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domingo, 4 de outubro de 2009

(2009/516) Teologia sem revelação é Teologia?


1. O bom da era da Internet é que você está em casa, mas é como se não estivesse, porque você recebe uma "correspondência" - um e-mail - e, como nos séculos XVIII, XIX e XX, você pode dialogar "à distância", mas muito mais rápido do que então.

2. Recebo um e-mail de Robson Guerra, estudante de Teologia, a um ano e meio da formatura. Para ouvir sua crítica, mandei-lhe artigo em que proponho uma classificação epistemológica para a Teologia, que deverá ser publicado na PUC-PR (se tudo der certo), e ele me dá retorno - que cobrei... A conversa caminha para a afirmação, que teria ouvido, de que "sem revelação não há Teologia". Sem revelação, teria continuado o autor da proposição, há outra coisa, Filosofia da Religião, vá lá, mas, Teologia, não. Bem - se isso fosse verdade, o MEC teria cometido a maior das impropriedades da breve história do Sistema Federal de Ensino brasileiro: pôr "revelação" em seu currículo. Naturalmente, que uma declaração dessas não faz nenhum sentido. Aliás, faz sim, mas não é bem "teológico" o sentido...

3. Ouvi algo parecido de um profesor meu do doutorado, numa discussão num suposto (porque, a rigor, era falso o contexto alegado) contexto antropológico-religioso (mas era exclusivamente criptoteológico o contexto alegado como antropológico [a Teologia inventa coisas para si!], e de, nesse caso, Teologia medieval - porque Barth é medieval): "se o cristianismo não contiver um núcleo proposicional revelado, não é cristianismo". Quanta informação numa só proposição político-programática! Cristianismo não é religião, é "cristianismo", outra categoria qualquer que não as antropológicas [e isso dito em contexto alegadamente... antropológico!], e, além disso, as "verdades" do cristianismo são "verdades divinas". Século XXI isso. E CAPES, heim! Não se pode abrir a guarda - se você relaxa, engrupem sua racionalidade... [depois que o professor disse isso, passei todas as demais aulas, sempre obrigatórias, observando os macacos saltarem nas copas das árvores que se revelam à janela do prédio, na Gávea].

4. "Revelação" é um conceito político. Nada mais do que político. Só perde em essencialidade política para outro conceito, mais inteligente, a "Iluminação". O conceito de "Iluminação"´é muito mais inteligente do que o de "Revelação", porque o conceito de "Revelação" é, em si mesmo, inútil, não serve para absolutamente nada, se houver uma pessoa na sala com mais de três neurônios. Ebeling e Fuchs já nos disseram do que estou falando: Barth defendia uma Teologia da Palavra, que seria a mesma para toda a igreja: uma "doutrina" bíblica positiva, positiva e "revelada", revelação do "Totalmente Outro" - ou seja um embuste, que só tem existência concreta num sistema episcopal, onde cabe ao colégio cardinalício a determinação da doutrina. Num sistema onde se pode e deve pensar, o conceito de "Revelação" não é apenas não-inteligentemente operacional, quanto serve, apenas, para fundamentar cismas fundamentados... nele: todo grupo que "racha" uma comunidade, o faz por força da "Revelação", e lá vão dois grupos a falar em nome de Deus, Deus "revelando", a cada um, uma coisa diferente... Surpreende-me que, cem anos depois de Barth e da Teologia Hermenêutica, a Sistemática ainda repita essas impropriedades...

5. Ebeling e Fuchs sabiam que há, entre a "Palavra" e o "crente", uma mediação interpretativa,, da qual não se pode fugir, e que a afirmação de "uma doutrina" é impossível, já que cada leitor tende a interpretar o texto a partir de sua própria ideologia, seja sua ideologia pessoal, seja a ideologia de seu grupo político-religioso. Não lhes restou senão criar o conceito - político (para "aparar as arestas") - de Teologia Hermenêutica (da mesma forma como hoje vai ficando em voga uma "Teologia Quântica - meu Deus, é um circo!). Ou seja, "Revelação" é meramente uma palavra mágica, para, quando usada, fazer com que se pare de pensar, e se repita o script político-doutrinário da vez. Já a "Iluminação", não: quando se inventou esse conceito, inventou-se um modo de fazer com que, quando o crente "encontrasse" a doutrina ortodoxa no texto, interpretasse esse "encontro" como ato do Espírito Santo... A "Iluminação" dá o "drible da vaca" na crítica hermenêutica da "Revelação", fazendo o Espírito Santo operar não na Palavra, mas na mente do leitor. Logo se vê que há política em tudo, na Teologia, mas há noções que são muito mais inteligentemente políticas do que outras... Deus do céu, a gente ainda trabalha com eses conceitos em pleno século XXI! Isso é política, gente!

6. No século XIX, tudo isso já foi desmontado. Não ficou pedra sobre pedra. É consternador ver acadêmicos manuseando conceitos políticos, anacrônicos, falidos, improcedentes. - "ensinando" Telogia... Que continuem a ser usados no púlpito, isso apenas dá uma idéia do que se faz ali, de como se tratam os homens e as mulheres religiosos. O palavrório que se usa para tagarelar noções de ética, de libertação, de valor humano, na prática, revela-se falso, e cínico, porque, na prática, o que se vê é a manipulação política - como que para o bem - de almas humanas boas e incultas. Fosse na Europa, que púlpito nosso sobreviveria de pé? Já Huxley dizia que a manipulação para o bem é imoral...

7. Quando digo que a Teologia não aprendeu nada, acho que não disse bem alto: A TEOLOIA NÃO APRENDEU NADA. Nem quer. Seus currículos estão repletos de disciplinas científico-humanistas, mas a Teologia é surda como uma porta! É mero instrumento político a presença dessas disciplinas, porque a Teologia lida com elas de modo político, seletivo, fechada, hermeticamnte, em seu casulo mitológico. Recomendo aos estudantes de Teologia: tenham cuidado conosco, seus professores, porque não os amamos o suficiente para libertá-los - amamos mais o que fazemos, e vocês fazem parte do que fazemos... Precavei-vos!

8. Não há lugar para a palavra, o conceito, a política da "Revelação" na Teologia acadêmica. - idem, para "Iluminação". E mesmo um crente de igreja, não necessariamente um seminarista, deveria ser orientado a pensar criticamente esses conceitos - mas essa é outra questão, que deixo passar ao largo. Na academia, no MEC, Teologia é empreendimento humano baseado em tradição e história humana, tradição essa que contém tudo quanto o homem considera "sagrado", porque tudo que o homem considera sagrado é culturalmente construído, seja cânon, sejam deuses, sejam deusas, sejam diabos, sejam diabas, sejam dogmas., sejam princípios Nada, absolutamente nada há que não seja cultural e histórico. Nem "Deus" - que, além de histórico, é político...

9. Logo, uma Teologia-a-partir-da-revelação constitui mito operacional, política programática, de centros de poder - mesmo daqueles que lutam contra poderes maiores! Não luto - nesse momento - pela transformação da religião. Não, ainda. Luto, agora, pela transformação da Teologia. E onde quer que você ouça que a Teologia sem revelação não é Teologia, pode apostar que está diante de outro guerreiro - mas um guerreiro da manutenção do status quo. Faça-se a pergunta: qui prodest? - a quem interessa esse jogo de revelação, e o nome do jogo salta na sua cara...

10. E depois ainda me vêm falar mal de fundamentalistas... Ao menos seu discurso é mais coerente com sua própria prática.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 24 de maio de 2009

(2009/289) Tornando-me imprestável


1. Cito um parágrafo e algumas declarações avulsas de Claude Geffré, Crer e Interpretar - a virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004.

1.1 "A teologia é exatamente um discurso que tem por objeto um discurso sobre Deus, mas evidentemente ela não deve praticar um completo 'colocar entre parênteses' a questão de Deus, o que é o caso hoje de muitas filosofias da religião, filosofias anglo-saxônicas em particular. A teologia vai justamente levantar a questão da relação do teólogo hermeneuta com seu texto, mas segundo o horizonte da questão de Deus. Este horizonte da questão de Deus ele o recebe da revelação. Por conseguinte, a hermenêutica como hermenêutica dos textos fundadores do cristianismo é uma hermenêutica que se refere, de um lado, à positividade de uma revelação e, de outro, à intecionalidade da fé do sujeito que crê" (p. 33-34).

1.2 "Isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma" (p. 35).

1.3 "Como sublinha Gadamer, é porque me inscrevo na mesma tradição que suscitou o texto, que posso tentar compreendê-lo" (p. 36).

1.4 Ou seja: teologia é discurso sobre discursos, mas com um olho na missa e outro no padre, e o pade, aí, é a "questão de Deus". Isso que é a "questão de Deus", não se trata de um problema epistemológico, de recorte kantiano, uma problematização crítica, uma investigação - heurística - das possibilidades de tal coisa. Não! Trata-se já da assim assumida "informação" que advém da "revelação" - sim, você leu isso: "revelação", que tem um caráter "positivo", isto é, nesse sentido, independe da "subjetividade" da fé (a subjetividade dissolve revelação, sabia-o Barth), ainda que, dado o modo criativo com que Geffré tenta as contas de acomodação dos dois mundos, o medieval, e o moderno, se explicite "na intencionalidade da fé do sujeito que crê". Mas não se engane o leitor, porque "isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma", dogma esse a que estamos vinculados por força de nosso vínculo inexorável e exclusivo com a nossa gadameriana linguagem e tradição.

2. Muito interessante - é como o artigo de Müeller: quando você o observa assim por alto, parece que promte, mas, quando entra dentro dele, e o lê "sintaticamente", descobre - e é tarde - que se trata da mesma teologia de sempre, mas com um novo projeto de "legitimação". Quanto a Müeller, penso que já o demonstrei - a despeito da crítica de Zabatiero, que é quem deve a demonstração de seu argumento. Quanto a Geffré que, não por acaso, Müeller cita, tenho algumas observações.

3. Eu assmiria, para início de uma conversa a respeito da definição adequadamente acadêmica de Teologia, para a postulação crítica de seu estatuto epistemológico no MEC, a definição que Geffré faz que vai usar. Nos meus termos: Teologia é o estudo dos discursos sobre Deus - isso com todas as implicações históricas e científico-humanistas, sem "janelas" para escamoteações dogmático-normativas. Sim, janelas sub-reptícias, como as que Geffré deixa abertas, tanto para, por elas, fazer entrar coisas e fazer saírem coisas.

4. O que entra - o velho dogma, o velho "modo" das doutrinas, o velho modelo platônico-dedutivo-positivo, as velhas "verdades" - e com o displante, o não-constrangimento (é o problema dos teólogos, só se dirigem a teólogos e ovelhas, e tomam-nos por si mesmos!) de a isso chamar "revelação". Bem, ao menos Geffré tem em sua defesa sua "tradição" romana... Primeiro, Geffré diz que essa Teologia que é discurso sobre discurso (até ai, compreensível) não vai pôr a questão de Deus entre parêntesis - pelo contrário, o teólogo vai se informar quanto a isso na revelação, na "positividade" - mas isso é Barth! - da revelação, que ele melhor define com a expressão "isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma", ou seja, revelação, positividade da revelação e dogma é tudo a mesma coisa.

5. Ora, se a revelação fosse alguma coisa aberta, mística negativa, em estilo eckhartiano, que diferença faria? Seria engraçado observar um teólogo sentindo a necessidade (psicológica? [Freud]) da mautenção do "discurso" místico-eckhartiano, mas isso em nada interferiria, concretamente, na "pesquisa". Todavia, ah, senhores e senhoras, essa revelação, não se enganem, é o "dogma", a "doutrina", as "palavras mágicas", "de ordem", palavras "cosmogônicas" - a positividade da expressão da fé, que Müeller há de chamar pelo duplo termo "depósito da fé" e "teologia clássica".

6. Não é muito diferente disso aquilo e que se tem transformado uma "teo-poética" desenvolvida por teólogos e teólogas - "comparar" o que os autores desse ou daquele romance falam sobre Deus com o que a "revelação" fala sobre Deus. O primeiro momento dessa empreitada, se decentemente elaborado - mas há controvérsias, dado o grau de comprometimento ideológico do conjunto -, seria relevante (os estudantes de Física da UERJ andaram praticando-o em relação aos teólgoos/físicos dos séculos XVII e XVIII, para apreender-lhes os preconceitos teológicos, e, assim, construírem um quadro de referência para o entendimento da Física que eles elaboraram a partir de suas respectivas cosmovisões). No entanto, a segunda parte do programa serve para quê?, senão para a manutenção do "critério" normativo, disfarçado em, hum, "discurso"? Que satisfações, seja Guimarães Rosa, seja, eu, têm-se a dar às Escrituras e à Igreja? O "mal" não é o que a Igreja diz que ele é - o que a Igreja diz que ele é é, apenas, o que ela diz que ele é, mais nada.

7. A "virada hermenêutica", essa aí, é, a meu ver, apenas uma coisa: uma apologia da manutenão dos termos, das doutrinas, das estruturas, dos discursos da tradição - da velha Teologia barroca. Não é à toa que Gadamer será citado - sempre será citado! Mas o que Geffré diz não tem o menor fundamento: "como sublinha Gadamer, é porque me inscrevo na mesma tradição que suscitou o texto, que posso tentar compreendê-lo". Nada mais falso. Não é porque estou inserido na tradição da linguagem cristã - meu Deus, Geffré transformou "linguagem" em cosmovisão e tradição! - que eu posso compreender os "textos fundadores do cristianismo".

8. Ora, eu posso compreender quaisquer textos e tradições do planeta: dos malaios, das miríades de etnias africanas, esquimós, da Terra do Fogo, dos hindus e dos gregos, das ilhas Trobriand. Posso compreender quaisquer textos e tradições - sem exceção - dos cinco continentes: América, África, Ásia, Europa e Oceania. Se você achar textos da Ilha de Páscoa, me dá que os interpreto. Deus do céu - não é a inserção de um homem em uma cultura específica que o faz compreender essa cultura - é seu potencial genético-biológico-cultural de inserão em culturas que lhe dá a versatilidade de criar e de entender-se com qualquer cultura e linguagem - a sua ou a de qualquer outro ser humano. Até a linguagem dos animais vamos compreendendo! O que é potência e faculdade aberta, Geffré (Gadamer?) transforma em prisão e trilho. A "virada hermenêutica" dessa Teologia é o retorno ao cativeiro babilônico da Idade Média, senhores, senhoras... mas com o colorido da maedia... A virada antropológica fora alforria, essa aí, capitão-do-mato! Solipsismo platônico-evangélico, coisas daquele ranço de dizer que apenas homens regenerados qualquer coisa assim...

9. A cada argumento, vê-se o que está em jogo: manter Deus à vista, manter a "doutrina" à mão. Para quê? Se o que Geffré chama de "virada hermenêutica" tem sua base na "virada antropológica" do século XIX, em nome de quê, Deus do céu (eu sei o nome...)!, mantêm-se, aí, a impossibilidade antropológica da "revelação", a materialidade político-institucional do "dogma", a ideologia político-psicológica da "fé"? Qui prodest? É pesquisa o nome diso?

10. E, aí, chegamos ao constrangimento de ter que dizer o seguinte: para o MEC, isso é piada. Não duvidaria que a política chegasse a permitir que uma coisa assim invadisse o MEC: os jogos de interesse, as contas de chegada, explicariam uma desgraça dessas. Ah, ouvir da boca de um "pesquisador" que essa observação assim e assim diverge da "revelação"... O que se ouviriam, depois? Um silêncio sepulcral, por causa do constrangimento irreprimível dos pares, ou uma sonora gargalhada, inexorável? E o pior é que o "teólogo" ainda acharia um modo de choramingar com Deus a insensibilidade "teológica" dos colegas...

11. Por outro lado, ainda, fora do MEC - e aí piso mais devagar: imaginar a necessidade de um discurso desses para a manutenção da "teologia" na Igreja é sintomático - a que neurose, Freud, está ligada a necessidade de uma apologia capenga, se bastaria a fé simples e fundamentalista dos milênios cristãos? A gentre descobre a hermenêutica, sabe o que isso sginfiica, e, contudo, fala de "positividade da revelação"... Ah, entendo, para uma nova mentalidade, uma nova configuração da neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 21 de abril de 2009

(2009/199) Resposta às Quinze Perguntas de Adolf von Harnack - VIII (pergunta seis)


1. Depois de vencido o primeiro terço da caminha no esforço de responder às quinze perguntas de Adolf von Harnack, é pegar as bagagens e dar conta do segundo terço. Assim traduzo a questão seis, de Harnack: "se Deus e o mundo (vida em Deus e vida no mundo) são completamente opostos, como é que a educação na piedade, que está em Deus, tornou-se possível? Mas como a educação é possível sem conhecimento histórico e a mais alta valorização da moralidade?" (1).

2. Mais uma vez, Harnack discute a questão a partir da plataforma teológica. Seu argumento é: se o mundo de Deus é tão distinto do mundo humano, não se explica como um possa envolver-se com o outro. Daí que opta pelo mundo humano, para, nele, enconrar o mesmo mundo de Deus, mas humanizado - "liberalizado". À "piedade" (do mundo de Deus, "goodness") segue-se a "moralidade", do mundo humano. Com efeito, na prática, medidas as atitudes, os comportamentos, a moralidade é a contraparte secular, humana, liberal, da piedade. Basta que sejam suprimidos os ritos e os anexos teológicos das rotinas da piedade para que se obtenha um conjunto de práticas naturalmente morais, o núcleo significativo da piedade é a própria moralidade.

3. Trata-se de um modo de argumento relativamente comum à teologia situada na ala mais crítca do espectro teológico. Recentemente, o exegeta histórico-crítico católico-romano, Simian-Yofre, empregou-o, quando discutia o conceito de "Palavra de Deus" em relação ao texto da Bíblia Hebraica. Dada a sua argumentação, bem como sua ideologia, ele, acertadamente, questiona: "se a profundidade da palavra de Deus não está presente na palavra humana, de que serve a Escritura?" (2). A rigor, para sustentar, com a imagem dos termos grafados, a eisegese alegórica que a teologia precisa aplicar à letra morta do passado, vertendo-a em sentidos apropriados à sua própria configuração ideológico-doutrinária. Simian-Yofre sabe disso - na verdade não se trata de uma "pergunta", mas de uma denúncia.

4. Ele dirá, na conclusão: "parece haver, na base dessas formulações e posturas, uma filosofia da justaposição sem chegar à integração (...). O autor humano e o autor divino, o texto de um e o 'não-texto' do outro, permanecem lado a lado, quase sem se tocar, tornando-se assim, inútil o esforço para ler o primeiro (porque isso não nos permite chegar à Palavra divina) e inatingível o modo (espiritual, místico?) de interpretar o outro, que parece não poder exprimir-se com algum método" (3). Não se dá o mesmo entre "piedade" e "moralidade", nos termos em que colocava a questão, à época, Harnack? Vejamos: a) se a piedade não é propriamente humana, mas divina, b) se a vida em Deus não é a mesma coisa que a vida humana, c) se a educação humana não prescinde da história e da cultura, d) como educar o homem, sem história e sem moralidade, de um jeito que a isso se pudesse chamar de "piedade"? Ou a educação humana é inútil, ou a educação humana e a piedade são a mesma coisa...

5. Em termos políticos, estratégicos e didáticos, o que tanto Harnack quanto Simian-Yofre denunciam é uma disfunção cognitiva própria do poder religioso, onde quer que ele se encontre. Nada há, sob nenhuma circunstância, nas religiões e nas teologias, que não seja humano. A piedade não é divina, é humana. O êxtase? Humano. A liturgia? Humana. A mísica? Humana. Tudo é humano. Nada é não-humano. De modo que, com Simian-Yofre, faz todo sentido "descer" a "Palavra de Deus", em regime teológico, até a "palavra humana" - o que os homens e, eventualmente, as mulheres escreveram na Bíblia Hebraica, aquele sentido com que se expressaram, isso é, precisamente, a "Palavra de Deus". Nos termos de Harnack e de sua teologia liberal, a mais refinada moralidade humana, a "civilidade" ocidental, a ética, as regras sociais de relação, eis aí, ao mesmo tempo, a vida humana e a vida possível "em Deus".

6. Diria que essa percepção de Harnack, bem como a de Simian-Yofre, sejam conseqüências da aplicação irrestrita de um princípio cristológico particularmente caro à tradição protestante: a encarnação. A melhor civilização humana possível equivale à melhor configuração possível da encarnação, de modo que não apenas passa a não haver mais conflito entre a vida humana e a vida "em Deus" (quanto mais humana, mais encarnada, mais divina), acessada por meio da "quenosis", da "encarnação": além da superação do conflito subjacente à teologia teísta, essa peculiar reflexão protestante assume a vida humana como a vida "em Deus" possível e adequada ao cristão moderno.

7. A exegese histórico-crítica, ferramenta humana e moderna, constitui a chave de acesso à "Palavra de Deus", já que essa "Palavra de Deus" faz-se idêntica à palavra humana, tendo assumido também essa forma histórica - é o raciocínio de Simian-Yofre. A moral, a ética, expressão civilizatória humana, constitui a chave para a expressão da "vida em Deus" possível ao homem moderno. Na prática, a exegese de Simian-Yofre e a moralidade de Harnack torna plenamente dispensáveis até o "mito" da "Palavra de Deus" e da "vida em Deus", na medida em que elegem a dimensão humana como sendo aquela única possível ao homem moderno - o humano, isso é o divino possível...

8. No entanto, seu argumento é, ainda, teológico, porque ainda estão expressando o valor, seja da "palavra humana", seja da "vida humana", com base no valor que ambas adquirem pelo fato de constituirem, enquanto expressões humanas, também a expressão do divino. Há, certamente, um esforço de superar a dicotomia disjuntiva - a separação insuperável -, própria da teologia "sacerdotal", isto é, metafísica e ontológica, presente no discurso da relação entre "palavra humana" (texto) e "Palavra de Deus" (revelação), entre "vida humana" e "vida em Deus", esforço esse distendido na direção de trazer para baixo - quenosis - a dimensão superior da teologia.

9. Permitam-me arriscar-me a dizer que se trata, ainda, mas nos seus próprios termos e geografias, de operação comparável à de Lévinas, de "trazer" para baixo o "Outro", tornando-o manifesto na "face do outro", conquanto esse "outro", que olho, interessa-me na medida em que é o espelho do "Outro" - o "sentido" do outro, o atrator no outro, não é o "outro" em si, mas o "Outro" que posso ver nele. Talvez se trate, no entanto, apenas de retórica. Talvez Harnack e Simian-Yofre estejam selecionando argumentos que sejam válidos para uma "platéia" cristã, e que, eventualmente, precise de "acreditar", ainda, que há alguma coisa de "divino" (no sentido do "velho" conceito) no humano, e que o valor desse humano é que é assim que ele é divino: ou seja, se a platéia só tem olhos para um divino, fazer do humano esse divino é uma estratégia de adestrar a consciência dessa platéia a dedicar-se àquele humano, ainda que assim o faço por força de creditar a esse humano um status de sacramento. Feuerbach foi - e voltou.

10. O que fica de irrecusável, em Harnack, é a sua declaração de que não há educação possível que não seja constituída de história e moralidade. Todo o "tu deves" da piedade constitui um "tu deves" humano, histórico e moral. A educação, toda, mesmo a "mística" (não se vê os modernos congressos de espiritualidade? Ao final, as pessoas continuarão humanas, com atitudes e comportamentos absolutamente humanos, por mais excêntricos, esdrúxulos e esquizofrênicos que sejam - é o "congressista" quem dirá, e a "platéia" há de crer, que se trata, aí, de "piedade" não-humana, chancelada por Deus e tudo), nada mais é do que prática humana confeitada de retórica teológica. Mesmo o sentimento, a emoção...

11. Penso que ainda não é o suficiente. O caminho é esse, mas não pára aí. No ponto em que ele se encontra, uma plataforma quase-mas-não-ainda-feuerbachiana, o argumento quenósico deveria ser transformado em argumento científico-humanista feuerbachiano: não há nenhuma possibilidade (nem a doutrina da revelação [Barth é um prestidigitador, mas exige uma platéia atormentada], nem a prática da mística, nem o rito, nem o mito, nem os mistérios, nem o esoterismo) de o homem fugir à sua condição humana, e mesmo as "religiões", todas, até a "nossa", disso não passa. Depois desse banho de água fria, muito, muito fria, o espírito humano poderia retornar à sua relação com os mitos, livre, contudo, do poder de os mitos fazerem-se passar por conhecimento mais confiável do que o bom senso.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.
2. Horácio SIMIAN-YOFRE (coord.), Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000, p. 20.
3. Idem, p. 20.
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