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sábado, 27 de novembro de 2010

(2010/593) Artigo de Haroldo Reimer e minha tese - não foi "combinado"

1. Eu sou um péssimo propagandista de mim mesmo. Digo para Bel que, se o pão que lhe devo cotidiano dependesse de eu me tornar caixeiro viajante, comeríamos areia. No campo da divulgação de meus trabalhos, some-se a isso uma exaustão tão grande na fase de produção, que me sinto "entendiado" por um longo tempo a respeito do trabalho em si. Se me surge oportunidade de falar, falo de outra coisa, escrevo outros trabalhos, como que para me purgar de um grande esforço, um sacrifício, quanto ao que o corpo permanece por um bom tempo ressentido.

2. Dois exemplos: escrevi minha dissertação sobre Nehushtan e, mais recentemente, minha tese sobre Gn 1,1-3. É prática muito comum que os congressos sejam visitados por apresentações tópicas de mesas no estilo "o estado da pesquisa que estou fazendo", ou, ainda, "o resultado da pesquisa que eu fiz". Eu tenho dificuldades psicológicas de o fazer, e acabao falando em congressos, sim, mas tratando de temas tangenciais apenas aos meus trabalhos centrais. Além disso, aqueles dois trabalhos desconstroem tão profundamente a tradição baseada nos textos trabalhados, que uma apresentação de dez minutos em congressos não é suficiente para explicação e defesa da posição. De modo que, fora resumos aqui e ali, pouca reverberação dei àquelas duas pesquisas. Em 2011, tratarei de providenciar sua publicação.

3. Tenho um artigo esperando para ser publicado em Pistis & Praxis, que sairá no próximo número, em que proponho uma nova classificação para a Teologia (vamos ver como será a sua recepção). Assim, em intervalos de trabalho, consulto o site da revista. Acabei de fazer isso. E acabei encontrando um artigo de meu amigo Haroldo Reimer, Criação e Cuidado. Li-o. E, para minha surpresa, meu amigo considerou bastante minha tese de doutorado como fundamento de grande parte de seu texto. Chegou a transcrever citados, e eu tive uma sensação muito prazerosa de "me" ver na citação - é fácil identificar-me em meu estilo, recheado de orações assindéticas breves e longos períodos subordinativos.

4. Fiquei feliz. Meu sempre mestre Haroldo Reimer foi meu orientador em Nehushtan e particupou de minha banca de doutorado. Ver que meu sempre mestre acatou minha tese, ainda que, sempre, prudentemente, no campo das hipóteses possíveis - e esse é o "modo" haroldiano de ser - é um atestado de trabalho bem feito.

5. Que prazer, meu amigo. Obrigado. E agradeço tanto mais quanto sei que não se trata de uma bajulação sua, muito menos, informo aos leitores, uma "dobradinha" combinada - nem você nem eu temos o hábito de levantar a bola um para o outro cortar, conquanto tenhamos trabalhado muito juntos nesses últimos anos. O que não faz com que concordemos imediatamente em tudo - o que faz com qe a sua fundamentação em meu trabalho de tese se revista de um valor ainda maior: arrancar de meu mestre uma concordância - e pública - é o maior elogio que meu trabalho já recebeu até hoje (sem considerar, claro, os que Bel me faz amiúde...).


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

(2010/030) Ah, a maravilhosa Criação!...


1. Ah, a velha Teologia política. Jimmy está às voltas com Teologia política, mas, cá entre nós, Jimmy, até hoje, que Teologia não foi - essencialmente [e unicamente?] - política? Toda ela, desde Platão, inventor do termo, até Paulo, Agostinho e Lutero (salvador do cristianismo, aos olhos de Nietzsche), não foi performativa? Não estava ela a serviço, hum, vá lá, da construção de "um mundo melhor"? No transcurso de seu desenvolvimento, algumas porções da massa crítica teológica acharam por bem traçar alguns mitologemas para, por meio deles, melhor alcançar seus objetivos últimos - todos eles, sempre, políticos...

2. Um deles, que culminou na contemporaneamente desgastada teologia do "Homem" como a "coroa" da criação - metáfora tanto teológica quanto política, e, enquanto política, hierárquica! - vai-se revelando, a cada dia, um embuste... A Mãe Natureza, perfeita e bela, é como todos nós - quando olhados à distância segura. Basta que a gente se aproxime, ganhe intimidade, para perceber que a perfeição era um efeito ótico, uma ilusão da distância.

3. Outro dia, falamos das vespas-jóias, que, durante milhões de anos, desenvolveram substâncias químicas e modos de usá-las que fazem da barata um zumbi, um depósito vivo de ovos. É como se nós humanos, em lugar de termos nossos filhotes em hospitais, os depositássemos dentro de vacas para as irem comendo, vivas, enquanto eles vão crescendo... Não há nada de "imoral" no caso das vespas, porque não há nenhum laivo de moralidade na Natureza. Ela é a-moral.

4. Um outro exemplo hoje choca pela acintosidade da coisa em si: gaivotas comem baleias vivas... Eu nunca ia imaginar um negócio desses, mas as cenas são irrefutáveis. A reportagem é da BBC Brasil.




5. Concluo que a Teologia precisa encarar a realidade tal qual ela é. Isso daria a ela condições de pensar sua transformação em ciência. Enquanto a Teologia fantasiar a realidade, seja a do passado, a do presente, a do futuro, recobrindo-as com mitos - seja lá quais forem - não estará pronta para enfrentar o desafio moderno. Vale o mesmo para os teólogos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

(2009/554) Quando Deus fez o homem


1. Quando Deus fez os homens, o primeiro e todos os segundos e terceiros da longa série da geologia antropológica que ele fez e criou, fazendo-nos todos os homens como nos fez, homens assim, dese jeito assim, naquele dia, obra de suas mãos, obra de artista exímio, de escultor de dentes postiços, que os faz, de tão perfeitos, com defeitos, deus criador de criaturas criadoras, ele nos olhou bem dentro de nós, nós, os homens que ele fez, ele olhou para nós, para dentro de nós, ele olhou e viu... e como sinto esse olhar perscrutador até dentro dos ossos!...

2. E, quando viu, viu que seríamos deicidas, porque logo descobriríamos as ciências, que ele, enquanto criador de criaturas barulhentas, criava criadores da solidão e do silêncio tumulares. Viu-nos nus, por dentro, e soube que o mataríamos em breve...

3. E nos amou de tal modo que nos fez uma mulher, uma para cada um, se não somos cruéis e déspostas, e as fez primorosas e deliciosamente esculturadas, e nos deu a sorte de perambularmos pelas savanas, e darmos de cara com seus corpos e suas almas. Nessa ordem.

4. E ele disse, naquele dia. Pronto. Quando me matarem, as minhas criaturas, estará tudo bem, porque ter-lhes-ei dado um pedaço de mim, u'a mulher a que amarem, a quem entregarem a dor de sua tragédia.

5. E foi assim a manhã e a noite que interessam. As outras, a memória há de apagar.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 16 de maio de 2009

(2009/264) Era Deus sádico?


1. Não sei se foi Deus quem decidiu criar essa vespa, ou se foi a evolução quem trouxe à luz esse pequeno monstro. Vou dormir e não vou pensar mais nisso hoje, não - se é que vou ter bons sonhos, depois de ter visto esses vídeos. Falo da "jewel wasp", ou "vespa-jóia" (Ampulex compressa) cujo nome deriva da cor brilhante que ela tem, e que é uma mistura de gerente de "boca" com cientista nazi-calvinista... Coitada, mas ela não tem culpa nenhuma, ela nem sabe que é o que é... É uma vespa parasitóide, vive parasitando outros oganismos, mas não sabe disso. Apenas faz. Nem pode deixar de fazer.

2. A vespa faz asim. Ela ataca uma barata comum (Periplaneta americana), dessas que há em sua casa. Vira a barata de barriga para cima e a paralisa com toxina. Quando a barata pára de de debater, ela volta, dá outra ferroada nela, mas, dessa vez, na cabeça. Procura com o ferrão a parte certa da cabeça e injeta um coquetel de toxinas - dopaminas!

