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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

(2010/084) Do rito acadêmico e da excelência


1. Um texto que convida à reflexão por parte de Universidades e Faculdades quanto à sua ostentação de "pompa" e "rito". Não diria que a excelência acadêmica necessite suprimir a "formalidade". Confesso que gosto do "rito" acadêmico. Mas a pompa, sem a excelência, é com efeito, recriminável. Em se tratando de Universidades (ou Faculdades), é um deboche.



Becas, borlas e jabôs
Naomar de Ameida Filho

No intrigante ensaio "A Invenção das Tradições", Eric Hobsbawm mostra como se inventam tradições a partir de raízes históricas fictícias. Irônico, analisa rituais, brasões, corporações e até o saiote escocês. Curiosamente, esquece a mais legitimada matriz contemporânea de símbolos e signos culturais: a universidade.

Tradições universitárias têm sido inventadas e cultivadas no correr de quase dez séculos. Em se tratando de vestes rituais, são quatro linhagens.

A universidade escolástica mantém-se viva nas tradições clericais das universidades italianas e ibéricas. As vestes solenes das universidades ibéricas são ainda hoje negras e soturnas, recriando trajes das cortes mediterrâneas do século 17. Acompanham adornos indicadores de segmentos, nunca da universidade como um todo. Assim são as samarras, capuzes estilizados que não mais recobrem cabeças, que ostentam cores definidas para cada uma das faculdades.

A universidade britânica surgiu para a formação teológica da Igreja Anglicana. Chapéus ornamentados, capuchos, túnicas e capas coloridas são elementos identificadores de cada casa de ensino, mas não de escolas ou faculdades. Uma procissão acadêmica numa universidade anglo-saxã revela profusão de cores e formas, pois os docentes terão feito seu doutorado em diferentes instituições.

A universidade humboldtiana nasceu sob forte influência protestante, com raízes luteranas ou metodistas, sub-rogada pelo disciplinarismo prussiano. Nos seus trajes rituais, variados por universidades, e não por faculdades, predomina a cor cinza ou marrom. Agregam-se signos remanescentes do barroco alemão, introduzindo elementos como o arminho em semicapas que evocam uniformes militares.

A tradição francesa pouco valoriza a instituição universitária. A reforma bonapartista da educação concedeu às "grandes écoles" hierarquia mais elevada que à universidade. Por isso, na França, vestes talares levam ao extremo o domínio simbólico das faculdades, sob a forma de faixas, sobrepelizes, pelerines e adornos sobre uma beca negra, lisa ou plissada. O "jabeau", peitilho com rendas e brocados, encimado por gravatinha borboleta branca, moda entre os gentis-homens da "belle époque", completa o vestuário de gala acadêmica.

No Brasil, quando faculdades e escolas politécnicas foram fundadas no século 19, a influência francesa predominou como horizonte intelectual e estético. As primeiras instituições promovidas ao regime de universidade foram formadas pela unificação de faculdades.

Hoje, nas instituições universitárias brasileiras, a beca negra e lisa, com um tipo padrão de casquete quadrado com borla e jabô de renda bordada, predomina como veste talar para graduações, simulacro da tradição francesa.

Diferenciando os docentes, faixas, sobrepelizes e capinhas, estilizadas dos capuzes doutorais lusitanos, seguem a gramática de cores do contexto francês. Para distinguir o reitor, universidades brasileiras adotam uma cópia exata da samarra das faculdades conimbricenses, reinventada na cor branca. Com o branco, síntese de todas as cores, talvez se pretenda simbolizar o poder maior da reitoria sobre as faculdades e suas cores.

Recentemente, no Salão de Atos de Coimbra, os reitores das universidades brasileiras reuniram-se para fundar o Grupo Coimbra Brasil. Quase todos em suas becas pretas e samarras brancas, muitos com sobrepeliz de arminho, jabô, faixa, capelo ou borla. Aí descobriram que os reitores da Universidade de Coimbra, fonte de nossa tradição
universitária, usam somente um conjunto de calças e jaqueta, negras e justas, pois despojam-se dos signos de suas faculdades ao assumir o cargo maior da instituição.

Temos aqui uma questão de duplo sentido: político e antropológico. A universidade brasileira continuará a se reconstruir como instituição de conhecimento. Para tanto, reforçaremos vínculos com universidades de outras linhagens que conosco compartilham os valores da civilização.

