Mostrando postagens com marcador virada hermenêutica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador virada hermenêutica. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de maio de 2009

(2009/289) Tornando-me imprestável


1. Cito um parágrafo e algumas declarações avulsas de Claude Geffré, Crer e Interpretar - a virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004.

1.1 "A teologia é exatamente um discurso que tem por objeto um discurso sobre Deus, mas evidentemente ela não deve praticar um completo 'colocar entre parênteses' a questão de Deus, o que é o caso hoje de muitas filosofias da religião, filosofias anglo-saxônicas em particular. A teologia vai justamente levantar a questão da relação do teólogo hermeneuta com seu texto, mas segundo o horizonte da questão de Deus. Este horizonte da questão de Deus ele o recebe da revelação. Por conseguinte, a hermenêutica como hermenêutica dos textos fundadores do cristianismo é uma hermenêutica que se refere, de um lado, à positividade de uma revelação e, de outro, à intecionalidade da fé do sujeito que crê" (p. 33-34).

1.2 "Isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma" (p. 35).

1.3 "Como sublinha Gadamer, é porque me inscrevo na mesma tradição que suscitou o texto, que posso tentar compreendê-lo" (p. 36).

1.4 Ou seja: teologia é discurso sobre discursos, mas com um olho na missa e outro no padre, e o pade, aí, é a "questão de Deus". Isso que é a "questão de Deus", não se trata de um problema epistemológico, de recorte kantiano, uma problematização crítica, uma investigação - heurística - das possibilidades de tal coisa. Não! Trata-se já da assim assumida "informação" que advém da "revelação" - sim, você leu isso: "revelação", que tem um caráter "positivo", isto é, nesse sentido, independe da "subjetividade" da fé (a subjetividade dissolve revelação, sabia-o Barth), ainda que, dado o modo criativo com que Geffré tenta as contas de acomodação dos dois mundos, o medieval, e o moderno, se explicite "na intencionalidade da fé do sujeito que crê". Mas não se engane o leitor, porque "isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma", dogma esse a que estamos vinculados por força de nosso vínculo inexorável e exclusivo com a nossa gadameriana linguagem e tradição.

2. Muito interessante - é como o artigo de Müeller: quando você o observa assim por alto, parece que promte, mas, quando entra dentro dele, e o lê "sintaticamente", descobre - e é tarde - que se trata da mesma teologia de sempre, mas com um novo projeto de "legitimação". Quanto a Müeller, penso que já o demonstrei - a despeito da crítica de Zabatiero, que é quem deve a demonstração de seu argumento. Quanto a Geffré que, não por acaso, Müeller cita, tenho algumas observações.

3. Eu assmiria, para início de uma conversa a respeito da definição adequadamente acadêmica de Teologia, para a postulação crítica de seu estatuto epistemológico no MEC, a definição que Geffré faz que vai usar. Nos meus termos: Teologia é o estudo dos discursos sobre Deus - isso com todas as implicações históricas e científico-humanistas, sem "janelas" para escamoteações dogmático-normativas. Sim, janelas sub-reptícias, como as que Geffré deixa abertas, tanto para, por elas, fazer entrar coisas e fazer saírem coisas.

4. O que entra - o velho dogma, o velho "modo" das doutrinas, o velho modelo platônico-dedutivo-positivo, as velhas "verdades" - e com o displante, o não-constrangimento (é o problema dos teólogos, só se dirigem a teólogos e ovelhas, e tomam-nos por si mesmos!) de a isso chamar "revelação". Bem, ao menos Geffré tem em sua defesa sua "tradição" romana... Primeiro, Geffré diz que essa Teologia que é discurso sobre discurso (até ai, compreensível) não vai pôr a questão de Deus entre parêntesis - pelo contrário, o teólogo vai se informar quanto a isso na revelação, na "positividade" - mas isso é Barth! - da revelação, que ele melhor define com a expressão "isto não quer dizer que o modelo hermenêutico vai distanciar-se completamente em relação ao dogma", ou seja, revelação, positividade da revelação e dogma é tudo a mesma coisa.

5. Ora, se a revelação fosse alguma coisa aberta, mística negativa, em estilo eckhartiano, que diferença faria? Seria engraçado observar um teólogo sentindo a necessidade (psicológica? [Freud]) da mautenção do "discurso" místico-eckhartiano, mas isso em nada interferiria, concretamente, na "pesquisa". Todavia, ah, senhores e senhoras, essa revelação, não se enganem, é o "dogma", a "doutrina", as "palavras mágicas", "de ordem", palavras "cosmogônicas" - a positividade da expressão da fé, que Müeller há de chamar pelo duplo termo "depósito da fé" e "teologia clássica".

