1. Assim reza o aforismo: "Tudo cumpre o seu tempo - Quando o homem atribui um zero a todas as coisas, ele não viu nisso um jogo, mas acreditou ter adquirido uma intuição profunda: - Só muito tarde reconheceu, e talvez nem mesmo tenha ainda reconhecido, toda a amplitude monstruosa deste erro - Da mesma maneira o homem relacionou tudo o que existe com a moral e revestiu o mundo de uma significação ética. Um dia, isso não terá nem mais nem menos valor do que possui hoje a crença na virilidade ou feminilidade do sol" (Nietzsche, Aurora, Livro 1, aforismo 3).
2. Dar ao Sol um conceito viril ou feminino - antropomorfismo: aplicar a coisas inanimadas as qualidades da alma humana, nesse caso, do gênero humano. Correto: o sol não é nem viril nem feminino, nem o será um dia, conquanto nós, em nossa plástica figurativa, possamos tratar dele nesses termos, a intimidade quente de uma fêmea, a ira agônica de um soldado...
3. Nietzsche quer que a aplicação da moral ao "mundo" seja tratada no mesmo diapasão. Sim e não. Sim: se com "mundo", está falando de "natureza" (Tabela Periódica em história e cenário), sim. A matéria não é moral, nem imoral, é amoral. Perfeito: não se pode fazer pousar a moral aí, e, no caso de se realizar tal proeza, é no nível da figuração, da arte, da retórica, da política, do lúdico, da poesia - mas, no nível do real, não.
4. Todavia... "Mundo", se é aquilo que os homens constroem enquanto homens, bem, meu caríssimo filósofo, nesse caso, estás de todo equivocado - inteiramente. Não só se pode, mas se deve pôr aí a moral e a ética, porque a moral e a ética são criações legítimas desse mundo, como o jogo de xadrez...
5. Fomos nós, os homens, que criamos a moral e a ética - e são, sim, criações nossas, humanas, e só podiam, de modo que equivoca-se terrivelmente (e, agora, sei por que!) meu caríssimo aristocrata ao interditar - ao querer interditar! - a nós, esse direito. Nós, meu caro, nós, a despeito de ti, criamos a moral, e a criamos tanto para nela viver quanto para dela zombar: mas, viver doravante indiferente a ela, veja, meu caro, nem tu, nem tu!
6. Aos leitores eu diria que Losurdo fez passar a alma desse homem num raio x poderoso e desnudou-o inteiramente: onde Nieztsche escarnece da moral, é da Revolução Francesa e seu apelo ao "direito" dos homens que ele zomba, porque odeia o fato de que, agora, ao menos em tese, não há mais nobres e plebe, brâmanes e chandala - somos todos, ao menos em tese, iguais. Para Nieztsche, isso é o fim da Civilização - e talvez ele esteja certo, mas, para todos os fins, o fim da civilização que interessava a ele...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO