Mostrando postagens com marcador arqueologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arqueologia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

(2010/124) Considerações hermenêuticas sobre cavernas e crânios de ursos


1. Seja lida a oração: "como esses depósitos (de crânios e ossos largos de ursos em carvenas dos Alpes, datados do período interglaciário) pareciam intencionais, os cientistas se dedicaram a desvendar-lhes o significado" (Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas, Zahar, 2010, p. 26). Quero chamar a sua atenção para a relação entre os termos "intencionais" e "significado" - os cientistas decidiram desvendar o significado dos depósitos de crânios e ossos largos de ursos em cavernas dos Alpes, datadas do último período interglaciário, porque tais depósitos pareciam intencionais.

2. No início do século XX, inúmeros achados de crânios de ursos, acomodados em nichos naturais de cavernas alpinas, tudo indica, intencionalmente, acompanhados de ossos largos posicionados na direção leste-oeste, suscitaram a pergunta pelo significado de tais depósitos. Ora, nada mais natural, porque, se os ossos estivessem simplesmente espalhados, dando a impressão de tratar-se de restos de mortes naturais ou acidentais de ursos, deixados ali, ao sabor da sorte e do tempo, ninguém precisaria incomodar-se em perguntar pelo "sigificado" da posição desses ossos, porque não haveria significado algum. Só há significado na intencionalidade.

3. Claro que ossos "naturalmente dispostos" também representam "informações" arqueológico-paleontlógicas, mas são informações mais ou menos do mesmo tipo que as camadas distintas em uma pedra pomes: nem o vulcão "decidiu" unir diferentes tipos de magma numa única pedra, nem os ursos "planejaram" deixar os ossos, próprios ou de terceiros, desse ou daquele jeito - simlesmente, aconteceu. Não há intencionalidade nas coisas naturais. Somente nas humanas (deixando aqui de lado a questão complexa de certos comportamentos animais que, contudo, representariam desvio no conceito de "natural" que eu aqui manejo). Logo, para os limites aqui impostos, só há significado nas ações intencionais humanas.

4. Eu quero saltar entre disciplinas. Deixo as ossadas de Eliade em suas cavernas primitivas. Quero pinçar daí o tema da intencionalidade como condição de sentido/significado. Quero, então, trazer essa questão para o campo de pesquisa dos textos antigos. Não há texto que não tenha sido produzido por um ato intencional humano. Todos, do mais simples, da óstraca mais banal, ao mais complexo, do mito cosmogônico mais sofisticado, todos, foram produzidos intencionalmente. E - atenção! - o significado está preso àquela intenção original. O sigfiicado da óstraca ou do mito cosogônico são - única e exclusivamente - aquele pretendido por quem os produziu.

5. Alternativamente, alguém pode descolar intenção e significado. Que seja. O que faz? Ele toma o texto, mas joga fora a intenção original. O que ele tem? Bem, agora, ele tem u'a massa de modelar nas mãos, um punhado de argila maleável. O que ele faz? Modela a massa, emprega as mãos e dá, à massa, a forma que ele quer - em outras palavras: aplica sua própria intenção à massa, ou, para sair da metáfora, emprega sua própria intenção ao texto, e faz o texto dizer o que ele quer. O nome disso é alegoria.

6. A alegoria tem servido à religião e à política. É, contudo, um desastre, um transtorno, uma desgraça, para a ciência. No campo religioso, a alegoria - atenção! - importa no seguinte: o oráculo passa a ser o intérprete, porque é ele que dá sentido ao texto. Todo leitor que se sirva da alegoria para produzir sentido reigioso faz-se de "demiurgo". Em termos históricos, a alegoria é fraudulenta. Em termos éticos, é uma farsa. A alegoria só me parece justificável no campo da estética - e em mais lugar nenhum...

7. A leitura histórico-crítica é como a paleontologia, como a arqueologia, como a história. Às favas as abordagens pós-modernas e metafóricas: aplicadas ao texto, é como se pudéssemos, por exemplo, dizer que foi a Cachinhos de Ouro quem organizou os ossinhos dos seus amigos ursos nas cavernas alpinas... Não? A alegoria é minha, o achado é meu, faço com eles o que eu quiser... Parece arrogância?, petulâcia? Mas é a isso que se resumem interpretações político-teológicas das Escrituras: para além do risível, manda quem pode, obedece quem é desinformado... E disso já sabia o moleiro de Ginzburg há quinhentos anos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/120) Sepultamento com motivo mágico-religioso


1. A imagem corresponde ao achado arqueológico/paleontológico de 1938, numa caverna em Teshik Tash, Urbesquistão, divulgado em jornal russo em 1939 por seu descobridor, Aleksej P. Okladinikoff - "The Mousterian site in the cave of Teshik-Tash in Uzbekistan"., e publicado em 1940 - Les recherches de la grotte paleolithique Techik-Tach. Mircea Eliade descreve o achado como o sepultamento de "uma criança rodeada por uma guarnição de chifres de cabritos monteses", o que interpreta como um "entre os melhores exemplos de supultura com sentido mágico religioso" (Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas I. Zahar, 2010, p. 21).

2. Okladinikoff data o sítio no período musteriano - cerca de 70.000 a 50.000 anos. Discutiu-se a intencionalidade ou não intencionalidade dos arranjos de chifres em torno do esqueleto do que, agora, mas não desde o início do achado, considera-se ter sido uma menina, com prováveis 142 cm de altura. Okladinikoff - e Mircea Eliade - consideram tratar-se de depósito intencional, caracterizando-se sepultamento com caráter "religioso", o que traduziria alguma forma de crença na "vida" pós-morte. A criança de Teshik Tash talvez fosse neandertal, mas não é de todo certo (cf. aqui e aqui).

3. Tão cedo quanto - pelo menos - o musteriano, represenantes da primitiva espécie "humana" já se deixavam "assombrar" pela morte, e desenvolveram crenças a respeito da sobrevivência - da "alma"?, do "duplo"? Pelo que devemos nos perguntar: a) se a crença na vida aós a morte constitui uma "neurose" de fundo psicológico, o que significa a sua manifestação tão cedo - 50 ou 70 mil anos atrás - e sua permanência até hoje?; b) se não considerarmos a hipótese de encarar a crença na vida após a morte como uma fantasia psicológica da espécie humana, já manifestada em seus ancestrais biológicos mais próximos, como interpretá-la então?




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

(2010/102) Roma eterna - aqueduto de 2.000 anos


1. Arqueólogos encontraram a câmara coletora de aqueduto romano construído por Trajano no início do século II. Tanto a câmara quanto os 4o km do túnel de coleta estão muito bem conservados. Serão restaurados e abertos à visitação pública.




Uma equipe de arqueólogos localizou a fonte de um aqueduto romano construído pelo imperador Trajano há quase 2 mil anos. As câmaras coletoras estavam sob uma igreja a noroeste de Roma. O aqueduto, com cerca de 40 km de extensão, foi inaugurado no ano 109 e era um dos onze que abasteciam Roma - uma cidade que crescia rapidamente e tinha um milhão de habitantes.


2. Mais modesto, mas, em compensação, quase mil anos mais antigo, é o "túnel de Ezequias", escavado em Jerusalém, por volta do ano 701, como parte dos preparativos do rei Ezequias para a guerra contra os Assírios, que já he batia à porta - literalmente. Com 503 metros, não era lá exatamente um megaprojeto - mas, para a época, e para as condições sócio-econômicas e culturais de Jerusalém, é, de fato, um feito notável.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio