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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

(2009/551) Se vier a ser, o céu também será secular


1. Ao fiel que está diante da porta do templo, e que nele nao podE entrar, porque, no templo, oficiam apenas os sacerdotes, a esse fiel se chama "profano" - isto é, aquele que está diante da porta (onde a manifestação ["fania"] se dá). Em oposição, ao profano,, definindo-o e sendo definido por ele, o "templo" é o espaço sagrado. Se o templo for retirado, o profano não tem onde estar - não há porta, não há manifestação, não há sagrado. Se o profano for retirado, não há a quem o sagrado se manifestar, não há onde ele se manifeste, não há sagrado.

2. Segredo da Fenomenologia da Religião - o sagrado depende do profano, os deuses, dos homens. Bem que o sabiam os mitos - uma vez nascidos, os deuses logo criam os homens... A bem da verdade, é bem inverso, mas tanto faz...

3. Foi o protestantismo quem, necessariamente, secularizou o mundo. E o fez, tentando alcançar o efeito contrário - super-sacralizar o mundo. Todos os dias são sagrados - logo, não há dia profano, logo, não há dias sagrados. Onde não há profano, não há sagrado. Onde o tempo todo é sagrado, o tempo todo é profano - anulam-se, perde-se a noção da sacralidade. Onde todo lugar é sagrado, todo ele é profano, aliás, nada aí é sagrado, nada é profano, é, tudo, secular. "Lutero" pariu a modernidade secular, a consciência do desencantamento - e não era isso que queria, pelo contrário.

4. Ora, ora, ora - eis que me pego refletindo sobre o fato de que me venderam um céu todo-sagrado. E, então, fiz as contas: se todo o céu será sagrado, logo, não haverá profano. Se não haverá profano, logo, não haverá sagrado. Logo, o céu será dessacralizado. O céu é como a sociedade moderna... A crítica mata Deus, a confissão, o céu... Deicidas, somos todos.

5. Os alunos retrucaram: mas haverá inferno... Bem, se você, no céu, tiver consciência do inferno, e, então, passar a eternidade cantando corinhos de Lagoinha a Jesus, Deus teha misericórdia da tua alma. Aliás, um Deus que, tendo consciência do inferno, goze bovinamente da adoração de seus crentes-de-céu, ai, quem terá misericórdia de sua alma? O Jó de Jack Miles o sabia...

6. Não, o inferno, das duas uma: ou existirá, e não teremos consciência dele, e, logo, não afetará nossa percepção de sagrado, logo, tudo será sagrado, logo, nada será sagrado, ou, ao contrário, teremos, sim, conciência dele, e provado está que a religião cristã consegue unir o ápice da bondade com o cúmulo da perversão... Ou, simplesmente, não haverá nada. Pruridos eclesiásticos, quero dizer, à guisa de Eclesiastes, de quem outros hagiógrafos não guardam boa percepção: a vala comum do carbono...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 19 de junho de 2009

(2009/364) Dois pequenos grandes textos


1. A convite do CADS - Centro Acadêmico da Faculdade Batista do Rio de Janeiro -, ofereci um curso de "Princípios Batistas" a trinta estudantes previamente inscritos, com renda integralmente destinada ao próprio centro acadêmico. Foram quatro encontros de uma hora cada, em cada uma das últimas quartas-feiras, excetuando-se esta. Foi uma boa experiência.

2. Desde minha graduação em Teologia que os Princípios Batistas me fazem companhia, e os levo a sério. Mas é bom explicar do que estou falando.

3. Os batistas nasceram no século XVII, fermentados ali naquelas confusões entre separatistas e a Igreja da Inglaterra. Um bom livro é A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII, de Christopher Hill. Ele dá um bom panorama de como éramos - todos misturados, cada qual sendo chamado pelos outros pelos nomes que acabaram servindo a cada grupos: "batistas" era como nos chamavam... Mas todos oficiavam juntos, em templos comuns, até que o movimento separou quem de quem, e os muros, sempre eles, foram erguidos.

4. Não há nenhuma novidade na parte cristã dos batistas - Nicéia "para inglês ver" e pronto. Todavia, o que é propriamente batista foi parido pela efervescência do libeeralismo político-filosófico-científico inglês (que século!), o mesmo de Bacon, Locke, Hume, Newton... Se os luteranos tiveram por pai um Lutero, nós, batistas, grandes filósofos e políticos. Como eles, o que nos tornamos não é lá muito parecido com o que disséramos que seríamos. Sempre é assim. Mas, ao menos, ficaram os princípios.

5. Esses, são abertos. Dialogais. Críticos. Porque refletem a parte "separatista", logo, crítica, que emprestava da filosofia e da política suas "armas" retóricas. Fomos marcados por elas - e eu diria: graças a Deus. Confesso: das doutrinas batistas abriria mão, sem dor (a rigor, já abri) - dos princípios, não.

6. Um dos princípios que discutimos no curso foi esse: "nem a maioria, nem a minoria, nem a unanimidade reflete necessariamente a vontade de Deus". Dado o princípio, resulta ser imperioso que eu confesse que jamais conheci uma única e verdadeira igreja batista. Todas, sem exceção, estavam - e estão - bastante conscientes da "vontade de Deus". Logo, não são "batistas". Não, se o critério são os princípios.

7. Pedi aos estudantes que escrevessem alguma coisa. Dei-lhes o título: "E agora?". Dois deles, um rapaz e uma moça, escreveram duas muito excelentes declarações. Comoventes, profundas, lindas, eu diria. Ei-las:

8. De Harlyson Lopes:

"E agora?

Durante vinte e seis anos fui adestrado a enxergar numa direção e a ter a certeza de que estava no centro da vontade de Deus. Mas se não há como ter certeza de onde é o centro da vontade divina, então, estou perdido, pois de fato não sei onde estou. E, ou estou preso em algum lugar cuja saída não enxergo, ou estou liberto do local que considerava ser o ideal e, portanto, posso procurar o local que me trará conforto. Mas como procurar? Antes era só seguir a maioria, coisa de que nunca fui adepto. A minoria sempre foi o voto daqueles que não entenderam a vontade de Deus, então nunca a segui. Como não me lembro de ter visto a unanimidade numa igreja, não há quem seguir. Então estou só também. Só, perdido e em dúvida se preso ou liberto. Agora é um recomeçar no escuro e no silêncio para tentar encontrar uma luz ou um som".


9. De Iara Vidal:

"E agora?

Se a vontade de Deus não é necessariamente expressa pela opinião da maioria, nem pela da minoria, e nem mesmo pela opinião de todos, estou isenta de buscar "vontades" específicas de Deus para a minha vida. Minhas decisões são minhas, com todo o bônus e o ônus que isso representa. Sou livre para decidir segundo o meu juízo, para voltar atrás quando errar (sem tentar culpar a Deus pelos meus erros), para assumir as consequências de meus atos. Ninguém decidirá por mim, e eu não decidirei por ninguém. Mas nem por isso estou totalmente sozinha: em vez de mentores que me indiquem O caminho, busco companheiros que me ajudem a fazer meu próprio caminho".

10. Belíssimos, nao? Ah, sim, belíssimos. "Em vez de mentores que me indiquem O caminho, busco companheiros que me ajudem a fazer meu próprio caminho" - não é esse o "princípio da maturidade", a "lei" da autonomia? Que bom ter proporcionado essa "intuição"! E mais: "E, ou estou preso em algum lugar cuja saída não enxergo, ou estou liberto do local que considerava ser o ideal e, portanto, posso procurar o local que me trará conforto" - não é essa a angústia fundamental? A incerteza de fundo, a insondabilidade do além-aqui, do além-agora: numa palavra, solidão e liberdade, liberdade é solidão... Saber, Harlyson, que estamos sós, e que, conosco, sós, vão outros que tais, não nos faz menos sós, mas nos faz constituídos de uma solidão de parto - é que antes nos enganávamos...

11. Fico feliz que esses quatro encontros tenham reverberado esse toque de bronze no capanário das almas despertas. Saímos mais densos dali, mais pesados, mais tristes, mas, por isso também, mas felizes. É que não se trata da felicidade das festas - mas da nudez do vento frio e cortante na cara nua... Obrigado, Harlyson! Obrigado, Iara!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 7 de junho de 2009

(2009/336) Nossos professores


1. Falo de modo geral, professores, homens, e professoras, mulheres. Fanuel me fala deles, agora há pouco, e me fez pensar neles - e, indiretamente, em mim, professor, em nos, professores. Será que somos aquilo que gostaríamos que nossos professores tivessem sido?

2. Teologia é um curso diferente dos demais. Mexe com as tripas. O que está nas tripas, às vezes, sobe para a cabeça... Às vezes sai pela boca... Ouve-se de tudo. Às vezes, parece um circo. Às vezes, uma missa. Outras, uma batalha. Ainda outras, um cemitério. Aquelas, ah!, aquelas - essas são como que afrodisíacos cognitivos, u'a mão a arrancar a gente de dentro de nós mesmos...

3. Isso, já na Graduação. No Doutorado era para ser diferente, mas não é tão diferente. Porque, se você tem um professor que entra no assunto que interessa a você, mas entra por outra perspectiva, entra por outro pressuposto, com outra epistemologia, Deus do céu!, é uma confusão, uma improcedência - é como se cada um da sala estivesse numa sala diferente, e ninguém se dá conta... Cuida0-se que o "Espírito" vá dando o sentido, vai ver...

4. É que, na Teologia, a boca fica torna, como que usasse cachimbo por cem anos. O sujeito passa pela Graduação, avança pelo Mestrado e mergulha de cabeça no Doutorado - baseando-se em doutrinas! A isso ele chama "Teologia" - confissão, "fé", tradição. Ele pega isso tudo - que é uma e a mesma coisa - e faz com isso um alfarrábio, que guarda na cabeça. Isso vira uma espécie de filtro: tudo tem de passar por aí, dos quarks às super-novas, e, naturalmente, o corpo e a alma de todos os seres humanos... Ai, que desânimo... Ainda se espera que você, aluno, tenha o mesmo vício. E, se não tem, ai!

5. Mas, no meio dessa perdição epistemológica, esse anacronismo absurdo, há, contudo, momentos extraodinários. O meu chama-se Haroldo Reimer. Não há comparação possível entre o que foi aquele encontro... O que havia de especial era o zelo, o cuidado, mas, sobretudo, a abertura crítica e a nudez de Haroldo. Eu "sentia" que também Haroldo estava à porta - também ele olhava possibilidades: era fantástico vê-lo, também ele, construindo-se entre nós... Minto, meu amigo? Mas o que era - e é - apaixonante, é que não parava à porta. Sua cabeça sempre falou mais alto, nesse sentido, do que seu coração - se o coração tinha medo, a cabeça dizia: vai... E íamos... Magia pedagógica aquilo...

6. Saudades... Abaixo de Haroldo há uma série de mestres marcantes. A Graduação em Teologia, em Nova Iguaçu, abriu-me a mente para as Ciências Humanas. Posso dizer que a minha formação mais profunda, minha determinação em assumir a crítica, nasceu ali. Talvez decisivamente no terceiro ano. Alguns professores foram marcantes. Alguns - que se consideram "gênios vivos", e distribuem despeito por onde passam -, desses não fui aluno (Deus é bom!).

7. Mas eram muito, muito diferetes de como eu sou. Não "abriam o jogo". Não o escondiam, contudo. Uns mais, outros menos, apontam possibilidades, uns muito timidamente, quase como que pedindo desculpas... Pegar-me pela mão, abrir a janela, e mostrar-me a dureza da vida, e a nudez da Teoliogia, não. Isso eu tive de fazer sozinho, Bel e eu, em casa, pelas madrugadas, entre beijos e discussões intermináveis... Algumas vezes, a Lua nos fazia companhia, até dar bom dia ao Sol e ir admirar-se de japoneses a colher cerejas... Se eu fora a Lua, fazia o mesmo...

8. Não, nenhum dos meus professores da Graduação tem culpa de quem eu sou. Não posso dizer - foi ele. Não, não posso. Posso lembrar-me de momentos específicos, aulas específicas, que me despertaram a curiosidade. Mas nenhum deles me fez a cabeça. Por isso tenho me dedicado a não fazer a cabeça de ninguém, a dizer, publicamente, que não quero seguidores de nenhuma espécie. Quero, sim, oferecer ajuda a quem quer encontrar-se e a seu róprio caminho, e ir, só, como eu, no meu.

9. Não, nao repito os gestos tímidos e controlados de meus mestres. Em sala, derrubo a parede com murros, e tento fazer ver aos alunos o que há lá fora. Às vezes, é violenta a nudez. Não sei ser comedido, refinado. Não sei negociar discursos. Comedir. São graduandos, não novos-convertidos. E mesmo se fossem! É sua carne que deve ser exposta ao Sol e ao sal. Não há lugar para cuidados extremos nesse espaço de partos. A pedagia deve ser tão violenta quanto o é um parto... Faz força, mulher, empurra! Grita! Respira! Unhemmmm... Carinho pedagógico? Corrente em pé de mesa...

10. Eu não sei o que teria acontecido comigo se um professor da Gradução tivesse me pego pela mão, me arrastado pelo chão e me mostrado o que está escondido de mim desde a "conversão", quantas "verdades" escondidas, e tantas "verdades" reveladas. Não sei mesmo. O que eu sei é que, quando entro em sala de aula para dar aula, despejo todos os meus diabos sobre quem quer que ali esteja. Se não suportarem, saberão pedir arrego. Se não pedirem, das duas uma - ou é porque gostam e querem exatamente isso, ou é porque estão tão desarrumados por dentro que mal conseguem perceber que, ali, decide-se quem nós somos e seremos, independemente de quem nós fomos. O passado é gasolina - não estrada. Vruuummmm...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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