1. Saramago, que leio e que gosto (o certo seria "que leio e de quem gosto", mas o efeito de "que leio e que gosto" soou-me mais sonoro), Saramago, então, tem um blog. É O Caderno de Saramago. Mas ele não deixa você postar comentários - provavelmente porque haveria de querer ler e responder a todos, e seria um deus-nos-acuda. No entanto, você fica com vontade de reagir às provocações. Eu, por exemplo.
2. Seu último post, ainda quente do forno, parte dele diz:
2.1 "(...) o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ser vítima de um suposto laicismo “agressivo”, nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.
2.2 Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras".
3. Já reagi uma vez à verve apologétco-ateísta de meu Nobel de cabeceira... Reajo outra vez. Não se pode "discutir" - muito menos "seriamente" - ateísmo. Não vê aquela obra triste e lamentável do Michel Onfray? Esperava eu um verdadeiro Tratado de Ateologia, e achei lá aquilo, tão velho que qualquer bom - bom, eu digo! - teólogo do século XX já tinha denunciado. O próprio Saramago, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo fizera muito melhor: a cor do cristianismo é o vermelho - sangue... Mas isso não fala do ateísmo tanto quanto fala de um Deus sanguinário. Ou será que nosso amigo ateu considera provável a máxima teológico-dualista de que, se é Deus, é bom?
4. Não, meu caro Saramago, de quem adorei Memorial do Convento (deves-me umas lágrimas pardias à dor ali). Não se pode "discutir" ateísmo. Pelo menos tanto quanto não se pode discutir "teísmo" ou qualquer outra madalidade de "aposta" metafísico-ontológico-mitológica. Se há ou não há deus, deusa, deuses ou deusas, pessoais ou energéticos, anímicos ou ectoplasmáticos, não se pode saber. Crer, sim. E, nesse caso, tanto crer que há, quanto crer que não há, porque as duas atitudes são fideístas.
5. Se você crê em Deus, e se se julga tão certo disso que, comissionado, passa a falar disso para todo mundo - um missionário, vejam só! -, que diferença há entre esse e um idêntico catequista ateu, que, crendo que "Deus" não existe, prega isso, anuncia isso aos ventos? Ambos poderão, com um muchocho, choramingar - "quem deu crédito à nossa pregação?".
6. Saramago, um pregador... Quem diria...
7. De qualquer forma, sua leitura a respeito de Roma - o que se poderia, além disso, dizer de todos os demais modus eclesiásticos - é bastante pertinente. Falar de laicismo é um modo de falar, indiretamente, de ateísmo, sem o constrangimento de ter de lidar com a questão, como quem fala de uma doença pelo nome de "mal" - "ele está com aquele mal" (Rorty também adotou a "moda" - ele não é mais ateu, é anti-clerical. Quer dizer, era, porque não tem mais como resolver a questão, já que estava certo, e se foi...). Assim, você não "atrai" a coisa... Mas isso apenas se o discursador é a Igreja. Porque, em sentido antropológico, "laico", logo, "laicismo", diz respeito a uma distinção relativa ao "clero", seja dentro da Igreja, seja, contudo, também fora, porque o Estado, a República, são laicas, e não se vai deixar de referir-se nunca a isso, uma vez que foi contra a Igreja, essa mesma, que a República se insurgiu, fazendo-se o que é. Contra a Igreja - mas não contra, necessariamente, Deus - ou Não-Deus.
8. "Graças a Deus", se me faço entender... Ou ao Não-Deus, tanto faz... Nesse caso, não faz a menor diferença...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO