quarta-feira, 16 de março de 2016

(2016/078) Carta aberta à Igreja Batista do Pinheiro



CARTA ABERTA À IGREJA BATISTA DO PINHEIRO


Carxs amigxs da Igreja Batista do Pinheiro...

Antes de tudo, empreguei o x em "carxs amigxs" porque é assim que se tem convencionado se dirigir de forma "politicamente correta" a um grupo social no qual haja pessoas que manifestem identidade de gênero para além da categoria heterossexual, e justifico o uso dirigido à sua comunidade pela notícia que me chegou sobre a histórica decisão dessa igreja de, em assembleia de 28 de fevereiro de 2016, aceitar pessoas homoafetivas em seu rol de membros. Soube que, já há algum tempo, há casais homoafetivos na comunidade e que a decisão de receber pessoas e casais nessas condições proporcionaria a eles o direito de formalização de sua faculdade de membros da comunidade. Tomem o xis como um reconhecimento de sua decisão...

Fiquei feliz com a notícia. Muito feliz. Devo dizer que, nos termos em que compreendo o processo histórico relacionado ao tema, são favas contadas e questão de anos: dentro de algum tempo, mas não ouso precisar quanto, a questão das identidades de gênero - sejamos claros, a condição LGBT - deixará de ser um "problema" para a sociedade e também para as igrejas, quaisquer que sejam. Penso que, da mesma forma como a escravidão era prática cristã, a misoginia era prática cristã, também a homofobia tem-se perpetuado como prática cristã, e, pelo mesmo raciocínio, os cristianismos superaram ou estão em face de superação da escravidão e da misogina, começando agora, muito lentamente, a superação também da homofobia. Talvez não concluamos o século XXI sem que todas as igrejas do planeta sejam plenamente acolhedoras e receptivas a todas as pessoas que manifestam identidades de gênero, sejam pessoas heterossexuais, sejam gays, sejam lésbicas, sejam bissexuais, sejam transsexuais. Como eu disse, são favas contadas...

Mas eu estou longe de dizer que o acolhimento de pessoas homoafetivas é uma questão que o tempo sozinho há de resolver. Não! Muito pelo contrário! É a luta, tão somente a luta e nada mais do que a luta que fará com que o tempo resolva a questão. A luta não garante hoje, indistintamente, o reconhecimento dos direitos das pessoas homoafetivas, mas, no decurso das lutas, com o passar do tempo, o direito há de correr como a água, e a justiça, como ribeiros perenes... Nada foi reconhecido aos negros escravos sem a luta. Nada foi reconhecido às mulheres sem a luta. Nada será reconhecido à comunidade LGBT sem a luta. É lutar de manhã. É lutar de tarde. É lutar de noite. É lutar até nos sonhos e, principalmente, por meio dos sonhos!...

Por isso, eu me alegrei com a decisão da igreja que vocês são. Minha memória traditiva é essa mesma tradição batista, e esse fato acrescenta uma dose de afeição ao caso, que todavia, é eminentemente político. Penso tratar-se da primeira igreja da CBB que toma essa decisão. Bravo, amigos! Bravo, amigas! Bravo, amig@s! Bravo, amigxs! Bravo, bravíssimo...

É uma decisão não apenas histórica, deixe-me correr e dizer isso: ela é corajosa, amorosa (para usar um termo que Paulo Freire adorava usar), ética. Sobre tudo ética. No fundo, sejamos honestos, não há virtude nessa decisão que não seja evidenciada pela absoluta falta de virtude de todas as outras igrejas que não fazem o mesmo. Quero dizer: não é um favor que vocês fazem às pessoas homoafetivas: trata-se apenas de vocês reconhecerem-nas como pessoas, como todas as demais, como nós, independentemente da identidade de gênero. Era um dever de vocês. Se as outras igrejas não tomam a mesma decisão, se não reconhecem o outro como outro, em sua alteridade, em sua subjetividade, em sua corporeidade, é pecado delas, de todas elas. Pecado que também era o de vocês até 28 de fevereiro, e que, agora, não controla mais suas relações. Corajosamente, mas apenas porque cumprem dever ético, moral e humano, vocês reconhecem as pessoas que devem ser reconhecidas... O que há de ético em sua atitude é reconhecer que faltava o direito e a justiça entre vocês, porque vocês não reconheciam quem lhes olhava na face, suplicando o direito de ter face e voz... Mas (quase digo um aleluia, mas tomo-me de recato), agora, reconhecem...

Soube que, por meio de organizações, igrejas que ainda suportam o pecado do coração empedernido em face da identidade de gênero têm exercido pressão sobre vocês. Não esperava nada diferente, conquanto desejasse que tudo fosse diferente. Mas essa tradição me é cara, e a conheço bem. Assim como são favas contadas que a questão de gênero será totalmente resolvida nas igrejas dentro de algum tempo, também são favas contadas que as igrejas hão de resistir, espernear, amaldiçoar, ameaçar, servir-se do mal e do "diabo", sempre no disfarce do "bem" e da "verdade", para evitar que a comunidade LGBT receba, nas igrejas, o mesmo estatuto e tratamento que a pessoas heterossexuais. Vão reagir, algumas vezes abjetamente. De sorte que não me surpreende que vocês estejam sofrendo pressões. Penso, todavia, que não preciso dizer que, se é de fato o coração que move essa igreja, "as portas do inferno não prevalecerão contra ela", conquanto o inferno, nesse caso, use terno e convoque assembleias em organizações policialescas... A luta não terminou, nem para a comunidade LGBT como um todo, nem para sua comunidade... Doravante, sua luta será diária...

Vim, todavia, dizer-lhes especificamente uma coisa: penso que nada há na igreja - nada! - que deva ser posto acima das pessoas. Comparadas às pessoas, tudo é sábado... Entendem a referência? Os Evangelhos dizem que o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado é que foi feito para o homem (e a mulher e os homoafetivos e os trans...). Na comunidade, abaixo das pessoas, tudo é sábado. E, se me permitirem, enumerarei alguns sábados da comunidade, acima dos quais sempre devem estar as pessoas: as doutrinas são sábado, a Bíblia é sábado, a fé é sábado, as organizações são sábado, o clero é sábado. As pessoas não foram feitas para as doutrinas, para a Bíblia, para a fé, para as organizações, para o clero: o clero, as organizações, a fé, a Bíblia e as doutrinas é que foram feitos para elas. De sorte que, se e quando usarem as doutrinas, a Bíblia, a fé, as organizações e o clero contra vocês, contra sua decisão, gritem: isso é sábado! Quando tentarem convencê-los de que estão errados diante da doutrina e da Bíblia, firmem os pés e gritem: tudo isso é sábado! Não se amedrontem diante de leituras fundamentalistas da Bíblia: isso é sábado! Não se amedrontem diante de ameaças doutrinárias, desenhadas a fogo: é sábado! Não se amedrontem com decisões de organizações que se arvoram em porta-vozes de Deus e do diabo: sábado! Tudo isso foi feito para vocês e, se não serve para vocês, se fere a consciência de vocês, não se intimidem, não se amedrontem, não recuem - avancem, aprofundem o leito de rio que começam a cavar, porque, com a escama da homofobia arrancada dos olhos, está na hora de identificar novos pecados ainda tolerados, porque não enxergados como tal...

Penso que essa comunidade teve um sonho. Como o sonho do pastor batista negro, que sonhava com um mundo em que ser negro não era pecado, crime e dor, vocês tiveram um sonho, no qual pessoas homoafetivas não são pecado, crime e dor. Esse sonho é lindo, comovente, emocionante... Mas é mais do que um sonho... Vocês não podem decidir pelos cristãos do mundo, mas podem, puderam e decidiram por vocês mesmos. Sonharam juntos e tornaram realidade o sonho comum... Vocês são sonhadores e construtores - sonham com um mundo melhor e o constroem vocês mesmos...

Meu desejo é que a decisão de vocês motive outras comunidades a se porem acima dos sábados que as tornam endurecidas, estéreis, petrificadas. Meu desejo é que sua comunidade seja um lugar de franco, fraterno e sincero acolhimento de pessoas homoafetivas... Mas não se enganem. A homofobia está entranhada em nossos corações e mentes, de sorte que a decisão institucional da assembleia precisa converter-se em entranhamento verdadeiro, em acolhimento sincero. Nossos avós e pais educaram-nos de modo homofóbico, nossas igrejas nos doutrinaram de modo homofóbico, de modo que nosso olhar - sejamos honestos! - é homofóbico. Com a razão ética da justiça, superamos nosso olhar institucional e reconhecemos a condição de irmãos e irmãs do povo homoafetivo e de tantas outras identidades de gênero... Mas é preciso a terapia em nosso olhar pessoal, em nossa subjetividade, em nossa pele. É preciso vencer o pecado que habita em nós, pecado, sim, que faz com que zombemos, ridicularizemos, escarneçamos deles... É preciso fazer mais do que justiça para com eles - é preciso purgar nosso próprio corpo de todo e qualquer resíduo homofóbico: é preciso abraçá-los como a iguais, conquanto sejam, absolutamente, outros. É preciso fazer dessa decisão institucional, da comunidade, a decisão verdadeira de cada pessoa que compõe a comunidade...

A sua luta, doravante, é, pois, tripla: a) enfrentar a reação colérica de organizações intolerantes e sua idolatria dos sábados da igreja, b) incentivar que outras comunidades transbordem-se de acolhimento e, sobretudo, c) purgar os resquícios subjetivos de cada um e uma de vocês do olhar perverso e pervertido... É preciso uma efetiva e lenta conversão à alteridade, que cobra de nós o preço da vigilância de nós mesmos e do rigor. A teologia chama a isso "frutos do Espírito", mas nós havemos de reconhecer que são frutos da responsabilidade que precisamos ter com o outro, com os outros, conosco mesmos. É um fruto nosso, que nós decidimos - ou não - produzir. 

Sempre em esperança, conquanto possam os dias ser maus, fraternalmente,




Osvaldo Luiz Ribeiro

6 comentários:

Stella Junia disse...

Texto magistral ! Nós somos poucos mas estamos aqui, pensando da mesma forma. Obrigada.

Joá Dijú disse...

Superação histórica dentro de um ambiente extremamente intolerante quanto às questões de gênero! Parabéns @s corajos@s profet@s!

Hiran Pinel disse...

Um texto curto e profundo... Vou usar nas minhas aulas de Educação e Inclusão, aqui na UFES, ES. É um texto que traz não só nosso tema, como de Pedagogia Social, dando pistas de mudança da igreja e fora dela, podendo levar para a escola e outros espaços. Um documento relevante seu texto, pra mim um documento... Relevantíssimo...

Peroratio disse...

Puxa vida! Muito obrigado, Hiran Pinel...

Gustavo Soldati Reis disse...

Caro Osvaldo, muito agradecido por sua sensibilidade na escrita e por nos provocar ao percurso de "conversão à alteridade". Então é isso: simplesmente... obrigado e obrigado.

Gustavo Soldati Reis disse...

Registro o meu agradecimento a esse mundo de reflexões aqui.

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