Mostrando postagens com marcador fotografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fotografia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de abril de 2009

(2009/164) Cosmogonia bíblica aos nossos olhos


1. Minha tese de doutorado defendeu que a concepção que temos da "Criação" está contaminada pela "lente" da filosofia helênica tardia, e que, por conta disso, não conseguimos, salvo se submetermo-nos à crítica histórico-social da tradição, enxergar como os próprios habitantes do mundo próximo oriental enxegavam o mundo e, sendo assim, concebiam suas mitologias de criação.

2. Primeiro de tudo: os conceitos de criação próximo-orientais eram reduzidos às cidades sob as quais os respectivos deuses e reis governavam. Os deuses do Egito criram o Egito, os da Babilônia, a Babilônia, os da Assíria, a Assíria, os da Pérsia, a Pérsia, os de Mari, Mari (até aí, os teólogos vão bem), os de Israel, Israel, os de Judá, Judá (aí é que os teólogos param, mesmo um excelente, como Walter Brueggemann, mas não só ele).

3. Em 1986, Magnus Ottossom já o havia dito com relação a Gn 2-3, e eu o disse, agora, em relação a Gn 1,1-2,4a - a criação, ali, é, apenas e tão-somente, a criação de Judá. Em termos exegéticos, trata-se de uma constatação provavelmente inequívoca, arrisco dizer, a considerar o material exegético disponível na própria Bíblia Hebraica. O problema é conseguirmos "ver" esse conceito com os olhos astrofísicos-metafísicos que ganhamos da tradição helênico-ocidental. Como é que eles conseguiam imaginar a criação como sendo, apenas, seu próprio território, sua gente e seu rei, a sua terra, como sendo um prato?

4. Pois bem, acabei de descobrir um modo de a gente conseguir visualizar o conceito próximo-oriental através de nossa lente planetária - com a qual eles não trabalhavam, já que imaginavam o mundo como um "prato", flutuando, sustentado por colunas, sobre águas cosmogônicas abissais.

5. Deu na BBC - Brasil: Alexandre Duret-Lutz, engenheiro em informática e professor da Escola de Engenheiros em Informática em Paris, criou uma técnica de transformar em "planetas" imagens fotográficas de todo o ambiente à volta do fotógrafo: "para criar imagens de 360 por 180 graus, é preciso tirar fotos em todas as direções, incluindo o céu e o solo, para poder reconstruir a esfera". É fantástico o efeito visual - olhando para cada fotografia, pode-se fazer-de-conta que assim era a concepção cosmogônica próximo-oriental, sob a condição de ser imaginada sob a nossa ótica cosmo-planetária. Está bem, é uma brincadeira, mas não deixa de ser instrutiva...

6. Se você quer ver em tamanho grande as fotografias trabalhadas por Duret-Lutz, vá ao Oráculo, digite o nome "Duret-Lutz", peça para o oráculo revelá-lo apenas imagens grandes e, então, prepare-se para uma extraordinária experiência estético-heurística. Adianto alguns endereços em que há imagens disponíveis: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui (as imagens são maiores do que a tela de seu PC). Essas são as maiores que encontrei (e salvei-as, caso desapareçam da rede), mas há outras, centenas, de dimensões menores.

7. Quando estiver olhando as fotografias digitalmente trabalhadas e imaginando como é que os antigos, mesmo os escritores da Bíblia, conseguiam conceber a "criação" como uma cidade, seu povo e seu rei, sem nenhuma das categorias cosmológicas, astrofísicas, filosóficas e teológicas que caracterizam a nossa visão tanto moderna quanto religiosa, aproveite para um exercício de alteridade - pergunte-se como soaria não absolutamente estranho para eles imaginar que acreditamos que vivemos em uma bola de pedra, ferro, fogo e água que, por sua vez, flutua num mar de coisa nenhuma. Oh, sim, haveriam de nos ter por hereges...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio