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sábado, 30 de janeiro de 2010

(2010/116) (Também) a Arte flerta com a Loucura


1. De modo geral, a "genialidade", seja ela qual for, na arte, na ciência, na religião, deixa-se produzir por um grau de desconformidade psicológica mais ou menos profunda. Talvez porque a arte seja - sempre - uma ultrapassagem do "real", nela a Loucura deixa-se flagrar mais nua do que na ciência. Na religião, dificilmente se deixará de demonstrar que, nas suas origens, acocoram-se patologias da mente - com o que não quero dizer que a religião seja o fruto nobre de uma doença, mas que apenas muito tardiamente identificou-se como tal a Loucura, de modo que, até então, recebia-se-lhe nos templos, na forma de oráculo... Ah, quem negará que religião, neurose, esquizofrenia e toda sorte de disfuncionalidades psicológicas caminham juntas, conquanto não sejam, necessariamente, sinônimas? Na ciência, a disfuncionalidade psicológica se traduz num regime de foco e concentração, com naturalmente perceptíveis benefícios para a ciência, mas, não exatamente, para a vida social e familiar. Graus menos graves de autismo, por exemplo, exercem interessantes pressões sobre a "genialidade" na ciência.

2. Talvez esse fenômeno seja paralelo à "evolução" - no sentido de que certas disfuncionalidades orgânicas, acidentais, findam, aleatoria e ecosistemicamente, revelando-se mais bem adaptáveis do que a "normalidade", passando a anormalidade circunstancial a ganhar vantagens competitivas sobre os organismos até então adaptados. Religiosos, artistas e cientistas (de ponta?) são, por assim dizer, filhos mais ou menos distantes da Loucura.

3. A título de ilustração, recolho uma série de obras do mais "louco" dentre os gênios da arte - Salvador Dali. É hiperbólica a analogia, eu sei. Mas, o que há em Dali, em borbotões, há em cada um, eventualmente, em gotas. No fundo, há de se escolher entre reter as águas na barragem - ou abrir as comportas... Dali dinamitou-as.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Para os créditos, cf. os links de origem, ciclando nas imagens.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/543) Da tua boca-manicômio


1. Há quem me considere "louco". Não se trata, nesse caso, de um diagnóstico. Trata-se, nesse caso, de um desdém, de uma "desculpa", de uma "justificativa". Ele é louco...

2. Eu penso assim: se há algo interessante nos Evangelhos, não se me dá que seja interessante porque foi Jesus a dizê-lo. É-o, se o é, porque seu conteúdo é interessante. Não acho sublime a fala de Jesus, diante dos apedrejadores da mulher supostamente adúltera, pelo fato de ter sido Jesus a dizê-la. Fosse Satanás, ainda seria sublime. E nem mais, nem menos...

3. Sou louco? Está bem. Mas deixem-me quieto. Mas... e quanto às minhas loucuras? É para desviar-te delas que me fazes louco? Tua boca é meu manicômio, suponho... e que tormento, então, a tua alma?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 3 de outubro de 2009

(2009/513) O louco de Turim volta a Turim


1. No prefácio de Ecce Homo, Nietzsche escreveu – “a desproporção entre a grandeza de minha alma e a PEQUENEZ dos meus contemporâneos se evidenciou no fato de que não fui ouvido, nem sequer compreendido” (1). E, na condição de “moldura” de sua obra, a última frase de seu livro reza: “fui por acaso compreendido”? (2). Era outubro de 1888. Mais dois meses e meio, e Nietzsche conheceria a loucura, que lhe tomará abruptamente, numa rua de Turim. Não ter sido compreendido foi sua última dor consciente...

2. O século XX vangloriou-se de tê-lo compreendido. De Heidegger a Vattimo, a filosofia enovelou o filósofo numa aura não-fundacional e anti ou a-histórica, ao gosto de uma cada vez mais impalpável pós-modernidade – Nietzsche não teria sido apenas o assassino de Deus, mas o assassino da razão, da crítica, do próprio conhecimento – Nietzsche, o pai das almofadas de penas de ganso...

3. Bem, quanto aos seus contemporâneos, Nietzsche fez questão de nos dizer, estamos seguros de que não o entenderam. Terão os filósofos da Imaterialidade, da Linguagem, da Tradição, da Metáfora, incorporado a alma do filósofo, depois que seu corpo entregou-se à loucura?

