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domingo, 21 de março de 2010

(2010/256) Que ele me seja favorável


1. Posto que só ele o sabe, que ele me seja, então, favorável, que me queira bem, que cuide de mim, que espalhe as folhas de outono sobre a longa estrada, e que meus pés não doam ao pisar a terra. Posto que só ele o sabe, que ele me seja, então, favorável, que zele por minha segurança e alma, minha vida e corpo, e me abrace com carinho em cada curva do percurso. Só ele sabe. Pois então que ele seja bom pra mim, e que ponha nuvens entre mim e o sol, quando inclemente, e as sopre, quando os raios apenas me quiserem acariciar a pele. Que ele me ponha ribeiros de águas frescas, de que eu beba, e, redobradas as forças, continue. Porque nisso ele e eu somos irmãos - não há como parar, não há como deixar de dar os passos em direção ao amanhã. Posto que é o tempo o senhor de mim, é o tempo o senhor do mundo, é o tempo o senhor de toda a sabedoria e segredo, que ele me conte todas as alegrias que hão de vir, para que eu as transforme em pão e vinho, e me alimente delas, enquanto as espero, enquanto as produzo de as tanto desejar. Ah, sim, só o tempo sabe, só ele tem as chaves. Pois, então, que me abra as portas, todas elas. E que, naquele dia, também ele abra a derradeira porta, e eu me deite em silêncio. E ele, e o tempo, ele permanecerá depois de mim, depois de todos nós. Porque só ele sabe...













OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 21 de junho de 2009

(2009/367) Profecia ante eventu


1. A chamada "profecia bíblica" é constituída, em boa medida, de um conjunto de releituras "ex eventu", isto é, interpretações feitas após o evento acontecido, colocando-se na boca de um profeta palavras que anteveem eventos de um futuro, visto a partir de um passado realizado no presente da enunciação. Aí não tem muito perigo de erro.

2. Claro, há também os personagens carismáticos, 'históricos', que, no caso da literatura bíblica, deram origem a um conjunto de textos. Para chegar a esses há somente um caminho por meio de um intrincado conjunto de enunciação de hipóteses, que devem ser 'verificadas' por meio árduo trabalho de análise literária, com cotejo do maior número de informações históricas. Não temos mais 'acesso direto' ao personagem histórico. Qualquer acesso se dá, necessariamente, por meio (através?) das construções textuais em torno do personagem.

3. Gosto de trabalhar com textos proféticos. Aprendi a gostar em idos tempos na Faculdade de Teologia, em São Leopoldo, com meu mestre Milton Schwantes. Depois, nos meus estudos doutorais, andei nas sendas de Amós, um profeta radical. Vi, na época - elá já vão quase 20 anos -, coisas, que, hoje, vejo de forma diferente. O "meu" Amós diminuiu em termos de base literária e histórica. Ele não desapareceu. Também não é simples "invenção". Um personagem, provavelmente com este nome - Amós - mantém uma referencialidade com os textos sobrepostos ao personagem. Uma série de textos, para mim, passaram de ante para ex eventu.

4. Transpondo os tempos, sem abandonar o gênero, gostaria que permanecesse - mesmo sob o risco da "falsa profecia", conforme a normatização deuteronômico-deuteronomista -, como profecia ante eventu a seguinte previsão: "OSVALDO É HISTORIADOR".

5. Se eu errar, erro eu. Porque é intenção, é desejo, é voto!


HAROLDO REIMER

sábado, 28 de março de 2009

(2009/121) De pinhas e guirlandas


1. Em Teresópolis, podem-se recolher, por todo canto, pinhas, recém ou há muito já caídas de pinheiros, abetos ou cedros. Você as chama de pinha, os botânicos, de estróbilo, e você e o botânico ficam satisfeitos. Há, contudo, uma diferença. O botânico trata a "pinha", para ele, o "estróbilo", como uma estrutura funcional (reprodutiva) de uma espécie viva, que, tendo cumprido sua função, proteger as sementes até que estejam prontas, desprende-se da árvore, para morrer, se o desprender-se já não é, em si, a própria morte.

2. Já você, nem está interessado em saber se a pinha é fruto, folha ou qualquer outra coisa. O que interessa a você é encontrar uma, duas ou três pinhas bem harmoniosas, simétricas, com cada uma das formações intacta, viçosa, sem parte alguma quebrada nem manchada, e sem fungos. O que você tem em mente é um enfeite, seja de Natal, seja para qualquer outra ocasião feliz, e você pensa em fitas, em arames, em efeitos de brilho e cor, na expressão feliz dos convidados da festa, na alegria da casa, na felicidade das pessoas, em como essas pinhas vão dar um efeito mágico às suas comemorações. É isso que você quer. É para isso que lhe servem as pinhas. O pinheiro?, bem, o pinheiro continuará a vida dele, até quando você, ano que vem, no próximo, precise de mais um punhado de pinhas baldias, com quando pensará em uma boa guerra entre amigos, e por isso, irá atrás de mamonas.

3. A pinha é o texto bíblico - a guirlanda, o cânon. Há alguma coisa a ser feita com o cânon. Eventualmente, até festa. Fala-se até da possibilidade de uma "teologia" do cânon, uma expressão austera. B. S. Childs gosta de pensar em suas pinhas amarradas umas às outras, um arame aqui, recolhido àquele Concílio, uma fita ali, solicitada àquela escola filosófica, um ou dois pontos de purpurina prateada, guardada de experiências litúrgicas e pastorais. Haverá, decerto, o gosto do clima - uma guirlanda de Childs, no frio norte estadunidense, conquanto se faça das mesmas pinhas, não há de ser como um enfeite tropical que o nosso bom Schwantes eventualmente proponha pendurar à porta da festa da fraternidade. Afinal, olha-se para o cânon com os mesmos olhos com que se olham as suas pinhas, de modo que cada qual faz sua própria guirlanda... e festa.

4. Entendo as guirlandas, as festas em torno delas. Entendo o cânon, a cerimônia de iniciação aos regimes de submissão à sua severidade ou, eventualmente, sua programática abertura. Entendo, sim. Mas não gosto da festa. Nem acho bonitas as guirlandas. Não se poderia me convidar a uma delas, sem que se exigisse de mim, das duas uma, ou uma recusa sincera e pouco politicamente correta, ou uma aceitação profissional, por dever, assim digamos, a esperar hora e meia de desconforto. Por melhor que seja a festa, se não é aí que queremos estar...

5. O que me atrai são as pinhas, caídas na terra. Aproximar-me, com cuidado, para não pisar-lhes a casca apenas aparentemente dura, mas frágil, frágil, como grãos de ontem. Observá-las de perto, contar-lhes os bracinhos de deitar sementes, há muito idas. Olhar a altiva árvore do tempo. Imaginar desde que galho elas tombaram, quando? Como a conchas, pô-las à altura do ouvido, como a tentar que me digam, elas mesmas, é possível?, seu nome, diga-mo!, sua idade, conta-mo!, do pó que carregam, vos suplico...

6. A minha aproximação às pinhas não é comparável à dos preparativos de Natal, mas à dos botânicos. Não é melhor, não é pior, mas é marcada por uma preocupação comprometida com a história mesma da pinha, não com a minha. Não é a minha festa, agora, que me interessa, mas a própria pinha, sua festa - eventualmente, sua dor e tragédia.

7. Exegese, para mim, é como recolher pinhas aos pés de uma Pinaceae, para as estudar, para as compreender, para estudá-los, para os compreender. Aliás, ao que tudo indica, se eu fosse um desses antigos pinheiros, ainda vivos, e os há de inacreditáveis quase dez mil anos, então poderia ter ouvido, com meus próprios ouvidos, visto com meus próprios olhos, o dia em que nasceu cada uma das minhas pinhas queridas, quero dizer, o dia em que se disseram e se compuseram todas as centenas e centenas de pinhas de que se constitui o pinheiro da Bíblia Hebraica. Ah, se eu soubera a língua dos pinhais... essa seria a minha festa!




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 24 de março de 2009

(2009/103) Cosmogonia egípcia e civilização européia


1. Durante minhas pesquisas para o doutorado, li bastante sobre as cosmogonia egípcia e mesopotâmicas, bem como um pouco acerca das cosmogonias gregas e do extremo-oriente. O que me chamou a atenção é o fato de que as cosmogonias mesopotâmicas e a grega tinham algo de muito próximo das cosmogonias egípcias, mas sem o grau de abstração e "intelectualização" aqui presentes.

2. Em ambos os "modelos", a criação constituía a emergência dos respectivos sistemas sociais (reis, cidades e povo) desde as "águas originais". O "caos" - em termos sócio-políticos, o não-construído, o espaço incivilizado, o "deserto e desabitado" - é descrito, sempre, como "água". No entanto, as cosmogonias assíria e babilônica, por exemplo, não chegaram a constituir "sistemas", fenômeno que sucedeu no Egito - as "aparências" constituíam, a rigor, a emergência do indeterminável, do potencial, do indiferenciado. Tudo constituía a aparência fenomênica do Um pré-caótico, materializado, rotina após rotina, por meio de diferenciações cosmogônicas. Há, certeramente, um processo de "racionalização" aí: a variedade é fenomênica...

3. Todavia, perguntava-se por que aí, e não lá? A resposta me veio do quadro histórico comparativo - enquanto o Egito experimentou séculos e séculos de estabilidade, com raros e breves períodos de instabilidade e, eventualmente, invasão, a Mesopotâmia fora um palco dinâmico de guerras, destruições e invasões. Não havia disponível o tempo necessário para a "evolução" fenomenológico-religiosa dos mitos brutos em sistemas abstratos de pensamento.

4. Agora, lendo Marc Bloch, o historiador me diz a mesma coisa quanto à Europa. Durante o início da Idade Média, e até por volta do ano 1000, a Europa sofrerá invasões, ao sul, dos árabes, a leste, dos húngaros, e ao norte, dos "normandos" (os povos da Europa do Norte). Depois de um relativamente longo período de invasões, assentamentos e trocas culturais, Bloch diz que não haverá, mais, invasões. Daí em diante, as escaramuças em que a Europa se há de meter constituirão guerras de fronteira, mas ela nunca mais será invadida - o que lhe garantirá uma estabilidade fermentada. Em seus própios termos:

5. "Doravante, o Ocidente ficará livre delas (das invasões). Diferentemente, ou quase, do resto do mundo. Nem os Mongóis nem os Turcos fariam mais do que aproximar-se das suas fronteiras. Certamente que haverá discórdias, mas sem contacto com o exterior. Daqui derivou a possibilidade de uma evolução cultural e social muito mais regular, sem a quebra de qualquer ataque exterior nem de qualquer afluxo humano estrangeiro (...). Nada nos impede de pensar que esta extraordinária imunidade, cujo privilégio apenas partilhamos com o Japão, tenha sido um dos fatores fundamentais da civilização européia, no sentido profundo, no sentido exacto da palavra" (Marc Bloch, A Sociedade Feudal, 2 ed, revista, Lisboa: 70, 1987, p. 72).

6. Muito interessante. Sentado ali no sofá, lendo esse parágrafo, e refletindo, incontinenti, sobre as cosmogonias egípcias e o tempo de fermentação que demandaram, perguntei-me quanto a mim, quanto ao tempo que tem o tempo para trabalhar em mim, para tirar de mim os segredos que dormem, e que demandam justamente longo tempo para despertar... Bem, tempo, sim, mas, certamente, também de condições geopolíticas favoráveis.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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