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domingo, 24 de outubro de 2010

(2010/530) Ler como a aranha


1. Não falo da "literatura" - falo da leitura que toma o texto como discurso e comunicação, como fala situada, intencional, engajada. Falo, pois, de exegese, e, de mais a mais, de textos feitos para isso (poesia, enquanto arte, enquanto estética, desde a gênese, não se presta à exegese, conquanto textos performativos, políticos, pois, ainda que em "estilo" poético, sim: são, antes, como nuvens, a cujo gosto dos olhos se pode aplicar a imagem do que quer que se queira, incontestavelmente - a fala, não!).

2. Digo, pois, que ler é pôr-se no centro da teia em que o discurso se estabeleceu, teia essa que "representa", em sentido diltheyano de "objetivação", o mundo à volta do que fala - e, por isso, escreve. Para escrever, o sujeito, a sua mente, carregada de sua intencionalidade genética, postou-se no centro do seu mundo, e construiu, ao redor de si, a teia de relações, de referências, de apontamentos, de juízos, de controles. Cada personagem, palavra, idéia, ação, do discurso, é controlado desde o centro, as pernas da aranha-escritor controlando-os por meio dos fios da teia narrativa.

3. Não há pluralidade de fato numa narrativa - há um discurso, uma única fala, articulada por meio da manipulação aracnídea e ventríloqua, operada deasde o centro de gravidade da trama.

4. O leitor há de se pôr ali, no centro, no lugar da aranha, e há de reproduzir a teia, e há de perceber como cada elemento da cena é comandada desde esse centro inexorável - exegeticamente falando.

5. Sim, a teia só é controlada absolutametne desde o seu centro na dimensão da recuperação de seu evento histórico, de sua discursividade engajada e situada, nos termos metodológico de a pôr tal qual lá e então. A aproximação estética - ou política - dessa teia, dessa narrativa, isto é, uma leitura com base na própria teia do leitor, desconstrói a trama, e, com ela, seu centro. Perdido o centro, perde-se a teia, e, com ela, tudo. Ganha-se em plasticidade (estética, política), perde-se em historicidade (heurística).

6. O que e estou dizendo não é diferente do que Schleiermacher dizia. Só é mais - tem, além de Schleiermacher, Dilthey. Para mim, a leitura histórico-social, se não passa por aí, não é leitura histórico-social, por mais que lhe carregue o nome, e, se o é, conquanto goste das cores da bandeira de Gadamer, não tem nada de gadameriano, em que pese o constrangimnto de ultrapassar um grande ícone...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 28 de março de 2010

(2010/274) Para divertir - e para pensar


1. Quando se inventaram as palavras escritas, havia quem as considerasse vivas, como espíritos, como o escravo daquela história de levar frutos até a fazenda vizinha, comer alguns no caminho, e o dono da fazenda saber, dizendo que estava tudo ali, no papel, e o escravo atônito, a concluir que o espírito que estava no papel denunciara a sua infração... Quando se escrevia em tabuinhas de barro, passar ao pergaminho não deve ter sido tão difícil. Os códices, de que trata o vídeo abaixo, não devem ter gerado toda essa situação divertida, que você verá. Mas a mudança do padrão papel para o padrão de software mais hardware, de fato, deve deixar muita gente com dificuldades. A história do suporte da escrita é tão importante quanto a história da própria escrita. Aliás, não podemos, por exemplo, esquecer - mas, acredite, esquecemos! - a Bíblia não foi escrita para ser lida do modo como a lemos, silenciosamente, e, cada um, para si mesmo. Ela foi escrita para ser lida publicamente, em leitura performática. Aí está outro grande problema - a adequação da leitura ao seu perfil teleológico midiático. Mas baste, por ora, a comédia...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 6 de março de 2010

(2010/189) Não leia a Bíblia, não


1. Ouça-a! Ler papel é fazer as palavras assumirem os sentidos próximos - próximos de você, de sua cultura, de seus gueto. Ler papel, ler a Bíblia, é projetar nas palavras do verso os sentidos cotidianos, os sentidos domados, os sentidos domesticados, quantas vezes, coitados, paridos a fórceps, arrancados à força do turbilhão das doutrinas. Ler a Bíblia, senhores, senhoras, é voltar para o banco da igreja, é ruminar os sermões de sempre, sabe-se Deus por que caminhos elaborados... Ler a Bíblia, sobretudo, é sepultar as pedras...

2. Recomendo que ela seja ouvida. Transcender o papel, ultrapassar as camadas de celulose, viajar no tempo, no espaço, voltar para um outro mundo... Reconstruir a carne morta dos defuntos escritores, mover-lhes, outra vez, a boca apodrecida de mil anos. Essa é a ressurreição prometida, que lhes cabe, e tu, leitor, és o ressuscitador divino - ao teu gesto, os ossos rejuntam-se, os nervos, recompõem-se, as carnes recriam-se, o sangue borbulha, e ao teu gesto, leitoras, Yahweh torna a soprar naquelas narinas...

3. E, então, redivivos, eles falam, elas falam, e nós, ouvimos. Leia a Bíblia, não, leitor. Feche os olhos. Abra os ouvidos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 9 de janeiro de 2010

(2010/015) Escrituras Sagradas


1. Penso não estar equivocado, se chego a afirmar que aqueles que consideram a Bíblia como seu "livro texto" - tanto faz tratar-se de "religião" ou de "academia" - podem ser divididos em dois grupos (eu sempre dividindo as pessoas...): a) o grupo dos que consideram a Bíblia pelo que ela teria dito e b) o grupo dos que consideram a Bíblia como um cadinho de sentidos possíveis.

2. O primeiro grupo pensa dever lidar com - seja lá o que isso signifique para cada um - "o que Deus teria dito". Na prática, assume-se que haja um sentido no texto, e que esse sentido pertence ao texto, posto lá, seja pelo/a autor/a, seja por "Deus", não vem ao caso, dá no mesmo. O segundo grupo, não. Ele considera que o sentido brota na consciência do leitor, mágico das metáforas, artista da polissemia, invetor dos significados.

3. Penso que (e, aqui, aumento o nível de dificuldade da pergunta que fiz a Haroldo, para a qual ainda aguardo resposta) o segundo grupo desmaterializa a Bíblia, porque ela deixa de ter sentido. Ela se transforma num dicionário disfarçado de texto. Mas, na prática, ela passa a significar o que o exercício de leitura faz dela. Não há, de fato, Bíblia, para os metafóricos, os poetas das Escrituras. Há, apenas, seu próprio instinto, sua arte, sua invenão... Para os críticos, a Bíblia e um sítio arqueológico. Para os metafóricos, um espelho.

4. O problema com o primeiro grupo é que ele corre o risco de errar a interpretação. E erra! Penso que - estimarei - mais de 90% das interpretações "cristãs" da Bíblia, incluídas aí as interpretações cristãs no Novo Testamento!, estejam erradas, quero dizer, do ponto de vista do que os autores de fato teriam dito. Deve-se deixar claro que, se uma denominação cristã assume como "certa" uma interpretação dada em sua Declaração de Fé, independentemente do sentido histórico/original do texto bíblico, isso faz dela um exemplo - críptico, é verdade (dissimulado) - do segundo tipo: faz-se metáfora, aí, e engana-se o fiel...

5. Há mais: o conceito de Bíblia, isto é, de cânon, e, conseqüentemente, toda e qualquer tentativa de atrelar o sentido de cada texto ao "todo" - mas o todo é um artifício! - projeta a consciência do sujeito para o reino da metáforas, das alegorias, das polissemias, da dissimulação. É fraude histórica, em relação ao sentido das passagens. Salvo, claro, se chegamos a admitir que o sentido histórico-original das passagens em si nada significa, e que a verdadeira "revelação" dá-se na alegoria desajeitada e comprometida das políticas históricas...

6. Para uma consciência histórica e crítica, não há, de fato Bíblia... Por outro lado, essa mesma consciência histórica e crítica não pode - não tem coragem para tal crime! - brincar de dizer coisas novas como se fossem velhas, de borboletear sobre palavras ancestrais, roubando delas a autoridade - é disso que se trata, afinal! Uma consciência histórica e crítica só pode cavar, ouvir, e calar-se...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de junho de 2009

(2009/357) Da cozinha


1. ... vem-me o cheio do bacon que Bel frita, a água quer-me escorrer canto da boca afora, enquanto olfato e memória somam forças na tarefa de me levar ao passado. Há diferença entre comer e degustar...

2. Como, meu amigo, vamos ler-te, provar do teu gosto - mas do teu? Querem que brinquemos com as palavras, também c'as tuas (brincam, com elas, Nietzsche!...), que as amarremos em nossos próprios dedos, cada um nos seus, e as façamos, nós, bailar, alguma coisa entre acordos de gueto e teocracia normativa, dita confessional, com o que vou-me tornando averso à palavra "confissão"...

3. Mas, amigo, cá está quem te entende, e, por isso, busca entender-te:

AO MEU LEITOR
Boas maxilas, bom estômago,
Eis o que te desejo.
Depois de teres digerido o meu livro
Hás-de entender-te certamente comigo.
(Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 54)

4. Ler-te, Nietzsche, ou é entender o que disseste, ou não é ler-te - ou melhor: é não-ler-te... E há, decerto, razões inúmeras e de sobra para fugirem de ti, como crianças, do banho, seja o cristão de Nicéia, seja o não-fundacional Deus-sabe-de-onde (ainda há de revelar-se a sua pátria!).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/072) De laudos, provas, textos e irritações


1. Esse post costura duas cenas. A primeira, à que já me referi, foi a minha classificação como "irritante", adjetivação essa sugerida por meu amigo Daniel Justi, por causa dos dez textos que escrevi em reação ao único texto de Jimmy (cf. aqui). A segunda cena não é muito precisa. Ouvi de passagem, enquanto escrevia alguma coisa. Na TV, falava-se de um crime, e a reportagem fez saber que um determinado "laudo" lá provava determinada coisa ao crime relacionada.

2. Bem, laudos não "provam" nada. Laudos constituem o registro de uma atividade de interpretação - se adequadamente elaborado, o registro/relatório de uma investigação indiciária, com base em indícios/evidências, teorias, testes, descartes. Um laudo relaciona "dados" do mundo real com determinada interpretação do "acontecido". O que o laudo quer é uma prova, o que, nos termos próprios, significa a adequação perfeita entre os dados coletados, os indícios, e a "tese". Nos termos do laudo, o que aconteceu foi isso assim assim, o que se pode demonstrar com base nisso, nisso e nisso. Logo, o laudo remonta às provas. Não é o laudo que é a prova.

3. O texto de Jimmy não "prova" nada - não por si mesmo. Nem tem valor em si mesmo - salvo se constitui programa estético. Se é estético, começa e termina em si mesmo, entregando-se à fruição livre de qualquer consciência estética. O post, contudo, pronuncia-se na dimensão da crítica - chama a razão de cega, o que significa que faz um juízo de adequação entre instrumento e realidade (a razão não pode ver Deus [e não pode ver mesmo, mas isso não significa que ela seja cega, mas tão somente que Deus não é uma hipótese razoável, conquanto estética e política]). Assim, por mais que Jimmy seja meu amigo - e o é, ainda -, o seu texto só terá valor, para mim, se nele eu encontrar evidências de adequação ao real, se os argumentos de que ele se serve não forem deslocados da realidade. Porque não o tomo como arroubo estético, mas como experiência heurística.

4. Nesse caso, é necessário entrar profundamente no texto, tomar e sopesar seus argumentos, um a um, seuas idéias, uma a uma. O leitor que passe por ele com o argumento de que se trate de "um simples texto" não faz juz a ele, não o merece. É necessário gastar tempo e neurônios sobre ele, sob ele, dentro dele. E - é fato - toda crítica adequadamente aplicada a um texto qualquer será muito mais volumosa do que o texto criticado, porque ela deverá, além de referir-se a ele, transcrevendo-o, comentar o mais detalhadamente possível. Uma opinião estética resumir-se-ia a um simples - é, gostei, não, não gostei. Mas uma avaliação heurística, uma crítica, não, tem de ser detalhada, ou não é crítica. Minha Tese sobre Gn 1,1-3 tem 350 páginas, e não posso dizer que esteja esgotada.

5. Por isso, o exercício da crítica é necessariamente lento e longo. O crítico é necessariamente um irritante, tanto mais quanto maior for a leniência da sociedade com a qualidade dos pronunciamentos. Uma aparência de comunidade científica constitui-se justamente assim, na superficialidade das "verificações", quando a ágora é encenação, pantomima, teatro, em cujo palco desfilam textos que se insinuam como marcos políticos, quando deveriam oferecer-se como objeto de crítica.

6. Não, laudos não provam nada. Podem, até, ser falsos, podem, até, ser fraudes. A prova é, sempre, a reconstituição das relações indissociáveis entre causa real e histórica e acontecimento conseqüente - esse evento xis foi causado por essa(s) causa(s) ypsilom. É por isso que não me acanho diante de textos. Podem ser falsos, podem ser fraudes, podem ser equívocos. É minha função, enquanto leitor e crítico, antes de tudo, certificar-me da validade dos argumentos de um texto - nem que, ao cabo, ele seja reduzido a um exercício equivocado de retórica.

7. Meus leitores são convidados - mais do que isso: é seu dever - a procederem do mesmo modo diante de meus textos. Devem observar criticamente seus argumentos, sua base. É uma necessidade da relação dialogal. Então, vamos lá: sejam irritantes.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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