rigor, uma e outra utilizam-se do discurso sobre o "sagrado" - manipulação do sagrado em ambos casos - para promoverem, cada qual a seu tempo e modo, a credibilidade e a fé em seus respectivos projetos (ambos com "base bíblica!"). Nesse caso, é crendo num Deus de direita que o cristão se faz de direita (que seja vice-versa, tanto faz), ao mesmo tempo que é crendo num Deus de esquerda que o cristão se faz de esquerda (e vice-versa). Utopias promovidas pela heteronomia, pelo mito tomado como "real". Para ambas ocasiões - espírito crítico!

4. É o modo como vejo a coisa, hoje. É por isso que, enventualmente, desagrado a teólogos de direita - porque não me compram (mais) suas retóricas de Deus (não se salvam as Sistemáticas, qualquer que seja). Mas, igualmente, é por isso que, eventualmente, aborreço a teólogos de esquerda (tenho medo dos profetas!) - porque direi e insistirei que não há diferença entre o que ele faz e o que o teólogo de direita faz: ambos laçam consciências imaturas com seu laço mágico e sagrado. Ambos projetam em "Deus" seus respectivos projetos de mundo, e, por meio de "Deus", "convencem, encantam, enfeitiçam" as massas. Ambos estão engajados em suas respectivas Repúblicas.

5. Vejam: se me perguntarem que projeto ético me agrada mais, não hesito: o da esquerda teológica, o da libertação. Mas seu projeto, a meu ver, relativamente melhor, perde totalmente a base - engajamento na direção da libertação de consciências - quando, para se implantar, recorre à mesma estratégia de alienação que aqueles a quem combatem usam. Se os fins jultificam os meios, está explicado.

6. Não estou engajado em resolver esse problema concreto. Não tenho como saber se teólogos de direita e de esquerda - reacionários e revolucionários - crêem honestamente no mito que articulam, ou se somente se servem dele para promoverem seus respectivos projetos de mundo. Nesse caso, procuro manter-me a salvo de uns e de outros, e correr cá meu próprio risco. Assim, seria adequado eu confessar que tornei-me como que aquela peten surda de que fala o Antigo Testamento, tão surda que não se deixa encantar pelos encantadores.

7. Contudo, todas as vezes que se propõe discutir a emancipação da Teologia, a sua conversão aos valores da terra, instala-se o discurso quanto à "necessidade" religiosa humana - como outro dia Jimmy disse ter ouvido de grande teólogo brasileiro: o século XIX estava errado a respeito da religião... Ora, a necessidade humana que se tem traduzido nessa forma de religiosidade necessariamente alienante (de direita, de esquerda) é mesmo aquilo de que essa necessidade precisa? Ópio? Entorpecente? Ecstase? Receita da direita: Lexotan. Receita da esquerda: Prozac.

8. Aceito, no entanto, discutir profundamente a "mística". Uma Teologia eventualmente científica - verdadeiramente científica - não abalaria a mística. Abalaria o que, então? O regime político das religiões concretas, os "mitos", tomados como "fotografias confiáveis da verdade", as doutrinas, as "morais", os "ritos", as interpretações comprometidas, viciadas. A Teologia tornada ciência constituiria um gravíssimo golpe no coração da política da religião, essa em que homens e mulheres "santos" - honestos ou não, não faz a menor diferença, nesse caso - apresentam-se como oráculos, porta-vozes de Deus, guias, gurus, mestres, luz. Um teólogo convertido, da nova safra, a primeira coisa que ele faria seria emancipar de si mesmo as fileiras de crentes que esperam dele a verdade.

9. O golpe, quero dizer, a estocada, é político. O golpe se dará no poder. Em nenhum outro lugar. Outro modelo de relação - de poder, portanto - há de se instalar. Lidemos com isso. Mas o modelo a que Nietzsche se refere - o dos "homens sábios" (o mesmo da República, de Platão) -, esse, puft!, cadê?, ele rui no momento em que sua nudez é ostentada.

10. Por outro lado, abrir-se-á uma nova estrada - a da mística (Velha Anciã Noturna). Muda e sem conteúdo, e, contudo, quérula de conteúdos, exigirá que sejam desenvolvidas novas rotinas de lidar com a dimensão mais profunda da hermenêutica humana, a de dar sentido à existência. Mas, nesse caso, começaremos como que de novo (a velha roda, aí, jaz viciada e imprestável, e o que dessa tradição há de ficar é a obviedade de que, sem roda, a carroça não anda).

11. O que há de cair, decerto - já experimentei isso - são as respostas, todas, com as quais fomos construindo nossa "tradição" (Haroldo, amigo, esse exegeta não [consegue mais] "recita[r]" a tradição - terei desertado das fileiras exegéticas?). As perguntas, essas não, essas voltarão a ecoar, a retumbar em nossos tímpanos, milênios depois de as termos respondido com mitos, antes que soubéssemos que eram assim, imaginações políticas de "homens sábios".

12. Anunciaremos, no entanto, a boa nova?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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