3. A vespa se afasta. Por cerca de meia hora, a barata vai ficar ali, se limpando, enquanto a dopamina faz efeito. Então, quando a "droga" está a todo vapor, a vespa se aproxima, agarra a antena da barata e a vai levando, como quem guia um velho, até sua toca. A barata não corre. Vai. Está como um "zumbi". As dopaminas fizeram alguma coisa com a cabeça da barata. Ela está agora como Percy Wetmore, o guarda da prisão em À Espera de um Milagre, depois que John Coffey lhe deu o beijo da vespa...

4. Agora na toca, a vespa põe um ovo no corpo da barata. Depois, vai entulhando a porta da toca com qualquer coisa que encontrar. E vai embora. A barata vai ficar ali, paradinha. Dentro de oito dias, o ovo da vespa terá eclodido em larva, a larva terá devorado a barata viva, por dentro, e se transformado em vespa, para fazer o mesmo com a próxima barata da fila...




5. Agora me responda: Deus planejou em detalhes esse show de sadismo, ou a vespa descobriu isso sozinha? Mas - meu Deus! - como foi que a vespa, um dia, aprendeu a traficar droga para o corpo da barata, a torná-la um zumbi e a levá-la para casa, almoço e janta para a próxima ninhada? Uma evolução a-moral eu até compreendo, mas um Deus moral a fazer uma coisa assim, isso me deixa aturdido... Se bem que há japoneses que comem lagostas vivas, abertas vivas sobre a mesa do restaurante: e esses sabem bem o que estão fazendo... Hum, e também há o foie gras europeu... Será se o homem evoluiu mesmo de um tronco ancestral dos primatas? Não terá sido da Ampulex compressa?

6. Pensar a criação observando andorinhas e gatos é bem interessante. Pensar a criação assistindo a "zombie cockroach" chega a dar indigestão (alguém me disse: "náusea"...). Talvez não para um calvinista, é claro... Até ouço Paulo a perguntar-me quem sou, que interrogo o Criador...

7. Aí, um bom teólogo "clássico" há de sacar os alfarrábios e decidir a questão: foi o pecado de Adão, Osvaldo, que fez a vespa... Ah, tá...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. aqui tem mais uma historinha muito boa sobre vespas parasitóides, dessa vez trabalhando "em conjunto" com as plantas atacadas por pulgões...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

(2009/257) "Os filhos de Adão"


1. Eu estou cercando "Adão" - o de Gn 1,26-31 - por todos os lados. Mais à frente, meu objetivo é saltar em sua jugular. É capturá-lo. Então, penso, vou poder "desmarcarar" a falsa identidade com que esse "Adão" tem freqüentado os salões da Exegese e da Teologia. Da direita e da esquerda. Quero demonstrar que, já ali, desde o momento em que o termo "Adão" foi escrito, já se tratava, como até hoje, do "rei" de Jerusalém. Chego a pensar tratar-se, até, de Zorobabel...

2. Mas ainda não saltarei. Ainda vou treinar alguns golpes. Digamos que com "Pai Mei" eu tenha treinado os primeiros e mais relevantes golpes - eles estão descritos em minha Tese. Agora, há que se desenvolver outras técnicas, como essa, essa e essa. No momento, acabo de treinar um certo golpe: buscar a identidade do grupo social que a Bíblia Hebraica trata como "bene 'adam" - "os filhos de Adão".

3. Para quem quer se divertir um pouco, fique à vontade. Naturalmente que se há de ter percebido que tudo acima constitui uma metáfora para dizer que estou empenhado resolutamente em demonstrar que, em termos exegéticos histórico-sociais, a meu ver, a leitura tradicional de Gn 1,1-2,4a está irrecuperavelmente equivocada. Nem ali se trata da "criação" em sentido teológico-filosófico, mas apenas da construção da Judá/Jerusalém, nem ali se trata da "humanidade", mas do rei de Jerusalém. É que não dá pra beijar a Bel o dia todo - e quando ela se cansa, então, faço pesquisa...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 10 de maio de 2009

(2009/255) Minha Tese de Doutorado


1. Uma vez que parte de meu doutorado foi financiado pelo CNPq, é dever do pesquisador e da instituição de ensino, no caso, a PUC-Rio, permitir o acesso público ao relatório final da pesquisa . Faço-o com alegria, intensa alegria. O endereço eletrônico para o índice da tese está aqui. Basta clicar, escolher a seção, abrir e ler. Se for julgado merecedor de tanto, agradeceria observações.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 28 de abril de 2009

(2009/230) Oba, saiu meu artigo sobre o Sl 89!


1. Osvaldo Luiz Ribeiro, Sl 89 - crise e quebra dinástica como anti-cosmogonia, Oracula, ano 5, n. 9, 2009, disponível em http://www.oracula.com.br/numeros/012009/ribeiro.pdf. Boa leitura e, em sendo possível, agradeceria toda sorte de comentários.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

(2009/164) Cosmogonia bíblica aos nossos olhos


1. Minha tese de doutorado defendeu que a concepção que temos da "Criação" está contaminada pela "lente" da filosofia helênica tardia, e que, por conta disso, não conseguimos, salvo se submetermo-nos à crítica histórico-social da tradição, enxergar como os próprios habitantes do mundo próximo oriental enxegavam o mundo e, sendo assim, concebiam suas mitologias de criação.

2. Primeiro de tudo: os conceitos de criação próximo-orientais eram reduzidos às cidades sob as quais os respectivos deuses e reis governavam. Os deuses do Egito criram o Egito, os da Babilônia, a Babilônia, os da Assíria, a Assíria, os da Pérsia, a Pérsia, os de Mari, Mari (até aí, os teólogos vão bem), os de Israel, Israel, os de Judá, Judá (aí é que os teólogos param, mesmo um excelente, como Walter Brueggemann, mas não só ele).

3. Em 1986, Magnus Ottossom já o havia dito com relação a Gn 2-3, e eu o disse, agora, em relação a Gn 1,1-2,4a - a criação, ali, é, apenas e tão-somente, a criação de Judá. Em termos exegéticos, trata-se de uma constatação provavelmente inequívoca, arrisco dizer, a considerar o material exegético disponível na própria Bíblia Hebraica. O problema é conseguirmos "ver" esse conceito com os olhos astrofísicos-metafísicos que ganhamos da tradição helênico-ocidental. Como é que eles conseguiam imaginar a criação como sendo, apenas, seu próprio território, sua gente e seu rei, a sua terra, como sendo um prato?

4. Pois bem, acabei de descobrir um modo de a gente conseguir visualizar o conceito próximo-oriental através de nossa lente planetária - com a qual eles não trabalhavam, já que imaginavam o mundo como um "prato", flutuando, sustentado por colunas, sobre águas cosmogônicas abissais.

5. Deu na BBC - Brasil: Alexandre Duret-Lutz, engenheiro em informática e professor da Escola de Engenheiros em Informática em Paris, criou uma técnica de transformar em "planetas" imagens fotográficas de todo o ambiente à volta do fotógrafo: "para criar imagens de 360 por 180 graus, é preciso tirar fotos em todas as direções, incluindo o céu e o solo, para poder reconstruir a esfera". É fantástico o efeito visual - olhando para cada fotografia, pode-se fazer-de-conta que assim era a concepção cosmogônica próximo-oriental, sob a condição de ser imaginada sob a nossa ótica cosmo-planetária. Está bem, é uma brincadeira, mas não deixa de ser instrutiva...

6. Se você quer ver em tamanho grande as fotografias trabalhadas por Duret-Lutz, vá ao Oráculo, digite o nome "Duret-Lutz", peça para o oráculo revelá-lo apenas imagens grandes e, então, prepare-se para uma extraordinária experiência estético-heurística. Adianto alguns endereços em que há imagens disponíveis: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui (as imagens são maiores do que a tela de seu PC). Essas são as maiores que encontrei (e salvei-as, caso desapareçam da rede), mas há outras, centenas, de dimensões menores.

7. Quando estiver olhando as fotografias digitalmente trabalhadas e imaginando como é que os antigos, mesmo os escritores da Bíblia, conseguiam conceber a "criação" como uma cidade, seu povo e seu rei, sem nenhuma das categorias cosmológicas, astrofísicas, filosóficas e teológicas que caracterizam a nossa visão tanto moderna quanto religiosa, aproveite para um exercício de alteridade - pergunte-se como soaria não absolutamente estranho para eles imaginar que acreditamos que vivemos em uma bola de pedra, ferro, fogo e água que, por sua vez, flutua num mar de coisa nenhuma. Oh, sim, haveriam de nos ter por hereges...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 13 de março de 2009

(2009/083) Bizâncio e Gn 1,1-3 - quem diria!


1. Haroldo, olha que coisa sensacional achei no verbete Michel Balard e Alain Ducellier, Bizâncio e o Ocidente, em Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt, Dicionário Temático do Ocidente Medieval I, EDUSC, 2002, p. 119:

1.1 "Esta 'cegueira geográfica' dos bizantinos não se deve ao acaso, e sim à concepção romano-bizantina do poder imperial, encarnação terrestre do poder de Deus, que sacraliza não apenas o soberano, mas também a totalidade dos territórios e as pessoas que reconhecem sua supremacia. Deste modo, vistos do Império, os espaços exteriores, pagãos ou 'cristãos rebeldes', formam uma 'barbárie', que, para os antigos e ainda (...) no século VI, cerca o ecúmeno e são considerados inexistentes porque não reconhecem a autoridade de Constantinopla; eles nem mesmo podem ser descritos, pois ainda pertencem ao mundo do caos".

2. Deus do céu! É o não é, mutatis mutandis, minha Tese de Doutorado, mas, em lugar de falar de Judá, especificamente, e do Oriente Próximo, de modo geral, fala da Bizâncio "medieval"?

3. Anoto aspectos que, no detalhe, são equivalentes, aqui e lá:

3.1 O fato de que o ambiente sagrado, o território imperial, é chamado de "ecúmeno". Em minha Tese, chamei de "oikumene", usando o termo grego. O Dicionário cunhou um termo no vernáculo, "ecúmeno", que, a rigor, não passa de transliteração/tradução do termo grego que usei, e, nesse caso, inspirado por Magnum Ottossom. E vocês, a banca, me combraram uma tradução...

3.2 O fato de que esse espaço sagrado, a "criação", é constituído, ao mesmo tempo, por três elementos: o "rei", o "povo" e o "território", este, obviamente, fazendo-se constar com as devidas instalações.

3.3 O fato de que o que se estende para além desse "ecúmeno" é "caos".

4. Para fechar com perfeição a analogia Judá/Bizâncio, eu devo aprofundar as pesquisas e ver que papel a "água" ocupa na descrição mítica desse caos. Eu apostaria muitas fichas na seguinte hipótese: em Bizâncio, esse caos constitui a reserva criacional que, expulsa pela ordem da criação, mantém-se nas franjas desta, como ameça eterna de descriação possível, exatamente como em Judá, em Gn 1,1-3 e nas narrativas do dilúvio...

5. Pena que não achei esse texto durante minha Tese. E o mais irônico é que esse Dicionário, tenho-o há uns cinco ou seis anos, e somente agora fui "ler" - ler um dicionário! - para a prova que me espera. Antes tarde do que nunca! Mas aquele gol a que você se referia vai-se configurando a cada dia como um gol legalíssimo!



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

(2008/45) Sherlock Holmes - Carlo Gizburg disse que pode!

1. "Oi, bum, bum, bate coração, oi, bum, coração pode bater"! No momento, experimento brincar de Sherlock Holmes. E minha brincadeira já chegou à Alemanha!

2. Explico. Primeiro, o pano de fundo teórico-metodológico: em seu clássico artigo - "Sinais: raízes de um paradigma indiciário", Carlo Ginzburg defende a identidade teórico-metodológica entre a atividade de Sherlock Holmes e a medicina, a história e a investigação forense (e eu, rapidamente, acrescento: a exegese! [se histórico-social com viés fenomenológico, um refinamento da exegese histórico-crítica, mas, a rigor, ainda histórico-crítica]). Ele vai mais longe - todas essas atividades desenvolvem-se na dimensão das atividades venatórias, isto é, dos caçadores: habilidade e capacidade de "ler" os rastros da caça e do predador, arte e técnica que se confundem com a aurora da espécie humana. Adoro isso. Recentemente, Gizburg voltou à carga, escrevendo Relações de Força.

3. Agora, exponho a origem da brincadeira. À brinca? Não - à vera. Em minha Tese de Doutorado, depois de um relativamnte longo tempo absolutamente concentrado nas narrativas de "criação" da Bíblia Hebraica (lido com elas desde 2003), e, principalmente, depois de analisar longamente as ocorrências da raiz br' (de onde "sai" o verbo "bará", de Gn 1,1), concluí que o seu sentido - mesmo na Bíblia Hebraica - era, basicamente, "cortar/construir". Cada ocorrência dela se podia tratar, naturalmente, a partir desse "sema". Daí, inferi, indituvamente, que a raiz sofrera uma "evolução" cultural, que se podia esquematizar assim: "cortar - esculpir - construir - criar".

4. Um problema. Aliás, dois. Um: o conjunto (no que diz respeito ao que eu conheço) integral da literatura especializada, internacional, no século XX (inteiro?) dizia algo muito diferente. Na Bíblia Hebraica, há três raízes (homônimas) br'. A que se refere à "criação", cujo agente é apenas 'Elohim, não tem relação com a raiz br' que significa "cortar" (na Bíblia Hebraica, nesse caso, "só" as ocorrências de Piel). Dois: meu orientador disse que, à luz da literatura internacional, eu não poderia afirmar o que estava afirmando. Salvo se encontrasse base sólida para o dizer, e, assim, contestar a "tradição" (nesse caso, "tradição" já, na prática, "normativa"). Que desafio!

5. Muni-me de coragem. E fui investigar. Sherlock Holmes. Eu tinha, então, dois meses para apresentar a Tese. Estava frito! Como, em Mesquita, meu Deus, eu poderia encontrar bases para enfrentar cem anos de erudição, de erudita tradição? Decidi começar pelo óbvio - Gesenius. Comecei o trabalho de detetive. Descobri que Gesenius, no início do século XIX, nada "sabia" de três raízes. Para Gesenius, até a metade do século XIX, filologicamente, br' significava, primeiro, cortar, depois, esculpir, finalmente, por extensão metafórica, criar. Exatamente o que eu dizia. Descobri mais. Que desde 1755 se "sabia" disso - léxicos em latim, de Simonis, já afirmavam, filologicamente, exatamente o que Gesenius dirá na era de ouro da filologia clássica. Encontrei outros, do mesmo período (1750 - 1850). Unanimidade filológica, então.

6. Ora, mas o que aconteceu entre lá e cá? Bem, descobri que, a partir de 1850, uma reação conservadora ocorreu. Encontrei léxicos e dicionários reclamando de que "querem usar os árabes contra nós" (referindo-se às fundamentações filológicas de Gesenius e Simonis), a partir do que "corrigiam-se" os verbetes de br', ainda, contudo, constituídos por uma única raiz, afirmando que seu sentido era, primeiro, criar, e depois, cortar. Aí, "Deus" já ia se tornando o agente operador de br' como criar. As traduções, contudo, de Gesenius, até aí, permaneciam fiés ao original.

7. Finalmente, o que pode re-encenar a velha "fraude santa", aquela de Josias e Hilquias (mas ainda resta fechar a investigação para o dizer com segurança), o século XX abre a cena léxica veterotestamentária ostentando volumes e volumes de léxicos, dicionários e comentários com três verbetes para três raízes filologicamente distintas - br' I, br' II e br' III. Esse sistema fora "inventado" entre meados do século XIX e início do XX - quando?, por quem? O porquê era óbvio: preservar a leitura tradicional, teologicamente significativa, herdada pela "tradição", agora "ameaçada" pela intromissão da Filologia: Israel, a Igreja, são idiossincrasias, singularidades - blasfêmia compará-los a o que quer que seja (cf. o excelente artrigo de Walter Brueggemann, The Loss and Recovery of Creation in Old Testament Theology)! O século XX todo pôs-se a esse serviço. O auge do processo, o símbolo dele, são as "traduções" do léxico de Gesenius: no que diz respeito ao verbete br', nada do que Gesenius dissera se lê, agora, lá. A reação conservadora optou pela "Teologia", contra a Filologia.

8. Agora eu já tinha como afirmar o que eu, enquanto exegeta - não inventaria a roda (Simonis, parece, tem o mérito), mas a desentortaria! - via na Bíblia Hebraica, e isso apesar de "tão grande nuvem de testemunhas". Defendi a Tese. Fui aprovado. Ludovico Garmus brincou - "esse menino quer mudar nossos dicionários...". Sim, quero, sim.

9. Mas resta uma tarefa: quem foi, em nome de Deus, que pela primeira vez criou a estratégia de institucionalizar um significado "teológico" (confessional e tradicional, seja frisado!) para a raiz br', depois do trabalho filológico dos séculos XVIII e XIX? Não consegui descobrir. Minhas fontes não confessavam - e não ia submetê-las à tortura.

10. Mas estamos na era dos e-mails. Ousei mandar um para o Prof. Dr. Erhard S. Gestenberger, de Marburg. Mandei-lhe um longo artigo, com 18 fac-símiles de léxicos dos séculos XVIII, XIX e XX, em que denunciava a operação teológica aplicada à filologia de br'. Pedi-lhe que tentasse, por favor, encontrar o teólogo (a teóloga?) que "achou o livro da lei". Ele aceitou o desafio e está me ajudando. Já falou com a especialista em língua hebraica, de Marburg - mas ela não saberia especificamente nada a respeito, exceto um um artigo, de 1913. Falou com Rainer Kessler [mundo pequeno, não, Haroldo?] ("me falou, que na 3a edição do dicionário de Gesenius [1828; ele ainda estava vivo] este ainda tem só uma raiz para br'", ele disse), e os dois estão tentando seguir as traduções/edições de Gesenius, desde o século passado, para encontrar a primeira vez em que se criam as três raízes. O artigo de 1913 não tem nem na Biblioteca de Marburg ("o artigo de Boehl na Festschrift de R. Kittel em 1913", ele disse [F. Boehl, Bara als Terminus der Weltschoepfung im alttestamentlichen Sprachgebrauch. Festschrift R. Kittel, BWANT 13, 1913, 42-60]), mas que ele vai tentar localizar. Meu coração está acelerado! Não aceitou assinar o artigo comigo - disse que terá feito pouco, e se contentaria com a menção a seu trabalho em nota. Tê-lo-á!

11. Aguardem novos movimentos dessa partida, a meu juízo, sensacional. Marcel Dettiene, em Comparar o Incomparável, usa uma expressão para referir-se àqueles que podem, eventualmente, "ver" coisas, como que entre as folhagens: "para quem sabe prestar atenção". Gastei tanto tempo lendo as ocorrências de br' que acabei "prestando atenção" mesmo? Gerstenberger disse-me que o artigo parece ter razão, e que, de fato, a "tradição" de apresentar br' como três raízes atenderia, sim, a um projeto teológico de salvaguarda da especificidade da "fé" israelita - por tabela, "cristã" - em face de outros povos e tradições. Se ele achar, se de qualquer modo, eu acabar achando, por meio dele, por meio de alguma outra contribuição fundamental, quem, quando e em que publicação introziu-se essa, digo?, "fraude santa", terei confirmado a mim mesmo - a outros, igualmente? - que a "tradição" é uma dimensão ambígua da vida humana - ora é mão que afaga, ora é mar que afoga. Qui prodest?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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Atualização do post

12. Hoje, 14/11, o professor Gerstenberger me responde - quanta atenção! Cito-o: "Caro Osvaldo, hoje tentei de novo encontrar o "Festschrift fuer Rudolf Kittel", de 1913, com o artigo sobre br' escrito por F. Boehl (not Loehr, como pensei!). Depois de uma boa pesquisa na Biblioteca da Universidade de Giessen, de repente encontrei o livro no catálogo, mas infelizmente pertence a uma parte velha da antiga biblioteca teológica, que fica em outro prédio da universidade, e não na biblioteca moderna de Teologia. Que chato. Fui lá, mas eles me disseram que levaria três dias para tirar o livro dos "estoques velhos", e eu vou viajar já no próximo domingo! Então, só possp continuar a correria pelo livro antigo quando voltar dos Estados Unidos, Nov. 29. (...) Tudo de bom, shalom, Erhard".

13. Sim, sim - esperemos. Boa viagem, professor!
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