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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

(2010/052) Democracia e corporativismo


1. Quase pus o termo "ética" no titulo. Mas, como o termo "pastor", o termo "ética" está por demais desgastado - já não surte efeito, já não diz nada. Assim, vai o título técnico mesmo.

2. Naturalmente que o assunto me toca, já que me vi, há alguns anos, envolvido no redemoinho das "votações" corporativas. Mas quero tratar o mais imparcialmente possível do tema.

3. Em ambientes de administração mais ou menos colegiada, não há como fugir das reuniões de votação. Se são, vamos dizer, 15 pessoas a decidir isso ou aquilo, chega uma hora em que a decisão resolve-se no voto. Trata-se de "democracia". Não é lá o melhor dos mundos, porque a decisão da maioria não é necessariamente a melhor decisão - mas é a decisão da maioria... e pronto. Democracia não é o regime da melhor decisão, mas da decisão majoritária.

4. Ocorre que há modos e modos de a coisa ser feira. Um deles resume-se no seguinte. Um grupo, dentre aqueles 15, muito interessado, não importam as razões, no processo e na decisão do processo, reune-se antes da reunião decisiva. Esse grupo resolve a que decisão quer que o grupo maior chege e, então, combina não apenas o voto, mas as ações parlamentares de cada um dos membros do grupo. Vamos fechar nisso assim, assim. Você fulano, propõe, e você, fulano, apóia. Então, nós votamos.

5. Aparentemente, não há nada de "errado" com esse sistema. Mas, se olharmos mais de perto, ele não subverte a questão? A coisa toda não se trasforma numa decisão corporativista? Ela não tende a fechar os ouvidos do grupo a quantos argumentos outros se apresentem na reunião, já que estão todos fechados numa posição previamente acordada, e de seu interesse?

6. Já assisti a "causos" assim no BBB. Não assisto muito ao BBB, mas nessas dez edições do programa, inúmeras vezes observei combinação de votos. O compromisso se torna corporativo. Reuniões de condomínio, também, são ambientes muito propícios para a estratégia. Também já me vi submetido a pressões para "fechar" voto antes de reuniões deliberativas. Recusei-me. Criei constrangimentos. A médio e longo prazo, inimizades.

7. Talvez tenha sido uma intransigência de minha parte - que, ao menos, resultou revelar aspectos da persolanidade e caráter de meus interlocutores que, no dia a dia, não haviam, ainda, se revelado. Mas até hoje eu não sei dizer exatamente o que é que me constrange nesse "jogo" de votos marcados. Sinto-me desconfortável em face dele, mas não sei dizer exatamnte por que.

8. Está claro que a estratégia que discuto aqui transforma uma reunião em que se deveria tomar a melhor decisão possível em uma reunião para se fazer valer o que o nosso grupo previamente decidiu. Em tese, isso subverteria a democracia... mas, ora bolas, a democracia não é o sistema da melhor decisão possível, e, sim, o sistema da decisão da maioria. O que há de errado com a estratégia de fazer com que a maioria seja a "minha" decisão?

9. No entanto, confesso, constrange-me o jogo, a estratégia. E não sei exatamente a razão.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 4 de maio de 2009

(2009/250) Deu no Globo (mas podia ter sido na Folha, também)


1. Adauri Antunes Barbosa entrevistou "o historiador e sociólogo Marco Antonio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)" a respeito do fato de que "o Bolsa Família deve atingir um em cada três brasileiros a partir do ano que vem". o ilustríssimo entrevistado, do alto de sua sapientíssima verve política, exclamou, preocupadíssimo:

2. "- É um número assustador. Isso vai ter uma influência decisiva em qualquer processo eleitoral, e, como nós temos eleições a cada dois anos, a gente vai poder constatar isso tanto na esfera municipal como nas esferas estadual e federal".

3. Hum, entendo a preocupação do senhor históriador e sociológico. Há pobres demais a precisar de esmola... Pensemos na solução para o caso.

4. Primeiro, quem sabe, acabar com o Bolsa Família - que os pobres se virem. Enquanto for Lula no governo, ajudar o pobre é demagogia...

5. Segundo, quem sabe, acabar com o voto de pobre - assim, o governo até pode dar esmolas, mas isso não vai constituir prática demagógica... Por exemplo, Lula jamais teria assumido o poder, se pobre não votasse...

6. Se uma dessas duas opções forem levadas a sério, o senhor historiador e sociólogo ficará contente, contente, porque, com apenas a classe média e alta votando, talvez seu candidato tenha chances. E eis a questão: pobre é um problema sério para a política neo-liberal - não valem nada os obres, não dá nem pra tirar dinheiro dessa gentalha. Como seria bom, não, senhor historiador e sociológico, que uma baita pandemia de febre de porco levasse embora metade dessa gente desclassificada?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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