Mas isso não nos obriga a imitar suas tradições nem a criar, a partir delas, simulacros. Os que escolhem fazê-lo precisam saber a que remontam e o significado de rituais e vestes, sobretudo por seu impacto no imaginário social.

Becas, borlas e jabôs são apenas roupas que, em eventos solenes, representam pompa e tradição. Sozinhos, não garantem a excelência que justifica, à sociedade, nossa existência. Isso se conquista com talento, trabalho cotidiano e produção acadêmica competente.

Naomar de Almeida Filho, 57, doutor em epidemiologia, pesquisador 1-A do CNPq, é reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor, com Boaventura de Sousa Santos, de "A Universidade do Século XXI: Para uma Universidade Nova" (Almedina, 2009).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 26 de março de 2009

(2009/114) "De dentro" e "de fora" - entendi...


1. Caro leitor, por favor, leia:

1.1 "Isto não é para dizer que a teologia se reduz ao acadêmico. 'Todos somos teólogos, significa cada cristão. Todos somos chamados de teólogos, de modo que todos somos cristãos', afirmava Lutero. Pessoas não profissionais em teologia refletem sobre a fé, seja de forma apaixonada, de dentro, ou de forma crítica e distanciada, de fora. Embora se compreenda a fé, afinal, apenas de dentro, e assim também a teologia, é possível falar sobre a fé de forma acadêmica, descritiva, exploratória. Precisamente por isso é que a teologia tem seu direito na academia, porque consegue fazer esta ponte do viver da fé para o pensar sobre a fé. Nisto, ela precisa da filosofia para articular-se, pois esta providencia um instrumentário analítico útil para o afazer teórico-científico da teologia" (Rudolf von Sinner, Teologia como Ciência, Estudos Teológicos, v. 47, n. 2, p. 61-62, 2008).

2. Trata-se de um artigo que postula a presença da teologia na Universidade, e que apresenta a seguinte definição de teologia: "a reflexão metodologicamente responsável sobre o falar de Deus". Já critiquei bastante esse artigo (aqui) - mas sempre há mais que se criticar. A safra é abundante.

3. Vou re-escrever o parágrafo, mas com minhas próprias palavras, com o compromisso de, todavia, tentar ser fidelíssimo ao teor do argumento de von Sinner. Vamos lá. A teologia não está restrita ao pensamento, âmbito, pensador, acadêmico. Qualquer cristão é um teólogo, e qualquer teólogo é um cristão, disse Lutero. Fora do âmbito profissional da teologia, pessoas refletem sobre a fé, pessoas que estão dentro da própria fé, por isso, apaixonadamente, e pessoas que estão fora da fé, por isso, críticos e distanciados. A fé, contudo, e, logo, também a teologia, somente pode ser compreendida pelas pessoas que estão dentro da fé, e não, por conseguinte, pelas de fora, embora nada impede que se possa falar academicamente, exploratoriamente, descritivamente da fé, desde, naturalmente, "de dentro", isto é, a partir da fé, uma vez que só se compreende a fé e a teologia estando-se dentro da fé ou da teologia. Aliás, falar teologia é falar fé: "embora se compreenda a fé, afinal, apenas de dentro, e assim também a teologia". Teologia é fé, fé é teologia, tanto quanto ser teólogo é ser cristão e ser cristão é ser teólogo. É justamente porque consegue fazer a ligação entre viver na fé e refletir "academicamente" que a teologia pode estar na academia - para o que serve-se da filosofia.

4. Se minha paráfrase/interpretação está correta, posso extrair os seguintes elementos do discurso. Primeiro: "de dentro" significa: a) ser teólogo e ser cristão, b) estar apaixonado e c) viver da fé. Segundo: a fé e, logo, a teologia, só podem ser compreendidas "de dentro", logo, por quem é cristão, está apaixonado e vive da fé. Terceiro: ainda que academicamente, para se falar da fé, compreendendo-a, logo, com pertinência, deve-se, primeiro, "entrar", logo, apaixonar-se, logo, "tornar-se cristão". Ora, isso não tem outra aparência que aquela que Paulo emprestou à fé: o homem natural não pode compreender as coisas do Espírito... Quereis compreender a fé?, fazer teologia, convertei-vos, incréus...

5. O que eu devo dizer? Bem, primeiro que o(s) Cristianismo(s) são isso aí mesmo. Não farei nenhuma exceção - todos eles, católicos, protestantes, ortodoxos, evangelicais, fundamentalistas, tradicionais, pentecostais, liberais, invente-se o rótulo, cunhe-se a identidade que se quiser, é cristão?, é isso aí: ruminador apologético da fé. Se a carga que a besta cristã, no dizer de Nietzsche, carrega não é outra é, com certeza essa, pelo menos a carga da fé, a doutrina, conquanto haja muito mais no lombo cristão que somente o balaio do dogma. Republicanamente, insisto: é de direito. Que o mundo todo se converta - é de direito. Que a TV brasileira inteira, aberta e fechada, a cabo, por satélite, via Internet, por telepatia, transmita, dia e noite, programas evangélicos e católicos - é de direito. Se é saudável é outra questão - mas é de direito. A gente até deixa.

6. Agora, sugerir, sugerir, não, dizer que isso, esse compromisso fideísta, fiduciário, dogmático, confessional, deva estar na Universidade - e mais! - com "cara" de ciência, com jeito de ciência, com bula e tudo, é demais para meu raciocínio. Não sei o que é pior: o MEC ter aceito essa indecência epistemológica? A própria teologia disfarçar-se, fingir-se de ciência, para sentar-se entre as ciências? A Universidade, como um todo, calar-se? Equivoco-me, ou sou o único, ou quase o único, a dedicar-me quase-patologicamente à denúncia desse escândalo?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 7 de março de 2009

(2009/062) Vou tornando-me um implicante


1. Mas que me dão motivos, me dão. Como não?

1.1 "a. - Considerações gerais: enquanto o conhecimento mítico explica o mundo através de alegorias, sendo indispensável transcender os símbolos para resolver o enigma; o conhecimento teológico já é um saber crítico que ultrapassa a realidade da experiência sensível, e contempla o mundo como um projeto inteligente, com um propósito definido. As marcas, os sinais, a finalidade do universo, da vida e do homem podem ser perscrutados à luz do conteúdo e linguagem da fé revelada, esse é o objeto do estuda da teologia" (José de Deus Luongo da Silveira, Domínios do conhecimento teológico, disponível aqui).

2. É uma "mera" implicância minha, uma antecipação de minha alma de velho, ou, de fato, é um equívoco epistemológico a separação entre teologia (enquanto fé e revelação) e mito? Naturalmente que sim, e só não o será para uma articulação retórica corporativista. Teologia - qualquer teologia, cristã, kardecista, umbandista, budista, islamita, qualquer uma, é mito, opera como mito - a despeito das racionalizações escolásticas que o desenvolvimento da religião dentro da qual ela opera promoveu em seu discurso público.

3. O palavra mais deslocada, coitada, aí presente, é "crítica". Pobre palavra. Não há, a rigor, nenhum trabalho de crítica nessa teologia que se pauta pela fé e se concebe "revelada". Nenhum. A crítica pressupõe, inegociavelmente, um princípio iconoclasta, primeiro aplicado a si mesma, e, então, a tudo o mais. A teologia, contudo, essa aí, fideísta e revelada, ela sequer sabe o que significa "crítica".

4. Essa teologia não aplica a crítica a si, porque parte do pressuposto de que está certa, inequivocamente certa, inexoravelmente certa. Logo, a noção de "crítica" é-lhe um despropósito, uma aberração - um demônio, uma alma de apostasia, uma provação, uma provocação, vade retro...

5. Além disso, essa teologia de fé e de revelação igualmente não aplica a crítica a terceiras expressões concorrentes, porque a crítica implica diálogo, ouvir para certificar-se da validade, e essa teologia aí, esse embuste racional, já, desde sempre, de antemão, condena. Ela não vai se dar ao trabalho de ouvir, atentamente, o núcleo argumentativo da concorrência noológica e epistemológica. Ela vai observar a superfície do discurso, e procurar, aí, o reflexo de si mesma - se encontra, o discurso está certo, se não encontra, está errado.

6. Asim, as "considerações gerais" transcritas acima pronunciam-se desde o vício epistemológico e retórico da teologia - uma boca torta de tanto fumar ópio: legitimar-lhe o lugar que ocupa, sem investigar se lhe cabe o assento. Mais um gesto alguma coisa entre político e descuidado, o que, politicamente, não tem muita diferença.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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