6. Não é muito diferente disso aquilo e que se tem transformado uma "teo-poética" desenvolvida por teólogos e teólogas - "comparar" o que os autores desse ou daquele romance falam sobre Deus com o que a "revelação" fala sobre Deus. O primeiro momento dessa empreitada, se decentemente elaborado - mas há controvérsias, dado o grau de comprometimento ideológico do conjunto -, seria relevante (os estudantes de Física da UERJ andaram praticando-o em relação aos teólgoos/físicos dos séculos XVII e XVIII, para apreender-lhes os preconceitos teológicos, e, assim, construírem um quadro de referência para o entendimento da Física que eles elaboraram a partir de suas respectivas cosmovisões). No entanto, a segunda parte do programa serve para quê?, senão para a manutenção do "critério" normativo, disfarçado em, hum, "discurso"? Que satisfações, seja Guimarães Rosa, seja, eu, têm-se a dar às Escrituras e à Igreja? O "mal" não é o que a Igreja diz que ele é - o que a Igreja diz que ele é é, apenas, o que ela diz que ele é, mais nada.

7. A "virada hermenêutica", essa aí, é, a meu ver, apenas uma coisa: uma apologia da manutenão dos termos, das doutrinas, das estruturas, dos discursos da tradição - da velha Teologia barroca. Não é à toa que Gadamer será citado - sempre será citado! Mas o que Geffré diz não tem o menor fundamento: "como sublinha Gadamer, é porque me inscrevo na mesma tradição que suscitou o texto, que posso tentar compreendê-lo". Nada mais falso. Não é porque estou inserido na tradição da linguagem cristã - meu Deus, Geffré transformou "linguagem" em cosmovisão e tradição! - que eu posso compreender os "textos fundadores do cristianismo".

8. Ora, eu posso compreender quaisquer textos e tradições do planeta: dos malaios, das miríades de etnias africanas, esquimós, da Terra do Fogo, dos hindus e dos gregos, das ilhas Trobriand. Posso compreender quaisquer textos e tradições - sem exceção - dos cinco continentes: América, África, Ásia, Europa e Oceania. Se você achar textos da Ilha de Páscoa, me dá que os interpreto. Deus do céu - não é a inserção de um homem em uma cultura específica que o faz compreender essa cultura - é seu potencial genético-biológico-cultural de inserão em culturas que lhe dá a versatilidade de criar e de entender-se com qualquer cultura e linguagem - a sua ou a de qualquer outro ser humano. Até a linguagem dos animais vamos compreendendo! O que é potência e faculdade aberta, Geffré (Gadamer?) transforma em prisão e trilho. A "virada hermenêutica" dessa Teologia é o retorno ao cativeiro babilônico da Idade Média, senhores, senhoras... mas com o colorido da maedia... A virada antropológica fora alforria, essa aí, capitão-do-mato! Solipsismo platônico-evangélico, coisas daquele ranço de dizer que apenas homens regenerados qualquer coisa assim...

9. A cada argumento, vê-se o que está em jogo: manter Deus à vista, manter a "doutrina" à mão. Para quê? Se o que Geffré chama de "virada hermenêutica" tem sua base na "virada antropológica" do século XIX, em nome de quê, Deus do céu (eu sei o nome...)!, mantêm-se, aí, a impossibilidade antropológica da "revelação", a materialidade político-institucional do "dogma", a ideologia político-psicológica da "fé"? Qui prodest? É pesquisa o nome diso?

10. E, aí, chegamos ao constrangimento de ter que dizer o seguinte: para o MEC, isso é piada. Não duvidaria que a política chegasse a permitir que uma coisa assim invadisse o MEC: os jogos de interesse, as contas de chegada, explicariam uma desgraça dessas. Ah, ouvir da boca de um "pesquisador" que essa observação assim e assim diverge da "revelação"... O que se ouviriam, depois? Um silêncio sepulcral, por causa do constrangimento irreprimível dos pares, ou uma sonora gargalhada, inexorável? E o pior é que o "teólogo" ainda acharia um modo de choramingar com Deus a insensibilidade "teológica" dos colegas...

11. Por outro lado, ainda, fora do MEC - e aí piso mais devagar: imaginar a necessidade de um discurso desses para a manutenção da "teologia" na Igreja é sintomático - a que neurose, Freud, está ligada a necessidade de uma apologia capenga, se bastaria a fé simples e fundamentalista dos milênios cristãos? A gentre descobre a hermenêutica, sabe o que isso sginfiica, e, contudo, fala de "positividade da revelação"... Ah, entendo, para uma nova mentalidade, uma nova configuração da neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio