Mostrando postagens com marcador consciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador consciência. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de julho de 2011

(2011/414) "Processo histórico" - plataforma dinâmica da emergência da consciência de direitos (ou da "segunda natureza"): Hegel, em Losurdo


1. Transcrevo um parágrafo de Losurdo:

Em polêmica com Bentham, que ironizava a ininterrupta violação e alienação dos direitos considerados 'inalienáveis', Constant observa: 'Mas, afirmando que esses direitos são inalienáveis e imprescritíveis, afirma-se simplesmente que não devem ser alienados, não podem ser prescritos, fala-se do que deve ser, não do que é'. Essa afirmação poderia muito bem ser subscrita por Hegel, embora com a advertência de que esse deve ser é não a expressão de uma exigência de consciência privada, de um postulado intimisticamente afirmado pela moralidade do indivíduo singular, mas o resultado objetivo de um processo histórico, indiscutível, que não pode mais ser percorrido ao avesso (Domenico Losurdo, Hegel, Marx e a Tradição Liberal, UNESP, p. 93).

2. Processo histórico! Aí está. Também a "consciência" humana resulta de um "processo histórico". Mas, uma vez desperta a consciência (de si), também se altera o próprio processo histórico, porque, agora, ele será vivido "por dentro". E não é outra a causa de o homem, por meio do processo histórico, ter-se "descoberto" como sujeito de direitos - é a sua consciência, a ideia que ele faz de si, a partir de si e do tratamento que dá e recebe também dos outros homens, o fato de que uns têm tudo, outros, nada, de que uns vivem em Paris (ou Finlândia), enquanto outros vivem em Bangladesh ou no Congo, foram esses fatos históricos, à luz da consciência de si, o fenômeno, o gatilho que disparou a consciência dos próprios homens como sujeitos de direitos: eles creram em seus direitos, eles os reivindicaram!

3. Não, não há "direitos" na Natureza - só "obediência" (e nem disso se trata, de fato). Mas os homens não são mais, em primeiro lugar, "Natureza" - o processo histórico dotou-lhes de uma segunda natureza, que não tem outra fonte que não a assimilação, a interpretação, a vivência desse mesmo processo histórico por meio da consciência. Um homem não pode ser escravo e considerar isso natural - porque ele sabe, ele vê, ele sente, sabe e vê que quem o escraviza é alguém igual a ele. O homem não é o boi. Se já foi macaco, ou se já teve por avô um símio, não é mais um deles. Conquanto, em certo sentido, ainda tenha dentro de si aquelas mesmas pulsações - pulsões! - simiescas: para o bem e para o mal...
Sim, a natureza é o reino da opressão, do domínio do mais forte, como sustentava o publicismo contra-revolucionário e os teóricos do 'darwinismo social' ante litteram, mas à natureza Hegel contrapõe a 'liberdade do espírito' e a 'igual dignidade e independência' dos homens e dos cidadãos (...). Freiheit, gleiche Würde e Selbständigkeit: parece a reproposição do trinômio oriundo da Revolução Francesa, mas esses direitos (ao lado dos quais começa a surgir um direito completamente novo, que é aquele à vida) configuram-se como inalienáveis, como inseparáveis da 'natureza', do conceito de homem, enquanto resultado de um longo parto histórico, de um longo e atormentado processo histórico que não pode mais ser percorrido às avessas. Ora, pela primeira vez com Hegel a inalienabilidade remete não à natureza, mas à história universal que elaborou e acumulou um irrenunciável patrimônio comum para todos os homens, para o homem enquanto tal (p. 98).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 31 de maio de 2010

(2010/399) O que afinal é ser protestante?


1. Pode-se tentar contornar a questão, servindo-se de outra: o que é ser evangélico? Todavia, também essa é uma questão cada vez mais difícil de ser respondida. Além disso, trata-se, nesse caso, de uma questão viciada - ao menos no que diz respeito ao meu grau de exigência. A identidade evangélica é uma identidade relacionada a um conteúdo, e isso exige, impõe, sem negociações, a adesão a esse conteúdo. No entanto, também o conteúdo dessa identidade, pelo menos no Brasil, está sendo alterado - como negá-lo, por exemplo, no que diz respeito ao front neopentecostal? Nem mesmo culpa há na plataforma teológica ali manejada, mas vitimização: o homem como presa do diabo (eventualmente, como era nos Evangelhos, o que se caracteriza como uma curiosa ironia...) -, o que tem reverberações em toda superfície acústica da plataforma evangélica

2. A identidade protestante apontará, também, para um conteúdo? Ser protestante é, como fez Lutero, abraçar uma cristologia soteriológica de caráter alegórico-normativo? Ser protestante é ser evangélico, mas em estilo europeu? Não se consegue me vender a história de uma Reforma que se distingue do Catolicismo por conta de sua fundamentação bíblica. Isso nunca houve. O que houve foi a substituição da base retórico-política da sustentação do dogma, que antes incidia sobre o clero, para a Escritura - mas, atenção: o dogma! Nunca se abriu mão do dogma, da doutrina, da fé (no mesmo sentido em que a palavra fé é empregada em Judas) [aí está o segredo da Teologia como Metáfora - ela sabe qual é a jóia da coroa, ela sabe em que não se pode tocar]. "Livre-exame", na Reforma, era um modo de dizer "livre de Roma", ou seja, "do jeito luterano". Não tinha nada a ver - e, na prática, não tem - com "exegese crítica".

3. Certo é que a Reforma pôs a Bíblia na mão do povo. Ainda que tenha sido essa também uma ação política, que ainda funciona muito bem nas milhões de comunidades-irmãs daquela primeira - uma Escritura a legitimar uma Doutrina -, ñunca houve intenção verdadeira no sentido de problematizar a fé e perscrutar o "real" (histórico - riem-se de mim os não-fundacionais de todo tipo e justificativa...) sentido das passagens bíblicas - as Declarações de Fé das inúmeras denominações cristãs não nos deixam mentir. Ser protestant era ser um tipo diferente de católico. E ainda o é.

4. Mas o que me persegue é o que eu quero dizer quando eu mesmo digo que sou protestante. Do que estou falando? Sou-o, porque aceito as doutrinas protestantes? Mas quais? Uma cristologia nicênica? No fundo, Lutero não tem uma relação fundamental com as Escrituras. Tem com o Cristo da "floresta" - o de Nicéia, que também pomos na estrada para Damasco... Mas, quando invoco a palavra, invoco-a no sentido da liberdade em face de tudo e de todos, na direção da prerrogativa da consciência e, levando-se em conta que o digo 500 anos depois de ela ter sido proferida, em contexto, agora, pós-dogmático, pós-metafísico, exegético, crítico, emancipado. Direi: a palavra "protestante", quando a pronuncio, não tem mais a identidade disfarçada do catolicismo normativo - transformou-se em iconoclastia inexorável.

5. Ou seja: ser protestante é um modo diferente de ser católico - uma adesão a conteúdo e prática normativos? Ou ser protestante é um modo radicalmente novo - e cada vez mais novo - de lidar com as Escrituras, com a "fé", com a vida? Ser protestante tem a ver com processo de consciência? Ou tem a ver com manutenção da tradição? O que é ser, afinal, protestante? Quem sou eu, afinal? Quem é esse que me olha, agora, desde o coração da angústia?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 2 de abril de 2010

(2010/280) Autonomia e pecado


1. Racionalista - eu? Sim, o sou, sim. Mas, também, místico. Não sei se sou mais racionalista ou se sou mais místico. Honestamente, não sei. Mas tento ser, ao mesmo tempo, as duas coisas que sou - sem que uma precise fingir que a outra não existe, como meu amigo professor e colega que disse que é pastor e sociólogo, mas cujo sociológico que é não pode ensinar nada ao pastor que é. O racionalista que sou dá umas boas lições no místico que sou, ao passo que o místico que sou preenche, sem estupros racionalizadores reacionários e contra-racionais, os vazios da racionalidade.

2. Ah, sim, a mística pressupõe uma posição ideológica. Claro que sim: o racoinalista que sou constrange o místico que sou, informando-o de que ele, mísitico, não pode saber de nada que não seja humano, ao passo que o místico, então, recolhe da advertência o transbordamento hermenêticio e lógico dela: se eu, místico, não posso saber nada do que não seja não-humano, resulta correto dizer que também tu, meu eu racional, não o pode saber, de modo que posso entregar-me a uma mística consciente de ser mística, a uma mísstica que sabe que é mito, a uma mística que é imagem-em-ação, fantasia da alma, desejo e saudade... E meu eu racional, então, reflete e diz, ah, tá, assim dá...

3. Não se trata de ensinar nada a ninguém. Se trata de ser como sou. Por exemplo: se eu entendo adequadamente Gn 2-3, aquela narrativa sacerdotal, cujo objetivo é encabrestar homens e mulheres a submeterem-se ao que "Deus" - faz me rir: ao que os sacerdotes afirmam ser o "bom" e o "mau", o que se pode e o que não se pode fazer, porque é a eles, sacerdotes, que cabe dizer a todo mundo o que se pode e o que não se pode fazer, se entendo bem essa passagem, mando aos quintos dos infernos todos os homens e mulheres que, um dia, tomados desse "delírio de Deus", desse delírio-de-serem-deuses, do delírio-de-falarem-por-Deus, tomaram-se no papel de demiurgos da sociedade. Ao inferno todos esses demiurgos!

4. Contudo, tendo a consciência racionalista do embuste sacerdotal, da fraude sacerdotal, nem por um segundo se dissipa de minha alma o sentimento de pecado e culpa, porque o pecado e a culpa não são invenções sacerdotais, são cooptações sacerdotais. O pecado e a culpa são conseqüências inexoráveis da consciência humana - o homem é pecado. Ponto. O que os sacerdotes fazem é arvorarem-se em gestores desse estado, em intermediadores dessa condição, prometendo perdão, vendendo perdão, em troca da submissão bovina das consciências às suas aleivosias teológicas.

5. A racionalidade não faz de mim um soberbo. Faz de mim um homem que ouve os discursos sub-repitícios da fé, o laço dos baiodeiros a amealhar vidas em redis dissimulados de liberdade. Meu racionalismo me liberta do laço dos passarinheiros, conquanto corra sempre o risco de cair no laço de outros. Nietzsche, por exemplo. Quis, uma dia, fazer-me crer que a democracia é alguma coisa baixa, própria da ralé, indigna da condição aristocrática dos aristocratas. Ouvindo-o, e amando-o como e o amo, eu, contudo, lhe fiz saber que a democracia é isso tudo, porque a democracia rasga o ventre da aristocracia, e liberta a todos. Penso que Nietzsche odeie tanto os sacerdotes, não porque ame suficientemente o gado: mas porque os sacerdotes disputavam a boiada com a monarquia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

(2010/051) Avatar - considerações livres


1. Assisti ontem à noite a entrega do Globo de Ouro aos produtores de Avatar. Havia assistido ao filme, na sexta-feira passada. Jordão fora com a namorada, na terça. Bel, Israel e eu fomos na sexta. Gostamos do filme. Visualmente, impecável. Israel pensa ter descoberto por que, na concepção dele, Jordão é tão chato para ver filme, em tudo vendo "probleminhas" - ele teria saído ao pai, por assim dizer... É que eu observara - e comentara, à saída - uma série de "probleminhas" na história em si, no roteiro. De resto, contudo, o filme é bom e recomendável. Bem sabido: para distração...


2. Não vou detalhar a história. Pinço um aspecto do tema. Uma raça - o povo Na'vi (humanóides azuis de três metros de altura) - é encontrado na Lua Pandora, orbitando em um planeta longínquo. Há um metal muito valioso justamente sob a "árvore sagrada"/"morada" de um dos clãs do povo, e, óbvio, a gente vai querer pra nós. Para tentar aproximar-se, cientistas humanos inventam um sistema - o Sistema Avatar: eles fabricam artificialmente "cópias" dos Na'vi, que humanos "pilotam" por meio de controle mental. Você entra numa máquina e se "liga" ao "avatar": enquanto você "dorme" em seu corpo físico, você "acorda e vive" no "avatar" azul. Se voce "acorda", ele "dorme". Logo, trata-se de um robô humanóide controlado à distância por você, mas com você "dentro".


3. Já se havia considerado, para o caso dos jogos de computador, alguma coisa parecida, como a imersão total. Imagina-se que, em algum tempo não muito distante, com poucas dúvidas de que não seja ainda esse século, em lugar de jogarmos olhando para a tela do PC, vamos jogar "dentro" do próprio personagem, por meio de óculos e/ou "capacetes" especiais, de modo que nosso corpo todo participará das aventuras. Os efeitos são inimagináveis...


4. Em avatar, é mais do que isso, porque "você" passa a viver no corpo do "avatar". Não se trata de um "personagem" outro, mas de você mesmo, mas em outro corpo. Trata-se de um processo de transferência de memória e identidade. Será isso possível, algum dia?


5. Edgar Morin dá por certa a "demortalidade" - não a imortalidade. Demortalidade é o estado em que a morte "natural" (velhice e/ou doença) deixa de existir, porque os órgãos vão sendo sucessivamente substituídos. Isso não evitaria traumas graves, de modo que alguém ainda poderia morrer por queda ou algo parecido. Logo, não é imortalidade, mas adiamento indefinido da vida. Ora, Avatar toca na questão. Se, no futuro, for possível transferir memória e identidade para outro corpo...

6. Inimaginável? Não necessariamente. Nossos bisnetos, quem sabe?, saberão em que isso pode dar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

(2010/036) Melhor não saber


1. Minha mãe foi médium kardecista até longa idade. Freqüentava um centro próximo de casa, no alto da Avenida São Paulo, onde vivi grande parte de minha infância e juventude. Ela "via" coisas. Uma delas foi a queda do Viaduto Paulo de Frontin (aqui e aqui). Que ela me tenha contado, outra ainda, foi o assassinato do vigia da Padaria Paulista, na esquina da Av. São Paulo com a Rua Rio de Janeiro, em Mesquita/RJ.

2. Desciam ela e Dona Odete, vizinha da casa da frente e também kardecista, o morro da Av. São Paulo, tendo saído da sessão espírita. E subia um homem. Minha mãe teria visto um vulto se aproximar dele, e lhe dar um tiro. Era uma visão. Ela perguntou a Dona Odete quem era. Era o vigia da Padatria Paulista. Ele morrerá hoje à noite. Avisaram-no. Ele não creu. Na madrugada, um fusca parou em frente à padaria, dele saiu um homem e deu um tirou na cabeça do vigia. Nunca chequei a história, é claro. A de cima, contudo, ao menos a tragédia, foi real.

3. Minha mãe conta que abandonou por isso o kardecismo - porque via, e não podia fazer nada, de modo que o sofrimento era maior... De fato, abandonou completamente as sessões. Hoje, confessa a fé evangélica.

4. A mediunidade é um caso extremo. Fiquemos com a lucidez da vida - a consciência. É uma desgraça. Pergunto-me - e ontem o fiz por longos períodos do dia - que vantagem advém-nos dela? Os animais têm as mesmas alegrias que nós, pelo menos os mamíferos, e disso não advém qualquer vantagem nossa, dado o fato de termos consciência - trata-se da alegria mamífera, o folguedo dos filhotes...

5. Por outro lado, a consciência humana nos dá ciência das desgraças em escala inimaginável. E que bem há nisso? Há milenios adquirimos a consciência e o que conseguimos evitar, de desgraça, com ela? A fome? O estupro? A guerra? O crime? Só conseguimos dormir intranqüilos, assombrados com a maldade humana...

6. Melhor seria não saber de nada, viver como um tolo, ser um tolo, como as crianças, que acreditam que a vida se faz com Papais Noéis e coelhos da Páscoa. O pior, senhores, é que essas mitologias infantis até se perpetuam na fase adulta - as mitologias religiosas. Mas, se observarmos bem, elas, as mitologias religiosas, estão tão carregadas da consciência da maldade quando a própria realidade. Diria que as teologias deixaram-se contaminar pela consciência humana. Não há, pois, mais Paraíso possível...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

(2009/620) Para que não pairem dúvidas


1. Quem o queira, quem o possa, faça-o. Eu não posso mais. Não hoje, agora, aqui. Talvez, quem sabe?, amanhã, após uma doença grave, uma perda dolorosa e perversa, coisas com as quais os deuses nos põem de joelhos, para mostrarem sua superioridade... Em sendo assim, em sendo os deuses tão "superiores", tão "aristocráticos", em sendo assim, então, talvez eu volte a podê-lo, como, um dia, já pude. Mas hoje, não mais...

2. Do que falo? De me enganar - e falo de mim - com uma mística "verdadeira", que fosse outra coisa que não relação estética com a própria comcepção de "além". Depois do XIX, para aqueles que beberam da águas que correm ali e dali, nem a mística, meus amigos, nem ela, a última fronteira, fica incólume. Toda a mística - t o d a - é relação (estética) do "si" consigo mesmo. Tal qual se pensa a divindade, assim se goza a divindade, e o gozo "demonstra" - ah, inequivocamente, dirá o medievo e o pós-moderno (para quem tanto faz) - a exatidão dessa "realidade". Dizendo-se de modo simples: eu imagino como é a coisa, experimento-a na imaginação, "atualizo-a", presentifico-a, e meu corpo goza todas as sensações dessa "experiência...

3. Como vêem, estou perdido. Encomendada minha alma aos infernos da tradição dogmática, estou livre para minhas próprias viagens teológicas. A despeito da consciência crua e cruel de que tudo não passa de minha própria construção, preciso da mística. Preciso, por alguma razão pessoal - talvez, da espécie" - lidar comigo mesmo por meio de uma "refração" no além. Talvez se trate de uma "abertura" de mim para comigo mesmo, resíduos ou efeitos colaterais da consciência "freudiana". Seja como for, o carbono não consegue segurar-me, conquanto eu saiba, de algum modo que, além do carbono, vai o sonho... Toavia, nao é programático. É assim que é. E basta a mim sabê-lo.

4. Pois eu sonho, sem enganar-me que se trata de ficção. Não se me dá mais, pois, sonhar a ficção dos outros, de um Agostinho, de um Paulo, de um Platão. Serei eu mesmo meu roteirista, meu diretor, meu ator, nesse monólogo lúdico comigo mesmo, como que com meu Amigo. Desde dentro da tradição, colho os elementos que me importam, deixo outros à beira do caminho - alguém os há de colher, decerto. E sigo em frente. Obviamente, meu saco de heresias vai comigo, que serve para exorcizar os poderos hipnóticos da Norma...

5. Aos quinze anos, reservava um travesseiro e um lençol para "Deus", que dormia ao meu lado. Hoje, é Bel quem divide comigo a cama. Não há lugar, mais, para "Ele". E, uma vez que eu descobri que, por mais que Ele seja Ele, nos limites da minha experiência, Ele é sempre "eu", finalmente o lençol é o mesmo, o travesseiro, o mesmo, e nós, um só...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de outubro de 2009

(2009/540) Da consciência - "via" Searle


1. "Espero ter esclarecido, no decorrer deste livro, que, a meu ver, é possível aceitar a existência e a irredutibilidade da consciência como fenômeno biológico sem admitir a ontologia do dualismo tradicional, segundo a qual há dois tipos de esferas metafísica e ontologicamente diferentes nas quais vivemos, ou dois tipos distintos de propriedades no mundo (...) [E assim] o dualismo parece fora de questão. Aceitá-lo é o mesmo que negar a visão científica de mundo alcançada com muito esforço no decorrer de vários séculos" (John R. Searle, O Mistério da Consciência. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 208).

2. Searle busca uma "explicação biológica da consciência". Sim, uma explicação, porque a intuição já está entre nós, desde A Gaia Ciência, do extemporâneo louco de Turim... Para a questão, eu sugiro, além de Searle, a inadjetivável coleção do também inadjetivável Edgar Morin, O Método.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/218) Nó górdio



1. Se não sabemos o que é o pensamento, a consciência, então não sabemos é nada. Se não sabemos como o cérebro faz, para, desde suas circunvoluções de carbono, deixar escapar - emergir - a consciência, o pensamento, a crítica, então sabemos é menos ainda. E, contudo, é por meio desse mesmo não-conhecido pensamento que devemos chegar o conhecer o conhecimento e o cérebro que o permite...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(2008/56) Esse Lévinas...


1. Jimmy está ocupadíssimo, por isso não escreve no blog. Ontem falamos, e tudo se esclareceu. Muita natação, na PUC ("praticamente um Phelps), muita praia ("Menino do Rio!) e, duríssima tarefa, umas aulas do doutorado. Assim que se desvencilhar de tantas questões de inexorável urgência, talvez - urgências sempre se põe à frente da fila, essas malandras... -, talvez, eu dizia, voltemos a ler Jimmy.

2. Enquanto isso, o idiota aqui fica lendo Lévinas, que Jimmy, entre uma braçada e umas paqueradas na orla, me manda ler: "Você devia ler Lévinas!". Lendo Lévinas na cama, no ônibus, no metrô, na sala dos professores, até diante do computador, enquanto espero um download. Tem algo de muito errado nisso, não, seu espertalhão?

3. Em todo caso, lembremo-nos de Oscar Wilde - já se é pobre, e se, ainda por cima, vai-se gastar tempo com reclamações... Pois bem, ontem, lendo o primeiro artigo, "Deus e a Filosofia", da "Parte II - A Idéia de Deus", encontrei um parágrafo muito, muito interessante.

4. Prego-lhes uma peça, amigos, estejam alertas! Alertas, leiam as seguintes linhas que, juro!, transcrevo literalmente:

4.1 "Se experimentamos uma necessidade de autotranscendência, é porque de algum modo obscuro, e apesar de nossa ignorância consciente, sabemos quem realmente somos. Sabemos (ou, para ser mais explícito, alguma coisa no nosso íntimo sabe) que o fundamento de nosso ser individual é idêntico ao Fundamento de todo o conhecimento e de toda existência".

4.2 "(...) Quando o eu consciente transcende a si mesmo, o Ego essencial está livre para perceber, em termos de uma consciência finita, a verdade de sua própria eternidade, juntamente com a realidade correlata de que cada particular, no mundo das sensações, partilha da intemporalidade e do infinito. Isso é libertação, é iluminação, é a visão beatífica, na qual as coisas são apreendidas no que são 'em si mesmas', e não em relação a um eu odioso em seus desejos ensaciáveis".

4.3 (...) "A experiência total, que liberta e revela, é a da eternidade no tempo".

5. E aí? O que acham desse discurso? Infinito e Identidade - eis a pedra de toque. O "eu pessoal" ("odioso") é idêntico ao "Ego essencial" - o Infinito, o Eterno, no finito, no "aparente".

6. Talvez já tenham caído na armadilha que lhes armo. Jimmy, também tu terás caído? Se caíste, rio duas vezes!

7. Bem, permitam-me apelar para a regra evangélica, e convidar-lhes a andarem mais uma milha. Brindo-os com essa citação:

7.1 "A consciência já rompeu com esse des-interessamento. Ela é identidade do Mesmo, presença do ser, presença da presença. É preciso pensar a consciência a partir dessa ênfase da presença. A presença só é viável como um retorno da consciência a si mesma, fora do sono, e, por aí, a consciência remonta à insônia; mesmo que este retorno a si mesma, à guisa de consciência de si, nada mais seja que esquecimento do Outro que desperta o Mesmo do interior, mesmo que a liberdade do Mesmo nada mais seja que um sonho desperto. A presença só é viável como incessante retomada da presença, como incessante re-presentação. O sem-cessar da presença é repetição, sua retomada, sua apercepção de representação. A re-tomada não descreve a re-presentação. É a re-presentação que é a própria possibilidade do retorno, a possibilidade do sempre ou a presença do presente. A unidade da apercepção, o 'eu penso' - a descobrir na re-presentação - à qual, assim, se devolve uma função, não é uma maneira de tornar a presença puramente subjetiva. A síntese realizada pela unidade do eu penso, por trás da experiência, constitui o ato da presença ou a presença como ato ou a presença em ato, Movimento englobante realizado pela unidade nucleada em 'eu penso', o qual, sinopse, é a estrutura necessária à atualidade do presente. O conceito operatório do idealismo transcendental que é a 'atividade do espírito' não repousa sobre uma empiria qualquer do desdobramento da energia intelectual. É, sim, a extrema pureza - extrema até a tensão - da presença da presença, que é o ser em ato aristotélico, presença da presença, tensão extrema que vai à implosão da presença em 'experiência feita por um sujeito', em que precisamente a presença retorna sobre si mesma realizando-se plenamente".

8. Longo, não? Mas necessário para compreender que o que ele diz (7.1) é, a seu tempo e modo, rigorosamente o mesmo que o dito nas citações em 4.1, 4.2 e 4.3. Agora, a revelação da traquinagem que fiz. Aqueles três parágrafos (4.1, 4.2 e 4.3) são um citado de Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun, Círculo do Livro, p. 74-75. Não são declarações, in litteris, de Lévinas. Contudo, diz-se, lá, o mesmo que, aqui (7.1), quem diz é Lévinas.

9. Huxley é um famoso "esotérico" (no sentido cult do termo), além de pesquisador e romancista (Admirável Mundo Novo, As Portas da Percepção, Entre o Céu e o Inferno). É autor de Filosofia Perene, que registra o que eventualmente poderia ser tornado público da "Grande Tradição" - recomendável, sua leitura. Os três parágrafos que citei foram extraídos de um excerto interno ao Os Demônios de Loudun, em que Huxley procura discutir, de forma literariamente magistral! (uso o excerto para ensinar pessoas a lerem) a "necessidade humana de autotranscendência". Porque, para Huxley, o "você" é o "Outro": "o objetivo, o fim, o desígnio final de nossa existência é dar espaço no 'você' para o 'Outro', é afastar-se para que o fundamental possa vir à superfície de nossa consciência; é morrer tão definitivamente que possamos dizer: 'Estou crucificado com Cristo; apesar disso, estou vivo; contudo, não eu, mas Cristo vive em mim" (p. 74 - nada de contentamentozinhos pequenos-cristãos, pessoal: Cristo, aí, é pura peça de Lego. Imediatamente antes, Huxley dissera: "sabemos que Atmã (a mente que adota o ponto de vista temporal) é o mesmo que Brahman (a mente em sua essência eterna. Sabemos de tudo isso, mesmo desconhecendo as doutrinas nas quais a Verdade Fundamental tem sido relatada". "A Verdade e o Dever fundamental podem ser formulados, de forma mais ou menos adequada, no vocabulário de todas as religiões mais importantes. Na linguagem utilizada pela teologia cristã, podemos definir 'revelação' como a união da alma com Deus" (p. 75, grifo meu). A linguagem de que se servem as "doutrinas" das religiões concretas servem a Huxley para a expressão da Verdade Fundamental, aquela da Filosofia Perene - a teologia cristã faz o mesmo com a noção do Cristo Cósmico: nada de novo no front...).

10. É um excelente mito esse que Lévinas encena. Tão velho quanto o Egito, a Índia, a China milenar - Platão não inventou a teoria da Idéia a que tudo fundamentalmente se resume: apenas aconteceu de ter sido ele a ter escrito parte de nossos fundamentos ocidentais. Esse tipo de operação - de estratégia (consciente ou inconsciente não faz a menor diferença) - é a que todo teólogo/filósofo grandiloqüente, "ontológico", totalizante, de síntese, opera. Tudo tem de ser posto dentro do Todo, Uma Grande Unidade tem de subsistir sob as Miríades de Aparências Fortuitas. Platão o fez (Paulo e Agostinho são hipônimos em relação a Platão). Huxley o fez (antes dele, Madame Helena Petrovna Blavatsky - que diferença entre ela, Platão, Paulo, Agostinho, Huxley, Lévinas?), e que, agora, quero dizer, foi em 1973, mas "agora" no sentido de que é agora que o leio, Lévinas: "como se a idéia do Infinito - o Infinito em nós - revelasse uma consciência que não está suficientemente desperta? Como se a idéia do Infinito em nós fosse exigência e significação no sentido em que, na exigência, uma ordem é significada" (De Deus que vem à Idéia, p. 97). Puro Platão, não? E, para arrematar, o Platão redivino da modernidade: "A figura infinito-introduzido-em-mim - conforme Descartes contemporânea de minha criação" (p. 98). E, para sabermos que Lévinas põe toda essa longa tradição a serviço da fé que tem: "o discurso filosófico deve, portanto, poder abranger Deus - de que fala a Bíblia" (p. 86). Jimmy, Derrida estaria sendo sarcástico? Logo Derrida?

11. Ah, Jimmy, não entendo por que cargas d'água pareceu-lhe que devia eu ler Lévinas, se tudo quanto eu tenho "atacado" é justamente essa ipsissima vox, ora em Lévinas, ora em Tillich, ora em teólogos mais próximos. Fé, presunçosa fé, eventualmente, arrogante, impondo-se, com aparência - só aparência - de diálogo. Deve-me R$ 40,40. Com isso podia ter ido ver Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, acompanhado do melhor pedaço de minha ínfima vida.

