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sábado, 17 de abril de 2010

(2010/318) Teologia, jogo heurístico - confirmado pelo Wordle :o)


1. Mandei o Wordle produzir a nuvem semanal de Peroratio - e olha só o que ele montou:


2. Não é que o Wordle leu meu pensamento? Teologia fenomenológica é, mesmo, jogo heurístico. E tenho dto. Pela boca do Wordle...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

(2010/052) Democracia e corporativismo


1. Quase pus o termo "ética" no titulo. Mas, como o termo "pastor", o termo "ética" está por demais desgastado - já não surte efeito, já não diz nada. Assim, vai o título técnico mesmo.

2. Naturalmente que o assunto me toca, já que me vi, há alguns anos, envolvido no redemoinho das "votações" corporativas. Mas quero tratar o mais imparcialmente possível do tema.

3. Em ambientes de administração mais ou menos colegiada, não há como fugir das reuniões de votação. Se são, vamos dizer, 15 pessoas a decidir isso ou aquilo, chega uma hora em que a decisão resolve-se no voto. Trata-se de "democracia". Não é lá o melhor dos mundos, porque a decisão da maioria não é necessariamente a melhor decisão - mas é a decisão da maioria... e pronto. Democracia não é o regime da melhor decisão, mas da decisão majoritária.

4. Ocorre que há modos e modos de a coisa ser feira. Um deles resume-se no seguinte. Um grupo, dentre aqueles 15, muito interessado, não importam as razões, no processo e na decisão do processo, reune-se antes da reunião decisiva. Esse grupo resolve a que decisão quer que o grupo maior chege e, então, combina não apenas o voto, mas as ações parlamentares de cada um dos membros do grupo. Vamos fechar nisso assim, assim. Você fulano, propõe, e você, fulano, apóia. Então, nós votamos.

5. Aparentemente, não há nada de "errado" com esse sistema. Mas, se olharmos mais de perto, ele não subverte a questão? A coisa toda não se trasforma numa decisão corporativista? Ela não tende a fechar os ouvidos do grupo a quantos argumentos outros se apresentem na reunião, já que estão todos fechados numa posição previamente acordada, e de seu interesse?

6. Já assisti a "causos" assim no BBB. Não assisto muito ao BBB, mas nessas dez edições do programa, inúmeras vezes observei combinação de votos. O compromisso se torna corporativo. Reuniões de condomínio, também, são ambientes muito propícios para a estratégia. Também já me vi submetido a pressões para "fechar" voto antes de reuniões deliberativas. Recusei-me. Criei constrangimentos. A médio e longo prazo, inimizades.

7. Talvez tenha sido uma intransigência de minha parte - que, ao menos, resultou revelar aspectos da persolanidade e caráter de meus interlocutores que, no dia a dia, não haviam, ainda, se revelado. Mas até hoje eu não sei dizer exatamente o que é que me constrange nesse "jogo" de votos marcados. Sinto-me desconfortável em face dele, mas não sei dizer exatamnte por que.

8. Está claro que a estratégia que discuto aqui transforma uma reunião em que se deveria tomar a melhor decisão possível em uma reunião para se fazer valer o que o nosso grupo previamente decidiu. Em tese, isso subverteria a democracia... mas, ora bolas, a democracia não é o sistema da melhor decisão possível, e, sim, o sistema da decisão da maioria. O que há de errado com a estratégia de fazer com que a maioria seja a "minha" decisão?

9. No entanto, confesso, constrange-me o jogo, a estratégia. E não sei exatamente a razão.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 28 de março de 2009

(2009/120) Um acordo cons(m)igo mesmo


1. Antes de meus dezenove anos, eu vivia em um mundo de inúmeras possibilidades "epistemológicas". É provável que a razão fosse a aura eclética do ambiente em que fora criado - minha mãe estivera, durante todo esse tempo, envolvida com cosmovisões, atitudes e práticas que iam desde os rosa-cruzes até o Catolicismo, passando pelo Kardecismo (ainda me vêm à retina os volumes azuis, oito, eu acho, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, na estante), a Umbanda, e sobretudo, aquele assunto que constituía, sem sombra de dúvida, a maior parte das conversas entre ela e amigos, a Parapsicologia, bem como temas equivalentes - desde a mística esotérica até histórias de assombração e mistério, aura e viagens astrais. Uma lembrança relativamente afetiva (por quê?) são os livros de Lobsang Terça-Feira Rampa...

2. À época, tudo isso me fazia muito sentido. Meus irmãos e eu tentáramos, algumas vezes, exercícios de telecinésia com pregadores no varal - nem uma brisazinha sequer ajudou, balançando-os, para que nos animássesmos, crédulos... Algumas vezes, em minha fase OVNI, subia até o alto da caixa-d'água (o "ponto culminante") da casa onde morávamos, e, deitado de costas, olhando o céu estrelado, pedia e esperava por eles, algumas vezes, em minha profunda solidão adolescente, desejando ir-me até o infinito.

3. Isso tudo acabou num único golpe, quando me "converti" à fé cristã, em 10/08/1984, um sábado, no templo de uma Igreja Batista de Mesquita/RJ. A partir daí, a única mística e o único mito que me acompanharam foi a "fé evangélica". A rigor, eu sei, não há uma diferença muito substancial entre essa fase e a anteior, já que numa e noutra está-se dentro da mesma estrutura epistemológica, um fideísmo voluntarista, de espectro platônico. No entanto, as diversas crenças a que estava submetido, concomitantemente, na fase anterior, não se excluíam umas às outras, ao passo que o Deus dessa nova fé era, fora-me dito, e eu crera, muito, muito ciumento. É significativo que todos, absolutamente todos os meus amigos - mas era uma meia-dúzia, confesso -, deixei-os imediatamente.

4. A tendência foi uma fundamentalização da minha fé, misturada a um pietismo evangelístico. Uma fase, brevíssima, de assédio carismático e, finalmente, uma dogmatização promissora, com acenos para uma vocação ministerial - a serviço, é do que se trata, sempre, da "fé". Essa fase durou até mais ou menos 1989, em meu segundo ano do Curso de Graduação em Teologia (nessa época, ainda "livre"). Não saberia dizer exatamente em que dia, semana, mês, o dogma desmoronou, e a crítica, bíblico-exegética, primeiramente, e epistemológica, finalmente, destruiu, iconoclasticamente, toda a estrutura, e, por fim, cada elemento do sistema doutrinário da segunda fase. Nada ficou de pé.

5. A crítica é um acontecimento - não um processo. Quero dizer com isso não que não haja uma fase de aproximação. Há. Eu não tive professores que, à minha semelhança, agora, como mestre, dissessem, como digo, as coisas abertamente, mas tive, sim, professores que, entre uma meia hora de tradição e outra, deixavam sair de seus corpos quantas de reflexões críticas, que, como a dentes-de-leão, eu pegava no ar, e guardava em meu relicário secreto - a mente curiosa da infância. Um dia, não sei qual, mas foi por volta desse ano de 1989, finalmente, o relicário rachou, e uma nuvem irrefreável de dentes-de-leão críticos invadiram a minha alma inteira. Esse é um momento específico, em que você não pode mais pensar como pensava até há dois minutos e meio atrás, e, contudo, tão difícil de datar, porque, aí, você ainda não tem a noção exata do acidente tectônico por que sua vida acaba de passar.

6. Presentemente, vivo a terceira fase de minha existência, e, talvez, tenha atingido seu ápice. Minha mente só consegue pensar por meio de três rotinas concomitantes: exegética, epistemológica e fenomenológica. É, ainda, por meio dessas rotinas que analiso minhas fases primeira e segunda, classificando-as como "alienação científico-humanista" e "fideísmo mitológico". Os mistérios? Se eles desapareceram? Não. Não, em absoluto. Mas as rotinas fiduciárias com as quais eu pensava a vida, logo, os mitos da vida, essas estão definitivamente abandonadas.

7. Fico pensando se há, de fato, alguma diferença substancial entre essas três fases - a rigor, bem no fundo, são apenas duas, uma primeira, fideísta-mitológica, e uma segunda, fideísta-científico-humanista. Não estou seguro de haver uma razão para além da simples decisão pessoal, do mero convencimento íntimo, para a transposição das fases. Não é nada que muda fora de você - o que muda é a forma como você passa a pensar o que está fora. Algo, entre você e o que está fora de você, promove essa transposição, e você passa a ver de outro modo tudo quanto está fora de você, e, por conseqüência, também a você mesmo.

8. Haverá uma outra fase à minha espera? Haverá o risco de um retorno à mitologia? Há, de fato, alguma diferença, em termos epistemológicos, entre meu presente e meu passado? No fundo, não são todas as epistemologias, jogos, cujas regras nós, os jogadores, criamos? Não é o gosto pelas regras do jogo que escolhemos o que nos mantém compulsivamente ligados a ele? Haverá, além de nós mesmos, além das regras, alguma coisa - o mundo exterior, por exemplo - que nos acrescenta segurança quanto às regras do jogo? Mas, então, por que deixei os jogos anteriores? Como, jogando-os, sendo eles o que eram e são, transformei-me a ponto de não querer mais jogá-los, a ponto de desgostar deles?

9. Talvez esse seja o problema da minha terceira (segunda!) fase - a epistemologia exegética (indiciária) e fenomenológico-religiosa não conhece uma instância de consulta - ela tem de se resolver, e não se "resolve", contudo, sozinha. As fases anteriores, no entanto, nesse sentido, eram mais fáceis, porque você ou perguntava aos deuses, ou aos pais, ou aos livros esotéricos - de algum modo, alguém, do alto da autoridade que você lhe concedia, vinha e lhe dava a resposta que você queria. Hoje, se lhe dão a resposta, você é o primeiro a pisar nela, para ver se quebra...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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