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sábado, 20 de novembro de 2010

(2010/572) Do anacronismo da palavra heresia


1. Outro dia, a China tentou censurar o Google. Ainda não foi dessa vez. Eventualmente as portas da frente são lacradas, mas - e a história nos deixa mentir? - sempre, absolutamente sempre restam as portas dos fundos, as janelas, os porões, as entradas de serviço, até as frestas das telhas. É desespero e destempero. É o sempre velho medo de perder o poder. É aquela absoluta dependência patológica do trono e da glória. É a falta da percepção de quais são os reais inimigos da civilização, das instituições, quais são os verdadeiros cupins dessas colunas. É isso que leva homens - e até mulheres! - a tais atitudes. Eventualmente, uma absoluta incapacidade de ler a situação, a incapacidade de lidar com ela, a frustração, a pequenez, a ineficiência, a ineficácia e a inefetividade - tudo junto e separado. Homens errados nos lugares errados...

2. Antes de eu continuar, e, assim, de aproximar o caso um pouco mais de mim mesmo, deixem-me dizer que há uma aparente contradição na história do empoderamento e de suas tentativas de castrar as forças vitais. Ora se a história demonstra, sem sursis, que o poder, mais cedo ou mais tarde, quebra as pernas, que o poder acaba por fazer o papel de imbecil total, que o poder, senhores, inevitavelmente, perde, e perde feio, por que, então, o poder, esse completo empedernido, insiste em suas estratégias de golpe, de cerceamento das liberdades, de excomunhão, de censura, de forca, de morte? Simples, meus amigos - porque o poder pensa apenas em si mesmo, quero dizer, ele próprio, o empoderado, só pensa em si mesmo, e pouco se lhe dá se vai durar duzentos anos a sua "instituição": o poder, melhor, o poderoso, isto é, o empoderado, agarra-se a "seu" poder, agarra-se a si, a seu estado, a sua condição - e todo o resto que se dane! Durante seu reinado, gozará do doce prazer de lamber os beiços, desfrutará aquela sensação hipnótica de assentar-se à cadeira mágica, de ver aos próprios pés o amontoado dos súditos da hora, e, quanto mais arriscada sua tão desejada glória, tanto mais feroz a sua reação contra as ameaças - sejam reais, sejam fruto dos delírios de poder (nada mais alucinógeno do que o poder!)... Nada há para o poder senão si mesmo - e os que põem em risco tal poder.

3. E eis-nos em dias de Google... O que é que você pensa que pode esconder? E de quem? Por mais gado que o gado seja, mais cedo ou mais tarde, ele vai saber... Mais cedo ou mais tarde, vai chegar aos ouvidos dele, e ele vai saber... Vão contar a ele. Ele vai ouvir durante a exibição de um filme. Vai interceptar a conversa no metrô. Vai ler na Galileu ou na Super. Alguém no Jô vai falar. Ele vai zapear a Net e, de repente, eis a informação, encarando-o. Eventualmente, até, ele mesmo lê na Bíblia!, ou, quem sabe?, cochicharão ao pé de seu ouvido, durante a ordenha... Todavia, uma vez que já sabemos que o que o empoderado quer é a manutenção para si mesmo das benesses desse empoderamento, entende-se a patologia de agarrar-se à idéia de que se podem controlar as informações, mesmo hoje, de que se podem esconder informações, nos dias de Internet, de que o mundo gira ao redor de seu desejo - princípio de prazer, neurose do querer... É um delírio, mas - fazer o quê?

4. Bem, até certo ponto, e até certo perímetro, até se podem controlar mais ou menos as informações, para isso cercando-se o empoderado de sustentadores - seu séquito posiciona-se entre a absoluta bajulação servil e a omissão irresponsável. Nos corredores, critica-se o poder, ri-se do rei, corre a troça escarninha. Nas sessões, cala-se. Quantos pregos não se põe no caixão da história com esse silêncio? E ele não se faz ouvir - um silêncio sonoro! - de três em três meses? Pois então...

5. Outra coisa importante de ser dita, senhores, é que a heresia é um termo militar - por isso, um termo "cristão", um cruzamento incestuoso de Paulo e Constantino. E isso revela o quanto o cristianismo aprendeu de seu(s) fundador(es)! Não há hipócrita maior do que o cristão fervoroso, salvo o cristão empoderado e fervoroso (síndrome de Nicéia!). Porque onde não há armamento, onde não há espingarda e fuzil, onde Constantino não há, o que há são divergências de opiniões, meramente isso, heterodoxias, e, se você deseja, e isso é bom, elas podem ser confrontadas num bom debate de idéias, salutar, inclusive. Mas o poder, quando empodrecido na raiz, quando acovardado na retórica de bastidores, disfarçado da santidade e da sanidade dos protocolos, mas doente até os ossos, brada a máxima militar, saca o revólver e dispara o tiro ignominioso, até porque escamoteado, na surdina, em segredo, bala que macula a história já de todo maculada da fé cristã, que teve dois filhos, o sangue e a morte, no começo e no fim.

6. Sim, conhecemos as histórias de heresia que o cristianismo, com cê minúsculo mesmo, que é o que merece, tem a contar. Outro dia, um ateu pop, Onfray, publicou uma peça de propaganda anti-cristã de péssima qualidade, e desfiou o rosário das maldades cristãs, e nem precisava, porque, antes dele, Saramago o fez com melhor performance, e qualquer bom compêndio acadêmico de História da Igreja o revelaria nos detalhes, sem recorrer-se aos "inimigos da fé". Da mesma forma como a Biblia não esconde os crimes de seus maiores heróis, a História da Igreja não enterrou no esquecimento as atrocidades de seus maiores santos. Mas há doutores que nada leram, o que havemos de pensar? Está-se a discutir a serventia dos papéis que penduram sobre a cabeça, porque bastaria a um bom par de olhos e a outro de ouvidos a memória do sangue dessa Igreja e dessa Bíblia, para que determinadas palavras não saíssem jamais de nossas bocas, quanto mais nobre elas sejam e quanto mais proeminência política tenham. E, no entanto, os olhos ficam brancos do gozo celestial, eu compreendo a fraqueza humana, quando se pode brincar de poder e gritar - fogueira! É doce o prazer do poder...

7. É é triste! Patético! O cume da montanha a soltar puns - porque é assim que será tratado o empoderamento, pela história, quando tudo tiver acabado: um pum ineficaz. Porque Belchior já cantou - o novo sempre vem, e Chico já disse, apesar de você...

8. Quanto a mim, a condição é de permanência na liberdade - livre, livre, livre - como sempre fui e sou. As asas batem, leves, e sentem a brisa da liberdade, da transparência, sentem o espelho translúcido no horizonte. E isso não é pouco. Eu posso dizer, como sempre disse, posso falar, como sempre falei, posso ser eu mesmo, como sempre fui, ter orgulho de dizer, de onde disse, de por que disse, de para quem disse, de quando disse: que delícia e paz não estar preso a uma masmorra de si mesmo, a uma encenação bufa e dantesca de si mesmo, paródia do que não se crê e se é forçado a dizer e a encenar, pelo valor que isso tem, a despeito de rasgar-se por dentro. Liberdade! Não será essa - também! - a expressão do Evangelho? É também daí, da inveja da liberdade dos outros, que advém a ira do forte - se eu não posso, que ninguém possa!, quando, na verdade, a liberdade acena a cada um, toda manhã, e lhe beija a face em serena oferta, toda noite... Bastaria recebê-la, como dom e conquista. Na prática, bastaria o diálogo - mas a espada parece sempre mais disposta aos holofotes, a espada reivindica o fio que tem afiado. Não dou uma década, para as luzes estarem queimadas, a ribalta, embolorada, e a memória, causticada pelo tempo que a tudo consome. Duvidam? É esperar. Nesse episódio, não está em jogo uma relação de trabalho - é o modus operandi de uma categoria inteira que se revela e apodrece à luz do dia, é um sistema revelando as entranhas, as tripas, por dentro do que corre um rio de odor nauseabundo. O que não é nenhuma novidade, porque disso já trataram os Princípios Batistas, que nenhum batista parece ler, de cima abaixo, evidentemente...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

(2010/026) Michel Onfray e Princípios Batistas


1. Já disse que Tratado de Ateologia é um livro ruim. A sensação me veio ainda mais forte, porque comprei-o achando que encontraria - finalmente - um discurso "novo" para a defesa do ateísmo e o ataque ao teísmo. Nada. Como disse, não há nada em Tratado de Ateologia que Feuerbach e Saramago já não tenham feito - e mil vezes melhor.

2. Contudo, há uma afirmação (certamente não a única, naturalmente) muito acertada: "toda teocracia torna impossível a democracia" (1). É verdade. Frise-se: "toda teocracia. Sem exceção...

3. O cristianismo tem, aí, um problema sério para resolver. Entretanto, parece que, em termos de "redação" - na prática, as coisas são diferentes -, a tradição batista (pelo menos aquela consignada nesse curiosíssimo documento da CBB - Princípios Batistas) já resolveu o problema.

4. Num parágrafo em que se defende a democracia como o legítimo governo da igreja, mas isso quando e enquanto as pessoas são orientadas pelo "Espírito", imediatamente se acrescenta, bem no espírito da filosofia liberal inglesa do século XVII - "nem a maioria, nem a minoria, nem tampouco a unanimidade refletem necessariamente a vontade de Deus".

5. Com essa mão, assenta-se que a democracia deve estar sob a inspiração de Deus. Com aquela, afirma-se, sem escamoteamentos retóricos, que não se pode - nunca - saber, afinal, qual seja a vontade de Deus, seja recorrendo-se à maioria, à minoria ou à unanimidade...

6. Fica-se, assim, com uma "teocracia" de desejo, e uma democracia de fato. Quer-se que, afinal, essa democracia, a seu tempo e modo, submeta-se à "teocracia". Mas, registra-se, nunca se há de saber, nunca se pode saber...

7. É pena que nossas igrejas não levem isso a sério. Sabe-se demais da vontade de Deus nelas. Julgam-se, todos os dias, os homens e a humanidade inteira com base nela...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
(1) Michel Onfray, Tratado de Ateologia, Martins Fintes, 2007, p. 151.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

(2009/364) Dois pequenos grandes textos


1. A convite do CADS - Centro Acadêmico da Faculdade Batista do Rio de Janeiro -, ofereci um curso de "Princípios Batistas" a trinta estudantes previamente inscritos, com renda integralmente destinada ao próprio centro acadêmico. Foram quatro encontros de uma hora cada, em cada uma das últimas quartas-feiras, excetuando-se esta. Foi uma boa experiência.

2. Desde minha graduação em Teologia que os Princípios Batistas me fazem companhia, e os levo a sério. Mas é bom explicar do que estou falando.

3. Os batistas nasceram no século XVII, fermentados ali naquelas confusões entre separatistas e a Igreja da Inglaterra. Um bom livro é A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII, de Christopher Hill. Ele dá um bom panorama de como éramos - todos misturados, cada qual sendo chamado pelos outros pelos nomes que acabaram servindo a cada grupos: "batistas" era como nos chamavam... Mas todos oficiavam juntos, em templos comuns, até que o movimento separou quem de quem, e os muros, sempre eles, foram erguidos.

4. Não há nenhuma novidade na parte cristã dos batistas - Nicéia "para inglês ver" e pronto. Todavia, o que é propriamente batista foi parido pela efervescência do libeeralismo político-filosófico-científico inglês (que século!), o mesmo de Bacon, Locke, Hume, Newton... Se os luteranos tiveram por pai um Lutero, nós, batistas, grandes filósofos e políticos. Como eles, o que nos tornamos não é lá muito parecido com o que disséramos que seríamos. Sempre é assim. Mas, ao menos, ficaram os princípios.

5. Esses, são abertos. Dialogais. Críticos. Porque refletem a parte "separatista", logo, crítica, que emprestava da filosofia e da política suas "armas" retóricas. Fomos marcados por elas - e eu diria: graças a Deus. Confesso: das doutrinas batistas abriria mão, sem dor (a rigor, já abri) - dos princípios, não.

6. Um dos princípios que discutimos no curso foi esse: "nem a maioria, nem a minoria, nem a unanimidade reflete necessariamente a vontade de Deus". Dado o princípio, resulta ser imperioso que eu confesse que jamais conheci uma única e verdadeira igreja batista. Todas, sem exceção, estavam - e estão - bastante conscientes da "vontade de Deus". Logo, não são "batistas". Não, se o critério são os princípios.