4. Eu duvido. Em todo caso, aguardo a leitura ansiosa de Domenico Losurdo, Nietzsche, Il ribelle aristocrático (3). Losurdo é categórico em dizer que o século XX inventou outro Nietzsche, mais ou menos, como digo eu, judeus e cristãos inventaram outro Jó – que Jack Miles ajuda a reconstituir. Mais um pouco e desespero de agonia, e encomendo em italiano mesmo as mil e duzentas páginas dessa monumental reconstrução do meu filósofo predileto.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(1) F. Nietzsche, Ecce Homo – como cheguei a ser o que sou. 4 ed. São Paulo: Brasil Editora, s/d (© de 1959), p. 15.
(2) Idem, p. 203.
(3) Domenico LOSURDO, Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico. Turim: Bollati Boringhieri, 2002.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

(2008/21) Reagindo à postagem 2008/13, de Haroldo


1. Haroldo, permita-me deixar, aqui, rabiscadas, observações e dúvidas quanto ao que você disse em Textos Sagrados e Espírito Ecumênico.

2. § 1 - "Textos sagrados querem (...) ser lidos em espírito ecumênico. Afinal, suas raízes são ecumênicas". A - em que sentido "textos" querem? Textos possuem subjetividade? Constituem consciência teleológica? Têm vontade - própria? B - em que sentido são suas raízes ecumênicas? O conflito, o espírito de gueto, de guerra, inclusive santa (onde estão as mulheres de terracota, de mamas fartas e quadris paridores?), não está, também, e muito profundamente, enraigado no chão dessa casa?, e casa de gente, e não de celulose? Se textos não têm vontade própria (A), e se a história da redação, seja das perícopes originais, seja dos blocos redacionais, mesmo a constituição do "cânon", marca-se, também, pelo regime do conflito (B) - de onde provem o "espírito ecumênico"? Não será "de nós" - que, para o legitimar, o transferimos para eles?

3. § 3 - "De cânon, os textos bíblicos querem (...) se tornar novamente vida, e vida em pluralidade". Mais uma vez, você usa um recurso retórico de dar vida e vontade aos "textos". Mas ela - ela, não, elas, as vidas e as vontades, conflutiosas, na maioria das vezes, coercitivas, tantas outras, "comunitárias" (em sentido provinciano), outras tantas - não está, antes, na intenção dos/as autores/as? Se as vidas, os corpos, deles, tais quais foram - e ainda são, sob a tonelada de escombros da história da recepção de seus textos -, forem, digamos, ressuscitados, não o serão tal qual eram, com pulsão também de morte? Não seria mais adequado que, antes de diversas modalidades de aproximação interpretativa aos textos bíblicos, primeiro, nos esforçássemos para contemplar a história real que lhes subjaz, e, depois sim, de posse da "informação", cada qual fazer uso dela conforme sua própria inclinação e ética?

4. Certo, na hipótese de o leitor, eventualmente, assumir a corrente "hermenêutica" que afirma não haver "objetividade" na leitura - conquanto creia em Escrituras de Compra e Venda -, o "evento" e o "significado" histórico desses textos não tem a menor importância. Nesse caso, a pergunta - para que servem, então? Para objetivar nossas próprias esperanças, eventualmente, por meio de metáforas/alegorias. Mas, nesse caso, não deixamos escapar de nós a informação, preciosa, de que as esperanças, articuladas e engajadas, eventualmente, caminham para a supressão dos direitos alheios, em nome de direitos maiores e melhores? A esperança messiânica, "viva", como gigantesca mariposa noturna, não pousou, alegoricamente, sobre a carne humana, e, desde aí, consubstanciou-se, também, a ferro e fogo, como a queimar nas carnes incenso a Deus? Não é preciso muito mais a denúncia de nossa miséria interna do que acalentar a esperança de nossa beatitude utópica? A utopia não se construirá por meio da supressão de nossa dimensão diabólica - mas, também, a partir dela. A doutrina da "glorificação" não atende a consciência que temos de que, enquanto seres humanos, não somos anjos, nem o seremos, nem demônios, nem o seremos - somos desequilíbrio e caos, em busca constante de ficar de pé. Acabemos com isso, e acabamos com o que somos. Desejar a utopia não se pode fazer à custa do recalque da loucura que nos marca inexoravelmente - nosso passado, nosso presente, e nosso futuro.

5. Não digo acabar com a utopia. Não digo acabar com a metáfora. Digo não permitir iludirmo-nos - subjetivamente e pessoalmente, mas, o que é pior, homilética e oracularmente - com a idéia de que nos bastam nossos desejos de justiça e direito, de bênção e virtude, porque, para se concretizarem, se nos perfilarmos diante delas, essas idéias-vampiros, ingenuamente, haveremos de agir, inclusive, injustamente. Penso que, nesse sentido (não?), revirar as tripas de nossos ancestrais, trazer à luz do dia seus anjos e seus demônios - quantas vezes, uns dentro dos outros, a mesma "utopia" marcada por deus e pelo diabo -, não revelaria nossa própria constituição profunda, nós, Quixotes, eventualmente Bushs, e, enquanto Bushs, também, não?, Quixotes?

6. Com a ressalva de que, aqui, não fala a Pitonisa, mas um ogro cego, a tatear no escuro - e no escuro, também, de sua própria alma.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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