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sábado, 26 de setembro de 2009

(2009/492) De professores e estudantes


1. Mas nem no maior dos meus devaneios eu imaginaria que um professor deve se impor por sua "autoridade". Naturalmente que há que haver "respeito" da parte de estudantes em relação a seus professores, mas isso por uma questão política, civilizatória, "de educação", até por conta de serem, estes, geralmente mais velhos. Mas a voz do professor ou da professora não há de prevalecer pelo fato de que são professores, nem os estudantes hão de se submeter a qualquer coisa que lhes seja dito por professores pelo fato de serem uns, estudantes, e, outros, professores. Hey, teacher, leave the kids alone!





2. Por outro lado, a idéia de que o discurso de um estudante tenha o mesmo "valor", qualquer que seja ele, do que o discurso de um professor, simplesmente porque ele é estudante, é a mais absurda das invenões pós-modernas, a mais estapafúrdia das invenções de uma clutura do politicamente correto. O valor do que um estudante tem a dizer não deriva de sua condição política de estudante, nem o valor do que um profesor tem a dizer deriva de sua condição política de professor. Deus do céu!, como as coisas perderam sustentação! Como o conhecimento corre o risco de contaminarem-se com a "síndrome do Free".

Uma questão de bom senso! Tá... sei...



3. Professores devem dizer o que dizem, sustentando o que dizem por meio de prestação de contas, por meio de argumentos, por meio de demonstrações. Uma vez que laboro no âmbito das Humanas, tais prestações de conta são da ordem da retórica, da evidência "indiciária", isto é, por meio de "indícios", sob o regime da plausibilidade. Um professor não pode chegar em sala, dizer o que quiser dizer, e esperar que os estudantes "engulam" isso, simplesmente porque foi "ele" - ou "ela" - quem o disse. Tem de prestar contas.

4. Igualmente - e ainda mais! - um estudante. Ele não pode dizer o que quiser dizer pelo simples fato de querer dizer. Tem de prestar contas. Eu penso isso e isso por causa disso e disso. Eu considro isso porque isso e por isso. Em face de uma discordância entre professor e estudante em torno de um tema qualquer, há que se confrontar as questões não por meio da apologia das questões, mas por meio da prestação de contas que sustenta cada posição. Se um dos dois não tem cmo prestar contas, não tem o direito - aí, sim, político - de fazer da sua fala uma fala com mesmo "valor" e "peso" do que a outra.

5. Digamos que se trate de uma "intuição". O que me move a escrever aqui não se tratou de uma "intuição", mas de comentáros a uma letra de Raul Seixas. Mas digamos que se trate de uma divergência com base em intuições. O "lado" que diverge tem todo o direito de pronunciar-se, argumentando que, a despeito das evidências argumentadas pela parte, malgrado as prestações de conta, ele não se sente confortável, e ainda gostaria de, em outra ocasião, testar uma intuição assim assim. Mas, daí a dizer que uma intição "de cinco minutos" tem o peso de uma pesquisa - e mais, uma intução sem qualquer base no próprio texto, tampouco quanto ao que se sabe do autor, "contra" uma argumentaão sustentada por sintaxe, semântica, estilo, história, entrevista e plausibilidade... tem dó.

6. Insisto. Professor não tem mais "autoridade". Isso é argumento de uma era que passou. A autoridade de um professor deriva de seu domínio de cátedra, do valor dos argumentos, da prestação de contas. De igual modo, estudantes não têm nenhum "direito" de dizerem o que quer que lhes pareça adequado e a isso opor o conteúdo de aulas. Ambos, professor e estudante, devem sustentar-se com base em argumentos e prestação de contas. E acima de tudo, quando não há consenso - sempre haverá razões para que não haja consenso - deve imperar, sobretudo, o respeito. Se pirraça já é "feio" em crianças mimadas, imagina em gente "grande"...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 7 de junho de 2009

(2009/336) Nossos professores


1. Falo de modo geral, professores, homens, e professoras, mulheres. Fanuel me fala deles, agora há pouco, e me fez pensar neles - e, indiretamente, em mim, professor, em nos, professores. Será que somos aquilo que gostaríamos que nossos professores tivessem sido?

2. Teologia é um curso diferente dos demais. Mexe com as tripas. O que está nas tripas, às vezes, sobe para a cabeça... Às vezes sai pela boca... Ouve-se de tudo. Às vezes, parece um circo. Às vezes, uma missa. Outras, uma batalha. Ainda outras, um cemitério. Aquelas, ah!, aquelas - essas são como que afrodisíacos cognitivos, u'a mão a arrancar a gente de dentro de nós mesmos...

3. Isso, já na Graduação. No Doutorado era para ser diferente, mas não é tão diferente. Porque, se você tem um professor que entra no assunto que interessa a você, mas entra por outra perspectiva, entra por outro pressuposto, com outra epistemologia, Deus do céu!, é uma confusão, uma improcedência - é como se cada um da sala estivesse numa sala diferente, e ninguém se dá conta... Cuida0-se que o "Espírito" vá dando o sentido, vai ver...

4. É que, na Teologia, a boca fica torna, como que usasse cachimbo por cem anos. O sujeito passa pela Graduação, avança pelo Mestrado e mergulha de cabeça no Doutorado - baseando-se em doutrinas! A isso ele chama "Teologia" - confissão, "fé", tradição. Ele pega isso tudo - que é uma e a mesma coisa - e faz com isso um alfarrábio, que guarda na cabeça. Isso vira uma espécie de filtro: tudo tem de passar por aí, dos quarks às super-novas, e, naturalmente, o corpo e a alma de todos os seres humanos... Ai, que desânimo... Ainda se espera que você, aluno, tenha o mesmo vício. E, se não tem, ai!

5. Mas, no meio dessa perdição epistemológica, esse anacronismo absurdo, há, contudo, momentos extraodinários. O meu chama-se Haroldo Reimer. Não há comparação possível entre o que foi aquele encontro... O que havia de especial era o zelo, o cuidado, mas, sobretudo, a abertura crítica e a nudez de Haroldo. Eu "sentia" que também Haroldo estava à porta - também ele olhava possibilidades: era fantástico vê-lo, também ele, construindo-se entre nós... Minto, meu amigo? Mas o que era - e é - apaixonante, é que não parava à porta. Sua cabeça sempre falou mais alto, nesse sentido, do que seu coração - se o coração tinha medo, a cabeça dizia: vai... E íamos... Magia pedagógica aquilo...

6. Saudades... Abaixo de Haroldo há uma série de mestres marcantes. A Graduação em Teologia, em Nova Iguaçu, abriu-me a mente para as Ciências Humanas. Posso dizer que a minha formação mais profunda, minha determinação em assumir a crítica, nasceu ali. Talvez decisivamente no terceiro ano. Alguns professores foram marcantes. Alguns - que se consideram "gênios vivos", e distribuem despeito por onde passam -, desses não fui aluno (Deus é bom!).

7. Mas eram muito, muito diferetes de como eu sou. Não "abriam o jogo". Não o escondiam, contudo. Uns mais, outros menos, apontam possibilidades, uns muito timidamente, quase como que pedindo desculpas... Pegar-me pela mão, abrir a janela, e mostrar-me a dureza da vida, e a nudez da Teoliogia, não. Isso eu tive de fazer sozinho, Bel e eu, em casa, pelas madrugadas, entre beijos e discussões intermináveis... Algumas vezes, a Lua nos fazia companhia, até dar bom dia ao Sol e ir admirar-se de japoneses a colher cerejas... Se eu fora a Lua, fazia o mesmo...

8. Não, nenhum dos meus professores da Graduação tem culpa de quem eu sou. Não posso dizer - foi ele. Não, não posso. Posso lembrar-me de momentos específicos, aulas específicas, que me despertaram a curiosidade. Mas nenhum deles me fez a cabeça. Por isso tenho me dedicado a não fazer a cabeça de ninguém, a dizer, publicamente, que não quero seguidores de nenhuma espécie. Quero, sim, oferecer ajuda a quem quer encontrar-se e a seu róprio caminho, e ir, só, como eu, no meu.

9. Não, nao repito os gestos tímidos e controlados de meus mestres. Em sala, derrubo a parede com murros, e tento fazer ver aos alunos o que há lá fora. Às vezes, é violenta a nudez. Não sei ser comedido, refinado. Não sei negociar discursos. Comedir. São graduandos, não novos-convertidos. E mesmo se fossem! É sua carne que deve ser exposta ao Sol e ao sal. Não há lugar para cuidados extremos nesse espaço de partos. A pedagia deve ser tão violenta quanto o é um parto... Faz força, mulher, empurra! Grita! Respira! Unhemmmm... Carinho pedagógico? Corrente em pé de mesa...

10. Eu não sei o que teria acontecido comigo se um professor da Gradução tivesse me pego pela mão, me arrastado pelo chão e me mostrado o que está escondido de mim desde a "conversão", quantas "verdades" escondidas, e tantas "verdades" reveladas. Não sei mesmo. O que eu sei é que, quando entro em sala de aula para dar aula, despejo todos os meus diabos sobre quem quer que ali esteja. Se não suportarem, saberão pedir arrego. Se não pedirem, das duas uma - ou é porque gostam e querem exatamente isso, ou é porque estão tão desarrumados por dentro que mal conseguem perceber que, ali, decide-se quem nós somos e seremos, independemente de quem nós fomos. O passado é gasolina - não estrada. Vruuummmm...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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