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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

(2010/140) Uma palavra sobre espiritualidade


1. Espiritualidade, para mim, em poucas palavras, é a adequação da psiquê à vida, é a instalação de um eixo em torno do qual tudo faz sentido, é a construção do próprio sentido, já que, em si mesma, a vida é incapaz de fornecê-lo. Desgosto de espiritualidades incorpóreas, descorporeizantes, fantasmáticas - as espiritualidades espirituais... Espiritualidade de potestades? Vade retro... Espiritualidade de corpo. Espiritualidade de anjos? Ao inferno! Espiritualidade de pão! Água benta, não: saliva! Cá entre nós, amigos, a manipulação que os discursos de espiritualidade promovem no redil dos miseráveis de espírito só é menos cínica e criminosa que a política concreta - mas é, para todos os fins, da mesma espécie: qui prodest?







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

(2009/528) Um homem primitivo


1. Não é bem uma lista de discussão, é mais um grupo de discussão por e-mail. Cassia, estudante de Teologia, inventou de pôr algumas cobaias num e-mail e de provocar a gente, professores, uns, alunos outros, teólogos e teólogas, todos e todas. Tem lá umas dez pessoas. Algumas falam bastante. Outras, ouvem. Há dez minutos, Julio Chaves provocou-me. E eu reagi (novidade!).

2. Disse, confirmando tudo o que ele me dizia, que sou um homem primitivo, quero dizer, um homem que, na sua espiritualidade, retorna ao primeiro dos dias, se eu posso usar essa metáfora. Sou um homem que descobriu, porque acreditou no que lhe disseram outros homens mais antigos, que todas as doutrinas, todas as teologias, todas as fés, todas as liturgias, tudo que cabe no nome religião, tudo, é criação humana, no tempo, na história, na geografia, no lugar, invenção do espírito humano, fábrica fantástica de mitos e cosmovisões.

3. Todavia, no dia e que descobri isso, se eu cuidava que o Universo deixaria de me assombrar, enganei-me. Lá continuava ele, esmagando-me o peito, sem que, por isso, eu pudesse respirar. A vida, lá permanecia ela, na bruma, como uma coisa fantástica, a espreitar-me, sem que eu pudesse pegá-la com a mão. Vi-me, assim, como o primero dos homens, que, imaginamos, experimentou essas primeiras sensações - assombro diante do peso do mundo, terror diante do peso da vida, e que, diante desse peso e desse terror, inventou para si antigas e imorredouras clareiras de mito, narrativas de pacificação, de proteção, de paz.

4. Ele o fez. Eu, não o posso, porque o que me difere do primeiro homem é que ele o fez sem saber que o fazia, era natural a sua criação, enquanto eu, desgraçado que sou, sei que não o posso fazer, poque acabo de incendiar meus mitos tradicionais, de modo que só me resta o assombro, a nudez do peso do Mundo e da Vida. O homem primeiro, o primeiro, era um inventor de mitos eficientes, eu, um home primitivo último, um descobridor da funcionalidade mítica, a quem, pois, os mitos conscientemente encarados não tomam - somente os ainda inconscientes (e os há, decerto!). A diferença entre o primeiro homem primitivo e o último é que o primeiro inventa dos deuses e os crê criadores, enquanto que o último descobriu que ele é o criador dos deuses, e está só. Só, mas com os mesmos assombros, os mesmos terrores, mas sem a máquina de fabricar deusses...

5. Sinto-me condenado a esse sofrimento da consciência. Não pressinto que qualquer mito me dissolva a angústia profunda que é viver assim. E, no entanto, crio meu mito fraco e pobre de um deus-menino, amigo de varanda, e, com ele, as coisas tornam-se mais fáceis. O problema com esse meu deus-menino é que, quando o tigre ruge na floresta, ele é o primeiro a correr... E eu tenho que me virar sozinho, rindo, anda, da debandada divina... Yahweh tem boas pernas!

6. Não sei para onde estou indo. Só sei que vou. É como se o ponto de origem da história do homem primitivo, girando 360º, retornasse a si meso, mas, agora, não mais no mesmo ponto, mas um pouco acima, ou um pouco abaixo, tanto faz, de modo que o giro recomeçasse - para voltar à origem um dia -, mas recomeçasse igual e diferente daquela Primeira Vez: igual, porque é o mesmo assombro, sob o mesmo céu, o mesmo terror, diante da mesma vida. Mas diferente, porque nem o céu é mais o mesmo, nem a vida, nem o que aprendi deles, de mim, dos mitos. Sou um homem primitivo. Mas um homem primitivo moderno.

7. É verdade que se tenta, aqui e ali, retornar àquele estado primitivo, tentando experimentar a mística metafísica original, como se possível fora recomeçar de lá, do mesmo modo. Não, não é. É tão falsa a pantomima! Ou o homem moderno entrega-se, heterônomo, às doutrinas, ou rasga-as, e sente-se assombrado: fingir o recomeço, apagando a história, é recalque psicológico da condição moderna. Não é verdadeira saudade, é disfarce. Um homem moderno mimetizando um pele-vermelha é uma cena muito triste... conquanto reveladora da pulsão mítica da religião. Diria o mesmo da "saída" (faz-me rir [mas eu não devia rir de coisa tão séria, o que prova quão perversa seria minha alma]) pós-moderna de religiosos pós-modernos: brincar de ser o que se sabia, agora finge-se não saber, não ser. É o gosto da brincadeira que faz a pós-modernidade girar nos gonzos - a pós-modernidade é o exorcismo do diabo moderno...

8. Talvez haja outros homens e mulheres por aí, assim, nessa condição minha de primitivo/moderno. Não encontro-os, contudo, no dia a dia. Isso me empresta um ar fantasmático e triste, como um exemplar de uma espécie tão rara, a ponto de se dizer que está em extinção, ou nascendo agora. Eu não sei qual é o caso. Mas talvez esteja morrendo, ou nascendo de novo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

(2009/491) Do "além" e do advir


1. Se eu tivesse que responder - hoje - de onde vem nossa "consciência" (isto é, nossa "intuição") de um "além", de um "lugar" além de todo lugar - eu diria que isso advém da relação "dialogal" ("computacional", diria Edgatr Morin) entre nossos cérebros/espíritos e o mundo real, a ecosfera, que nos cerca.

2. Não acredito que o conteúdo da intuição do "além" seja inato. Ele nasce culturalmente, conquanto nunca houve - até agora, que se saiba - cultura e povo que não desenvolvessem a experiência metafísica.

3. Assim, é culturalmente desdobrável, a experiência do além, mas é biopsicologicamente fundamentada, posto que, malgrado cada povo invenar para si uma narrativa e um conteúdo muito próprios sobre esse além, todos os povos e cultura os "inventam".

4. Penso que se trata de uma consequência do funcionamento hermenêutico de nosso cérebro. A mente humana constrói uma representação holística, uma narrativa, uma cosmovisão, a partir da e para, com ela, recobrir a ecosfera. Não vivemos, nenhum de nós, na própria ecosfera, mas, sim, na noosfera que fabricamos, hermeneuticamente, fazendo-a pousar e "coincidir" com a ecosfera. Cada um de nós e cada macrocultura vive em seu próprio mundo noológico, alimentando-se dialogal/hermeneuticamente da ecosfera física.

5. A cosmovisão, portanto, é sempre mais do que a simples soma de tudo que se vê, porque todo todo é sempre mais que a soma de todas as suas partes. Assim, quando chegamos ao ilmite das coisas reais, o resultado da intuição é, necessariamente, mais do que os limites do real. Provavelmente foi assim que os primeiros homens e mulheres imaginaram o "além", porque tudo vem de algum lugar o peixe, da água, as aves, do céu, o porco, da floresta, os macacos, das árvores... Tudo que é vivo, vive em algum lugar. As hierofanias, revelando mistérios vivos nas coisas - na pedra, na árvore, no céu, no rio, no mar, na montanha, na terra, tinham de explicar de onde vinham esses seres vivos, essas forças vivas que se manifestavam.

6. Só podiam vir de além da terra de baixo, de além dos céus, de cima, de onde, já se sabia - vinham as águas... Ainda aí, o "além" é meramente uma continuação do "aqui". Mundos infra-humanos e sobre-humanos, abaixo de nós e sobre nós, eram, apenas, extensões de nossos mundos, de tal sorte que se intercomunicavam. As abstrações filosóficas tratarão de dar a esses "aléns" uma condição não-material, secundária. Assim, hoje, por mais que tenhamos descoberto que não há nada sobre as nuvens, o Além permanece... um Além "espitirual, não-físico...

7. Mas essa compreensão é sabidamente mítica - é mito. O além, seus povos, seus valores, suas narrativas, são, todas, fruto da imaginação dos povos, também nossas. Empurrar as fronteiras do além para cada vez mais longe, mais, mais, ainda mais longe, a cada nova observação dos ultra-hiper-telescópios espaciais, é, simplesmente, adiar a auto-compreensão...

8. Somos, nós, os criadores do sentido. Sob o sentido, resta uma ecosfera não-semântica, um mundo físico que não conhece a consciência, que não se pergunta sobre si, sobre o não-si, sobre o além-de-si, que apenas nasce, copula e morre. Fugindo a esse destino, por um golpe do destino, inventamos nossas narrativas.

9. Mas é de dentro de nós que vem a pulsão de inventá-las. Saber que as inventamos, não cessa a pulsão. Como Freud dizia, as narrativas são invenções, ilusões, e são - mas a fonte das pulsões., não. Não há como fechar a fonte. Elas continuarão jorrando demandas de mito. O de que precisamos é de uma relação nova com esses mitos, uma relação nova com nossa própria consciência, uma relação nova com a consciência dos povos.

10. Aproxima-se de nós uma era de autoconsciência que não redundará no desaparecimento dos mitos - impossível! -, mas produzirá uma nova era de relação entre os homens e as mulhres e suas inventivas narrativas cosmogônicas.

11. Uma nova espiritualidade se faz imperiosa - a de saber que nós, seres humanos, somos como estrelas - elas, produzem a matéria, cada átomo, em suas fornalhas siderais. Enquanto elas produzem pó de matéria, nós produzimos pó de magia - somos fábricas de deuses. Somos, nós as próprias águas cosmogônicas - teogônicas! Somos amnióticos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

(2009/166) Religião sob o filtro crítico-científico


1. O leitor que freqüenta assiduamente Peroratio há de, eventualmente, pegar-se surpreendido de, às vezes, falar-se sobre religião e, às vezes, de ciência. É que os três redatores do blog são, ao mesmo tempo, "religiosos" e "crítico-científicos". Eu, por exemplo, que agora escrevo esse post, encontro-me numa fase que, sob o olhar tradicional da religião tradicional, é mais crítico-científica do que religiosa. Não é de todo equivocado o diagnóstico, ainda que, sob os critérios em que eventualmente ele seja desenvolvido, torne-se falso.

2. É que eu cheguei à conclusão que não há qualquer razão legítima - isto é, em face da minha própria consciência - para que a religião não se deixe passar pelo crivo crítico-científico. Não vejo qualquer razão - em face de minha própria consciência - para que a religião permaneça empregando não apenas argumentos mitológicos para a sua legitimação, mas permaneça no próprio universo mitológico.

3. Eu lamento profundamente que não apenas religiosos, mas aparentes pesquisadores (são, aí, religiosos tradicionais praticando pesquisa controlada pela tradição?) não apenas defendam o discurso pseudo-epistemológico da religião, mas ainda relativizem, quando não desprezam, a perspectiva crítico-científica.

4. É desalentador, porque se nem os pesquisadores, interessados em religião, conseguem superar a mitologia discursiva das religiões, como esperar que os sacerdotes o façam, justo eles que se beneficiam diretamente daquele paradigma? E esperar como que a massa o faça, justo ela, que teme e treme, não tanto de Deus, mas de seus representantes?

5. Eu gostaria de acreditar na possibilidade histórica da transformação da religião, de sua conversão honesta, enquanto religião, aos critérios epistemológicos do saber crítico-científico. A religião transformar-se-ia. Nunca mais seria a mesma, nem elas, nem os religiosos.

6. Se ela acabaria? Duvido. Nem gostaria. O que acabaria, imagino, é a tendência da massa a deixar-se manipular por promessas alienantes, que toleramos às massas, com condescendência, num gesto de superioridade intelectual aristocrática, dói confessá-lo?, cínica. Mas não vejo por que a religião desapareceria enquanto, por exemplo, uma estética consciente, uma política consciente, alimentadas ambas, com sobriedade, por uma perspectiva crítico-científica que permitiria lucidez às práticas religiosas.

7. Fiquemos combinados, então. Quando, aqui, se escrever sobre religião, pretende-se que se lhe faça passar necessariamente pelo crivo da crítica científica, sem, contudo, necessariamente, desintegrá-la, mas, por outro lado, necessariamente, forçando-a a uma transformação compatível com o regime do saber emancipado das ciências - auto-conhecimento religioso não é auto-conhecimento promovido pelo mito da religião, mas auto-conhecimento que o religioso tem de si, na condição de religioso, sob a perspectiva crítico-científica.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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