7. Pedi aos estudantes que escrevessem alguma coisa. Dei-lhes o título: "E agora?". Dois deles, um rapaz e uma moça, escreveram duas muito excelentes declarações. Comoventes, profundas, lindas, eu diria. Ei-las:

8. De Harlyson Lopes:

"E agora?

Durante vinte e seis anos fui adestrado a enxergar numa direção e a ter a certeza de que estava no centro da vontade de Deus. Mas se não há como ter certeza de onde é o centro da vontade divina, então, estou perdido, pois de fato não sei onde estou. E, ou estou preso em algum lugar cuja saída não enxergo, ou estou liberto do local que considerava ser o ideal e, portanto, posso procurar o local que me trará conforto. Mas como procurar? Antes era só seguir a maioria, coisa de que nunca fui adepto. A minoria sempre foi o voto daqueles que não entenderam a vontade de Deus, então nunca a segui. Como não me lembro de ter visto a unanimidade numa igreja, não há quem seguir. Então estou só também. Só, perdido e em dúvida se preso ou liberto. Agora é um recomeçar no escuro e no silêncio para tentar encontrar uma luz ou um som".


9. De Iara Vidal:

"E agora?

Se a vontade de Deus não é necessariamente expressa pela opinião da maioria, nem pela da minoria, e nem mesmo pela opinião de todos, estou isenta de buscar "vontades" específicas de Deus para a minha vida. Minhas decisões são minhas, com todo o bônus e o ônus que isso representa. Sou livre para decidir segundo o meu juízo, para voltar atrás quando errar (sem tentar culpar a Deus pelos meus erros), para assumir as consequências de meus atos. Ninguém decidirá por mim, e eu não decidirei por ninguém. Mas nem por isso estou totalmente sozinha: em vez de mentores que me indiquem O caminho, busco companheiros que me ajudem a fazer meu próprio caminho".

10. Belíssimos, nao? Ah, sim, belíssimos. "Em vez de mentores que me indiquem O caminho, busco companheiros que me ajudem a fazer meu próprio caminho" - não é esse o "princípio da maturidade", a "lei" da autonomia? Que bom ter proporcionado essa "intuição"! E mais: "E, ou estou preso em algum lugar cuja saída não enxergo, ou estou liberto do local que considerava ser o ideal e, portanto, posso procurar o local que me trará conforto" - não é essa a angústia fundamental? A incerteza de fundo, a insondabilidade do além-aqui, do além-agora: numa palavra, solidão e liberdade, liberdade é solidão... Saber, Harlyson, que estamos sós, e que, conosco, sós, vão outros que tais, não nos faz menos sós, mas nos faz constituídos de uma solidão de parto - é que antes nos enganávamos...

11. Fico feliz que esses quatro encontros tenham reverberado esse toque de bronze no capanário das almas despertas. Saímos mais densos dali, mais pesados, mais tristes, mas, por isso também, mas felizes. É que não se trata da felicidade das festas - mas da nudez do vento frio e cortante na cara nua... Obrigado, Harlyson! Obrigado, Iara!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 23 de maio de 2009

(2009/285) Bonhoeffer e um "princípio batista"


1. Ontem ainda, Zabatiero "avacalhava" comigo, sugerindo que minhas reflexões a respeito da "Teologia" estivessem contaminadas por um "ranço batista" - já que minha tradição cristã é essa. Quem sabe? Bem, uma coisa é certa - só há a possibilidade de a tradição batista marcar minhas reflexões sobre "Teologia" por meio do espectro do seu contrário, isto é, eu ter adotado uma espécie de aversão prostática ao literalismo quase-fundamentalista da "Teologia" que grassa em nossos manuais... Está bem, tiro o "quase", se vocês quiserem.

2. Mas alto lá. Não dá pra generalizar. Concordo que o grosso, hum, está bem, capitulo outra vez, que a esmagadora e inquestionavelmente hegemônica maioria da totalidade do que grassa em todos os nossos arraias "teológicos" tem essa tradição doutrinário-literal-dogmático-fundamentalista, herança de uma certa região sul não muito agradável - em termos políticos, claro - de uma certa nação do Norte, terra de Gog e Magog (ironia!)...

3. Não dá pra generalizar, não, porque há algumas coisas escondidas aqui e ali que, vou lhes dizer, é chumbo grosso nas fuças do sujeito literalista, sacerdotalista, ortodoxo, "crentão". Coisa boa, mesmo, de fazer a gente pensar.

4. Um desvio, e volto para esse ponto. Bonhoeffer morreu em 1945 e, em 1944, rascunhara as bases para a reflexão teológica mais ousada do século XX - "um cristianismo a-religioso para um mundo tornado adulto". Ninguém, nenhuma Teologia, nem do Norte, nem do Sul, nem do Leste, nem do Oeste - que eu saiba - chegou perto, continuou o trabalho, levou-a a sério. Enterrado o corpo assassinado de Bonhoeffer, ufa!, também a Teologia medieval, metida em trajes moderninhos, sim, mas de alma medievalíssima, respirou aliviada.

5. Pois bem: eis um princípio batista que se poderia empregar perfeitamnete bem numa Teologia que tentasse dar seguimento às reflexões ambiciosas de Bonhoeffer: "nem a maioria, nem a inoria, nem a unanimidade refletem necessariamente a vontade de Deus". Ah, meus amigos, olhem lá os sacerdotes, os pastores-sacerdotes, os teólogos-sacerdotes, de cara feira! Ah, com um princípio desses, como vou tocar o gado? Se eu não posso ter o cajado de Deus na mão, como posso pôr a pastarem as ovelhas?

6. Vamos raciocinar. Se nada reflete, necessariamente, a vontade de Deus, nem a maioria, sessenta em cem, nem a minoria, quarenta em cem, nem a unanimidade, todos os cem - como alguém, sozinho ou em grupo, vai poder dizer o que "Deus quer", o que "Deus decidiu"? Se esse princípio batista for levado a sério, o que acontece com esses pregadores indecentes e imorais de hoje? O que acontece com as manipulações político-pornográficas, travestidas em espitirualidade, que grassam em nossas assembléias?

7. Ninguém me contou - eu estava lá: sessão ordinária da igreja. Novo pastor. Primeira fala à congregação. "Irmãos, Deus me deu uma visão para a Igreja". Minhas tripas torceram-se. Quase vomito. O nome da visão era "Igreja com Propósitos"... Visão: fosse aquela congregação verdadeiramente batista, um lhe pegava pelos fundilhos, outro, pelos cabelos, e o jogavam lá no olho da rua. Mas não era, não, uma congregação batista, só tinha o letreiro na porta, de modo que ouviram-se aleluias e mãos farfalhantes ao ar. Alguns juram até que Deus esteve por ali, abençoando a patifaria, e registrou-se em ata e tudo... virou História!

8. Mas se aquela fosse uma congregação batista, de verdade, quer dizer, se levasse a sério esse princípio batista, esse de dizer que ninguém sabe de Deus nada não, nem os que dizem ter visões - ah, principalmente esses! -, nenhuma visão seria levada a sério, nenhum dedo mágico, nenhuma boca revelatória, apenas a reflexão, o diálogo, a crítica - alguma coisa parecida com o que Bonhoeffer começava a pensar.

9. Mas ele está morto. E os batistas também vão morrendo, todos. Vai-se substituindo (quer dizer, algum dia ele se materializou, saiu do papel?) essa tradição pelos modelos neo-pentecostais ou próximo-neo-pentecostais. O futuro, qual é? O pior possível - antevejo. Mas se é o que se quer, que se lambuzem. Talvez cheguemos ao fundo do poço, e ponhamos a mão na consciência - se não for tarde...

10. Depois que Bonhoeffer morreu, não se deu muita atenção às suas reflexões críticas, principalmente aquelas que são fruto de um pensamento que leva a sério o século XIX. Ora, o princípio batista é exatamente alguma coisa que, na religião, tenta levar a sério o século XIX. De Bonhoeffer, desvia-se, porque ele está morto. Do princípio batista, justamente porque ele está vivo, e é um antídoto para essa pantomima da fé que se ensaia nos salões da manipulação... E é disso que aprendeu a viver a nossa sã doutrina...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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