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sábado, 25 de abril de 2009

(2009/221) Hermenêutica e História


1. Preste-se atenção a esse soneto de Augusto dos Anjos:

A árvore da serra

— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


2. O que quer dizer Augusto dos Anjos? Esse soneto constitui um bastante antigo - cem anos! - libelo ecológico (trataria do que parece ser o mais "óbvio", a derrubada de árvores), ou, não é nada disso, trata-se, antes, de uma referência cifrada (anafórica) a um caso histórico, envolvendo a vida do poeta e um seu amor de juventude?

3. Conta-se que sua mãe teria mandado matar a filha de um vaqueiro, filha essa por quem (e porque) dos Anjos se apaixonara, e que esse teria sido o verdadeiro enredo, secreto, de A Árvore da Serra. Faz sentido? O quê? A história em si? Bem, a história em si, faz - se ela "bate" com a letra da poesia, aí já é outra história. Diz-se, por exemplo, que a mãe não aparece no poema, mas sim o pai, porque este teria sido um pau-mandado da própria mulher, e que, apesar de ter ficado "do lado" de Augusto, teria, contudo, apoiado a ação da mandante assassina. Essa seria, inclusive, a razão de o pai sempre aparecer na poesia de Augusto dos Anjos, mas não a mãe. É uma explicação, não é? É verdadeira? Depende...

4. Diz-se, ainda, que essa história é difícil de ser levantada, porque a família do poeta era, além de "paraibana", de posses, e, nos termos da política e da sociedade da época, com essas coisas não se "bulia". Assim, fica o dito pelo não dito.

5. Desse imbróglio, extraio duas conclusões. Primeiro, se você está interessado em saber exatamente o que um autor quis dizer com o que escreveu, só lhe resta a reconstrução histórica da "mente" desse escritor (Schleiermacher já o dissera há duzentos anos). É difícil. Exige muita arte, além de técnica. Carl Sagan disse que o cérebro tem dois hemisférios, um "intuitivo", e outro "crítico-analítico", justamente porque o regime de "compreensão/entendimento" humano desdobra-se por meio da antecipação/hipotetização e subseqüente "testagem" - criatividade e crítica. Nesse caso, a "hipótese" do assassinato de uma filha de vaqueiro até pode ser "real", mas há que se fazer alguma força para que a narrativa a sustente - a substituição da mãe pelo pai me parece um ponto importante para a crítica, bem como o fato de que seria justamente um pé de tamarindo, uma árvore!, um personagem eventualmente recorrente das poesias de Augusto dos Anjos, e que tal árvore ainda se encontraria de pé no Engenho Pau d'Arco, no Município de Sapé, na Paraíba, onde nasceu o poeta, à sombra do que está instalado justamente o Memorial Augusto dos Anjos. Logo, não se pode descartar, por alegar-se extemporânea ou anacrônica, uma percepção ecológica por parte de dos Anjos:

6. "Como é que ele, tendo nascido no bucólico Engenho de Pau D’Arco, no sertão paraibano, se afeiçoou a uma árvore, um reles pé de tamarindo de 200 anos, e a um lago de superfície prateada? São estes os únicos resquícios de seu tempo ali, além da casa de sua ama-de-leite Guilhermina e do sino, da pia batismal e do frontispício da igrejinha local" (Jotabê Medeiros, Augusto dos Anjos usa Pau D'Arco em todas as datas, Estadao.com.br, 08/09/2007).

7. Para uma outra possibilidade metodológica (literária) de leitura de textos quaisquer, poemas ou não, nesse caso vale a chave de leitura interposta pelo próprio leitor. Alguém poderia propor que árvore e tronco, aí, transignifique uma - e invento a hipótese - homossexualidade latente no poeta, que sua família coibira or meio de violência subjetiva, se são já social e física, cuja cena máxima, o recalque, mas não a capitulação, do estado biológico-psicológico de gênero, é o poeta agarrado ao "tronco" extirpado a machado... Não faz sentido? Viva! Para esse tipo de leitura, tudo é bem-vindo, tudo se deve aplaudir, e, se não se aplaude, é porque não se sabe brincar sequer jogo que se joga. Nunca vou esquecer da professora de Língua Portuguesa da Gama Filho que me deu sete e meio na interpretação literária de um texto literário de Voltaire, O Caolho, porque minha interpretação estava errada... Fabuloso!

8. Não é o tipo de jogo de que gosto, esse, o da leitura "literária" - até porque quase ninguém que o brinca sabe brincar com ele. Gosto da exegese, e com isso, quero me referir à interpretação psicológico-histórico-social de uma narrativa, seja de dos Anjos, seja de Amós. Sabendo que é o pressupsoto de entrada que determina o regime de interpretação, os métodos, e, nesse caso, a "faixa de onda" possível para as respostas, entro nesse jogo com essa consciência, a de que, se digo do que o autor disse outra coisa que não o que ele dissera, adultero-o, avilto-o - e minto. Nesse caso, sou aquele cirurgião dentista que, tendo podre o paciente o dente siso, extraio-lhe o canino...

9. Pois bem, o tom sempre "belicoso" de Peroratio - quando sou eu a escrever - deve-se ao fato de que a exegese é heurística (ou não é exegese), indiciária (ou não é exegese), venatória (ou não é exegese), e a ela cabe, por dever de ofício, a pá e a picareta, o cinzel e o buril, a lupa e o pincel, porque é trabalho de arqueologia, é luta, em busca da verdade. Já a literatura, não, é espetáculo de gozo estético - e aí, se aí há "conflito" entre orgasmos líricos, é patologia mesmo... Porque cada qual tem o direito de gostar de seu próprio gemido lúdico, mas não - é inconcebíbel - desprezar o do outro.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. aqui, Eu, livro - único - de poesias de Augusto dos Anjos, em .pdf, e de Domínio Público.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

(2009/144) "A Floresta", de Augusto, e eu


1. Às vezes, tenho a sensação de que a (minha) vida [talvez devesse tirar os parêntesis] é a representação de um enredo, que ignoro, como se cada "ato" estivesse ligado ao outro não "por dentro", mas desde fora. Não, não, por favor, que tenho horror, abjeção mesmo, a qualquer laivo de "determinismo" - teológico (calvinismo) ou secular (estruturalismo). E, no entanto, essa neurose mística que me acomete, quantas vezes, beira essa patologia!

2. Sou Wald, já sabemos - floresta (selvagem). Agora há pouco, em meu ritual litúrgico de consulta ao Oráculo, bati-me de cara com um poema de Augusto dos Anjos - "A Floresta". Na minha adolescência, o Simbolismo de Augusto dos Anjos e de Cruz e Souza me apaixonava, também pelo fato de que, como o primeiro, eu não sabia, até então, o que era o amor. Sofrer de amor, ah, era o maior dos prazeres... É compreensível uma tal experiência, posto que eu vivia "preso" dentro de casa. O amor era, para mim, hormônios e olhares, mais nada.

3. Há muito não lia dos Anjos. E acabei de ser petrificado por "A Floresta":

A Floresta
Em vão com o mundo da floresta privas!...
- Todas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
São absolutamente negativas!

Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamento de álamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!

Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
É dor viva, trancada num disfarce...

Vivem só, nele, os elementos broncos
- As ambições que se fizeram troncos,
Porque nunca puderam realizar-se!

4. Impactado pelo poema, fui verificar a procedência de sua autoria (difícil alguém escrever como Augusto dos Anjos, mas, em todo caso), e, para minha ainda maior perplexidade, deparei-me com um artigo em que Augsuto dos Anjos é relacionado a ninguém mais do que Schopenhauer - um dos românticos, em grande medida, meus "pais epistemológicos" -, e isso precisamente por força desse poema. Trata-se de "A Racionalização de Schopenhauer na Poesia de Augsuto dos Anjos", de Cristiano de Sales (aqui). Eis um extrato de suas observações, nesse caso, aplicadas diretamente a "A Floresta":

4.1 "A começar do título já se pode notar que o soneto sugere um lugar cuja essência está no instinto, já que esta é a força que impera em meio à vida que lá existe. Ou seja, a intervenção racional do homem não é invocada ao que tudo indica. Afinal, conforme traz a primeira estrofe, toda a tentativa de interpretação se revelará negativa diante da complexidade da floresta.

4.2 A segunda quadra é um convite à reflexão e ressalta a sedução de um mundo que em muito lembra o olhar, ou a descrição, que Euclides da Cunha volta ao sertão, também na virada do século. Mas é a partir do primeiro terceto que a idéia schopenhauriana começa a ganhar traços bem definidos, pois nele estão contidos dois pilares fundamentais na construção teórica do pessimista filósofo: a dor como essência e o disfarce".


5. Também aí eu me encontro. Quem me vê, por fora, fatalmente empregaria a palavra "razão" ("ele é um crítico!") para descrever-me. Não, não, não. Emprego, sim, epistemologicamente, metodologicamente, a razão, sem a qual, não há, decerto, emancipação, jamais, crítica. Mas é, sobretudo, o instinto, a mística, o farejamento, o que me define - o assombro romântico em face do mundo. A razão, nesse caso, é tão-somente uma ferramenta de defesa, de terraplenagem, de arroteamento, com a qual constuímos nosso mundo, furtando-nos ao peso insuportável da nudez da matéria. Na prática, o que faz de mim um não-carismático, um não-fundamentalista, um não-apologista é essa correlação entre a mística de fundo (um cheiro de mistério impregna a vida) e a crítica (mas tudo quanto dela se diz é puramente invenção do dizer). Nisso, mais uma vez, encontro-me, se ele me permite, ao lado do incomensuravelmente genial Edgar Morin, quando ele diz: "é preciso ser racional e místico"... É talvez apenas no interior da floresta selvagem que se pode encontrar o equilíbrio adequado entre forças cosmogônicas tão poderosas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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