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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

(2008/109) Transcendência na imanência


1. Não sei como foram as experiências de Nietzsche no ambiente de sua casa paterna. Faltam-me as leituras a respeito. Porém, arrisco um palpite. Lá deve ter predominado uma ética protestante ou evangélica rígida. As cenas que me vem à mente são algumas do filme A festa de Babete, que retrata aquele rigorismo protestante, luterano, legalista, piedoso, evangélico, no qual a alegria, a espontaneidade, o espírito alegre em torno de uma boa comida e uma boa bebida não tinham lugar. O zelo, o trabalho, a coerência e a honestidade eram valores ‘em alta’.

2. Desse ambiente, assim ouso arriscar, brota a insistência e a ênfase de Nietzsche na coerência e a honestidade. Por isso, assim imagino, dando a mão à palmatória do melhor juízo, que ele insiste tanto no tema da mentira. A mim me parece que esse valor vem primeiramente de suas raízes pietistas. Depois, claro, foi reforçado pela crítica dura e necessária trazida na esteira do seu desencanto com seu próprio ambiente originário, o cristianismo de vertente luterana. Por isso leio seus textos como expressão da autenticidade de pensamento e reflexão. E aprecio esse espírito, mesmo que não comungue de muitas de suas palavras, brotadas em demasia de um aristocratismo arrogante.

3. Aprecio também muito o meu amigo Osvaldo. O seu último post é duríssimo. Há coisas muito duras para quem crê e ainda prega! Lá no post Osvaldo ressalta coerência e honestidade. Acho que ele também fala primeiramente, como Nietzsche, com o qual sinergiza, de um ambiente evangélico para dentro do qual se converteu e no qual tais valores estavam em alta. Zelo e fundamento também estavam presentes e estão presentes nos seus textos.

4. Há um trecho do post que me chamou especial atenção: “diante do espelho, só há você e aquele que, ali, desde seus próprios olhos o constrange. Não há outra consciência diante da qual se deve levar a sério a condição humana”. Aí, Osvaldo, assim me parece, se expressa a partir da mesma raiz da autenticidade, de coerência, de contestação e de reprovação da mentira e do engodo tão em voga. Ao fazê-lo, remete à própria consciência como o recurso e juiz último das ações humanas.

5. A temática de muitos dos posts tem sido a reflexão crítica sobre a possibilidade e o advento de uma teologia pós-metafísica. Neste sentido li com proveito o livro Aprender a viver – filosofia para os novos tempos, do francês Luc Ferry (Rio de Janeiro: Objetiva, 2007). Após um repasse muito proveitoso pelas etapas ou momentos da história da reflexão filosófica, Ferry chega, na última parte, a refletir sobre um “humanismo não metafísico” como sendo sua proposta para superveniência da transcendência e da vigência de valores 'absolutos' em época pós-desconstrucionista. Passo a citar uma passagem que destaquei na leitura:

5.1 “Há mesmo uma transcendência de valores, e é essa abertura que o humanismo não metafísico, contrariamente ao materialismo que pretende tudo explicar e tudo reduzir, quer assumir – sem aliás, nunca alcançar. Não por impotência, mas por lucidez, porque a experiência é incontestável, e nenhum materialismo consegue verdadeiramente dar conta dela.

5.2 Há, pois, transcendência.

5.3 Mas por que “na imanência”?

5.4 Simplesmente porque, desse ponto de vista, os valores não são mais impostos a nós em nome de argumentos de autoridade, nem deduzidos de alguma ficção metafísica ou teológica. Certamente descubro, não invento a verdade uma proposição matemática, tanto quanto não invento a beleza do oceano ou a legitimidade dos direitos do homem. Todavia, é em mim, e não em outro lugar, que elas se revelam. Não há mais céu das idéias metafísicas, não há mais Deus, ou, pelo menos, não sou obrigado a acreditar nele para aceitar a idéia de que me encontro diante de valores que ao mesmo tempo me ultrapassam e, contudo, não estão em nenhum outro lugar, visíveis apenas no interior da minha própria consciência” (p. 271).


HAROLDO REIMER

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

(2008/33) Teologia e Mitologia


1. A poesia encanta. As artes, em geral, também. Pois são expressão daquilo que nós, os seres humanos, talvez até por instinto predatório, temos de mais comum: a simbolização. Há até quem diga que os animais também simbolizam, que árvores têm código de linguagem e se comunicam. Mas é aos humanos, claro por conta de sua posição de manejadores do discurso, que cabe par excellence a função simbolizadora. Isso o ressalta muito bem Abner Cohen em seu livro O Homem Bidimensional.

2. Vou tentando encontrar as palavras para reatar o diálogo neste blog. Andei ausente. Eu sei. Até de como se faz para postar eu esqueci. O Osvaldo continuou. Trabalhou arduamente, voluptuosamente, compulsivamente. Jimmy, em seu igual silêncio, me pergunta por que eu não respondo.

3. Mitos encantam. Narrativas bíblicas também encantam. Construções de sistemas teológicos também encantam. Encantam porque são construções simbólicas que podem outorgar sentido. Vestem a nudez da realidade experimentada. Dão cor quando a vida é experimentada como cinza. Há que se viver com a longa duração desses simbolismos!

4. Teologia e mitologia. Melhor dizer: teologia é mitologia. Porque classicamente o é, o foi e ainda continua a ser. É mitologia na dupla acepção do termo: enquanto conjunto de narrativas encantadoras e enquanto esforço reflexivo sobre esse patrimônio narrativo, cultural e simbólico. Aquilo que os etnólogos ou antropólogos detectam nos povos longínquos ou primitivos nós também fazemos, em casa, perto, em nossas igrejas e nas casas de formação chamadas academias. Fazemo-lo, contudo, sob o nome de teologia. Sob esse nome comungamos também da desqualificação, da marginalização no espaço acadêmico.

5. As narrativas teológicas encantam. Encantam como as poesias e as artes em geral. Encantam como os mitos. Nisso não são diferentes. Há proximidade como que de irmãs de uma mesma nascença. A diferença talvez esteja em que a teologia goza de um estatuto de poder mais elaborado. Enquanto somente ‘teologia cristã’, esteve aninhada nas tessituras do poder ocidental. A mitologia dos povos não. Essa foi marginalizada junto com a palavra do outro, do diferente, do que foi é considerado primitivo ou inferior.

6. As narrativas teológicas assim como os mitos têm seus construtores. Mitos têm mitólogos. Teologia tem teólogos. Ambos simbolizam. Trabalham com material simbólico. Elaboram idéias, criam representações, organizam imaginários. E, na medida do alcance de seu poder de intervenção, criam as ligações entre as gerações e para além delas. Orientam a condução e as trocas. As idéias se tornam expressões de poder, que movimentam corpos e mentes. Assim é em sociedades em que os mitos são realidades vivas. Assim é em sociedade, nas quais a teologia é realidade viva, compartilhada na fé, na religiosidade, nas gestualidades rituais.

7. Os mitólogos sabem que seus mitos são representações. A comunidade nem sempre o sabe, porque não é interessante que o saiba. A força da tradição cria o pleno comungar do mesmo imaginário. Os teólogos também o deveriam saber que são fabricantes de representações. A tradição crítico-reflexiva impõe um desafio a mais: refletir sobre seu próprio fazer. Isso é a demanda para a teologia na academia enquanto ciência cidadã: caminhar ombro a ombro com as demais. Mas também sem ilusões: cada uma das ciências têm seus jogos de poder, têm seu magos que encantam sem mostrar os ingredientes e o modo de preparo, ainda que isso seja exigência da ciência experimental.

8. Teologia deve dar-se conta de ser também uma forma de mitologia. Isso é sua tarefa própria no mundo acadêmico. Deve refletir sobre o patrimônio cultural, religioso, poético, artístico fabricado e arquitetado. Deve desvendar os meandros. Expor os estratagemas. Revelar a nudez e a impotência na origem das palavras. Como bem o afirma, reiteradamente, meu amigo Osvaldo: teologia deve se fazer heurística. Ela precisa se dar conta das novas demandas no universo acadêmico. Mas deve fazê-lo enquanto ela mesma. Claro, com a ajuda das outras ciências. Afinal, bem já o dizia Martin Buber, que o ‘tu’ é o revelador e o formador do ‘eu’. Mas não precisa evoluir para ser outra coisa. No processo de consciência de si mesma, a teologia será outra, continuando a ser ela. Do contrário teriam razão os antropólogos do século XIX que diziam que mito é pré-lógico, que é pré-hermenêutico. Que as pessoas que dele comungam, para ser, teriam ser outra coisa.

9. Mesmo pós-metafísica, a teologia será atividade simbolizadora. Continuará a construir a rede de palavras que projetam sentidos, a lançá-la e a enredar os que se deixam enredar. Porque o material humano, ainda que pós-moderno, essencialmente continua o mesmo. Talvez o poder do que lança a rede não será mais o mesmo. Não terá a mesma pujança. Mas poder se metamorfoseia. Ramifica-se microfisicamente. Cria nova teia. Talvez disso não se consiga escapar. Ainda que desviantes, permanece a ligação. E estaremos, mesmo nos câmbios profundos da ciência teológica, enredados na teia de novas palavras.


HAROLDO REIMER
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