12. Mas, já que gastei, vou arrancar a pele inteira de Lévinas. Não para dizer que esteja errado. Mas para denunciar que é mito - só mito, nada mais do que mito. E, mito por mito, o de Exu também é bem interessante...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

(2008/30) "Inteligência", "consciência" - e seleção natural


1. Há cem anos, Nietzsche já o sabia: "a consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema" (A Gaia Ciência, aforismo 11). Interessante dizê-lo - li-o uma ou duas vezes, antes de O Método, de Morin, e nunca me dera conta de sua implicação. Depois de ler Morin, pegando-me relendo esse aforismo, deparei-me com a alegre constatação de que Nietzsche já dissera parte do que Morin diz hoje, mas cem anos antes. Morin não o nega. Bebe até de Heráclito, um tantinho mais "velho"...

2. Mas interessa-me entrar nesse aforismo. Ele fala de consciência como "órgão": uma emergência orgânica. Nesse sentido é divertido lembrar como Morin responde ao "cogito" de Descartes: sem mitocôndrias, moço, não cogitas nada... Descartes ainda é platônico: ainda pensa que a idéia é anímica, e não telúrica. Nietzsche, não - a consciência, a idéia, o pensamento, a linguagem, tudo é coisa que o corpo, a carne, a "vida" (a própria vida) gerou. Nesse sentido, um capítulo da seleção natural. Não é coincidência que a palavra "evolução" tenha sido usada por Nietzsche, ciente das teorias de Darwin.

3. Pois bem. O olho também é uma "evolução". Não só o olho: a boca, os pés, a pele, os ossos, os pêlos, as mãos, o ouvido, o nariz, o ânus, as genitálias, o umbigo. A "vida" foi-se inventando, não de um em um, mas de muitos em muitos (Stephen Jay Gould, A Vida Maravilhosa). Quando ela inventou o "olho", de algum modo, o olho democratizou-se - certo, tem olhos de inúmeros tipos, mas o olho é democrático. Quando a vida inventou a vértebra, a vértebra, de algum modo, foi sendo emprestada a um conjunto enorme de espécies. A explosão da vida é, ao mesmo tempo, a explosão de órgãos funcionais - malgrado o antagonismo atualizado das formas da vida, a potência democrática dessa explosão revela-se no fato de que mandíbulas todos as têm, olhos, sempre, nadadeiras, cílios, igualmente (ao menos os heterotróficos).

4. O que eu quero dizer com isso é que a seleção natural deu-se por meio de relações ecológicas, mas ela não conseguiu impedir que as descobertas de uma espécie pudessem ser igualmente descobertas por outra (à idéia de que todas as espécies derivariam de uma única, Gould defende uma múltipla origem, com múltiplas variáveis, eventualmente "paralelas", paralelismo evolutivo em face da finitude dos exercícios ecológicos entre testagem e eficiência funcional [cf. Burgess Shale]).

5. Seleção natural "democrática"... E, então, minha pergunta: se a consciência faz parte dessa história, por que ela não é democrática? Por que a espécie humana é a única a ter desenvolvido a consciência, logo, a inteligência consciente, teleológica, intencional, instrumental, na forma como a conhecemos? Por que outras espécieis não se tornaram como nós? Ah, sim, isso fez com que nos considerássemos filhos dos deuses, certamente, mas, já sabemos, desde Feuerbach pelo menos, que, em termos históricos, primeiro concebemos os deuses à nossa imagem, e, depois, outra geração fez de nós filhos deles. Com o que volto à questão: por que apenas nós?

6. Minha resposta-hipótese: a consciência é predatória demais, de modo que a primeira espécie que a desenvolveu acabou impedindo que o mesmo se desse com outras espécies. Não digo que tenha sido intencional: opa, deixa eu dizimar os outros, para que apenas eu seja consciente! Não. Até essa questão é casual, circunstancial, ecológica. Se a seleção natural demanda tempo, muito tempo, mais tempo do que aquele em que a espécie humana goza de consciência, e se a seleção natural demanda circunstâncias ecológicas precisas, talvez o fato de que, por meio dos ganhos competitivos advindos da emergência orgânica da consciência, a espécie humana tenha intervindo de tal modo no planeta que tenha terminado por impedir que as condições que promoveram, nela, a consciência, se instalassem em outros nichos ecológicos, permitindo, eventualmente, que o mesmo ocorresse com outras espécieis.

7. Se eu estiver correto em pensar assim, há um elemento predatório inexorável na espécie humana, não na sua condição animal, biológica, mas na sua condição "humana". Isso explicaria por que os deuses são, em sua esmagadora maioria, praticamente sem exceções, conscientes de seu "poder" incontrolável, terrível - por que os deuses são super-homens, super-conscientes, super-poderosos. Se fôssemos deuses, seríamos como nós mesmos os inventamos. Os super-capitalistas de hoje, e os super-comunistas de ontem, não o comprovam? Sim, tanto quanto os super-religiosos de sempre e os super-ateus de todo dia.

8. Por outro lado, a consciência humana pode decidir abrir mão desse poder, pode construir nichos ecológicos harmônicos. Se desejar. Mas a humanidade, como um todo, é uma abstração - ela não existe. O que existe é cada pessoa, consciente de seu poder e livre para exercê-lo como bem entende. Sempre haverá o risco de eu e/ou você decidirmos que a consciência é um bem valioso demais para que dividamos com inferiores nosso planeta, nossa riqueza, nossa vida, que não é digno de nós a igualdade, a fraternidade, e que esses valores são constituintes da debilidade humana, fraqueza da espécie - aliás, como pensava Nietzsche, aristocrático que era: amor?, misericórdia? - moral de escravos.

9. Se eu estiver certo, somos eco-assassinos, eco-dizimadores - por natureza. Pandora. É desde aí, dilacerados de nossa ingenuidade e inocência cruéis que haveremos de aprender a viver - como praga ou como caranguejo-ermitão. Aí não há nem bem nem mal - apenas história. Mas, diante de nós mesmos e de mais ninguém, havemos de decidir entre um e outro. Porque podemos. Devemos? Não, não - não há quem nos obrigue a tanto. Não há, aí, uma instância do "dever" - nem que eu a invente, porque é inventar hoje, e desinventar, amanhã. É uma questão de querer. Querer hoje. Mas - e amanhã?






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

(2008/002) Para uma nova teologia, uma nova fé


1. Ah, sim, os ventos do 19 sopraram na minha cara. Ventos gelados da caverna escura e romântica. Ogros vorazes - como o de Bloch! - bateram-me na cabeça com antigas clavas. Comeram-me a carne. Roeram-me os ossos. Lambem os beiços, agora. Chupam os dedos. Fazem a digestão.

2. Não, não é para qualquer um gostar que lhe soprem os ventos na cara. Dói. Corta. Fere. Sem cura. Na cabeça, a clava deixa uma ferida exposta. Incurável. E o hálito desses monstros, meu Deus!

3. Foi mesmo a clava daqueles ogros que matou Deus. Metodologicamente! Acharam-no dentro de nós. É como quem vê uma coisa, coça o olho, e ela some. Mas ele, o olho, não. Não sei quanto a mais ninguém - eu, de minha parte, rio, com aquele riso de quem se ri de matar a charada, ainda que tenha sido outro o assassino. Século de coçadores de olhos, o 19 constrói-se como peças de uma engrenagem - um dizendo a partir do outro, para além do outro, com e contra o outro, escaladores de zigurate, de modo que, no fim, a velha vida não é mais possível. Não, não é. Depois de Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud, oftalmologistas, a velha vida não é mais possível. A velha teologia. Os velhos sonhos. Ah, e como gosto disso!

4. Uma nova? Sim! Humana, demasiado humana. Emancipada. Crudelíssima. De modo que ela há de perguntar-se, até, incoveniente que é essa insofismável Nova Senhora Teologia, que "crer" o que é? Não há de se contentar nem com a câmara escura e segura do "crer" - até aí ela vai meter a mão, como ogro a catar ratos no buraco, e há de espremer a gente, até sangrar, até ouvirem-se os craques dos ossos quebrando. Isso de "crer", o que é isso?

5. Também (em havendo) o "crer" na "nova teologia", também esse "crer" não será, não mais, como o antigo. Não será (mais) "saber". Não será, menos ainda, um "outro tipo" de saber, acima dos saberes emancipados das ciências, um quarto escuro de recalques infantis ignorados, muito menos, um gueto retórico de metáforas politicamente calculadas. Ah, e por favor, tampouco metáforas!

6. Para uma nova teologia, um novo crer - que sabe o que é, e não se ilude, não se esconde, não tem medo de confessar-se sonho e imaginação, quimera e fantasia. Uma nova fé, Morin, que nos pediste, para fazer par com teu novo ateísmo, e dançar com ele a valsa do desconhecido e desejado.

7. Não sei quanto aos meus amigos. Quanto a mim, quero uma nova teologia, cheirando a barro - mas verdadeiramente, honestamente, sinceramente, iniludivelmente, ineludivelmente, cheirando a barro. Uma teologia orgânica. Mais do que teologia como ciência humana, uma teologia como ciência cognitiva, identificado que seja seu DNA nas minhas tripas, no meu fígado, na minha próstata.

8. Ah, meu amigo Nietzsche, tu que sabias que a consciência humana era - ainda é - a última etapa do desenvolvimento orgânico do Homo. Sim, sim, meu amigo - e a pérola de dois mil anos dessa história, também ela, não, meu amigo?, é sangue e mitocôndria.

9. Mas alto lá! Que não seja como o profeta que morre exatamente agora que viu o messias, nem como os filmes que acabam no momento que a felicidade finalmente triunfa sobre hora e meia de tristes desencontros. Imploro-te, vida, permite que meus olhos vejam florescer esse jardim, que a minha boca beije ainda mais mil de mil vezes a de Bel. Dê-me cem anos. E, então, se quiseres, me leves. Antes, não.

10. Agora, vai, sopra.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio