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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

(2009/610) Como assim a doença é o "mau/mal"?


1. Quando éramos crianças e estávamos na escola, aprendíamos nos sapientíssimos livros escolares uma série de verdades a respeito de como a Natureza estava toda montada "para nós". Árvores, criadas para que tivéssemos sombra, frutos, madeira... Abelhas, para que não nos faltasse mel, própolis... Vacas, a nos darem litros e litros de leite, metros e metros de couro, quilos e quilos de carne... A Natureza olhava para nós e perguntava: estão satisfeitos, nobres senhores? Há algo mais que posso, que possamos, fazer por vocês, máxima figura da Criação? Muito "natural" pensar assim, uma sociedade saída da Teologia européia, gestora eficiente da teologia da criação, tendo o homem como "coroa"...

2. Semana passada, contudo, surpreendi-me, ao comentar uma longa conversa com dois alunos, que me deram carona. Falávamos de paranormalidade, de mediunidade. Controu-se-me uma visão. Um ser aparecia aos pés do "médium", que, diante de tão estranha aparição, perguntava a Deus - quem é? E Deus respondia: é Omulu...

3. Era a doença personificada - o mal, personificado. O "mau", melhor dizer. Deixei a questão de o "mau/mal" ser personificado pelo nome de uma entidade do candomblé. Outra questão me pareceu mais abrangnte: como assim, a doença é o mau/mal? A doença nada mais é que a ação naturalíssima de agentes vivos, na tentativa naturalíssima de... viver...

4. Os germes, os vírus, as bactérias, a vida microscópica, não é o mau/mal. Fazem com a gente o que fazemos com bois e carneiros. Nós comemos milhões de bois, e somos divinos!, as bactérias nos comem, e a doença é o mal? Como assim? Que tipo de racionalidade é essa? Ou isso é mera racionalização capenga?, comprometida que é até os ossos com nossa incurável sindrome de Narciso, agravada pelo criacionismo cristão?

5. Ah, sim, é detestável ficar doente. Mas a doença não é o mal - é a vida, agindo, em seu estado natural, cru, não-moral. Nós no boi, o protozoário em nós - tudo em casa. Tudo normal. Tudo natural. Surpreende-me é "Deus" não saber disso...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 18 de abril de 2009

(2009/180) Aritmética da teodicéia apócrifa


1. Se não pode ser que o Bem faça o mal, só um (M)al o pode assumir. Então, estamos combinados: O Bem só fará, doravante, o bem. Quanto aos males cotidianos, que entre o bem que o Bem fará não está a suspensão dos males, vejamos como resolvê-los.

2. Certo é que serão eternos os males. Se um fim houver para tudo, então há de haver, também, para eles. Se, contudo, o fim ao sonho utópico pertence, utópica será, igualmente, a cessação dos males. Avisai, ide, aos homens que, por assim dizer, serão eternos seus tormentos.

3. Dito isso, há, entrevê-se, uma condição dos males: se não são findáveis os males, findável não é a sua causa. E qual é ela? Vejamos.

4. Um (D)eus (M)al aceitaríeis? Não, decerto, que sóbrios monoteístas cá nos vedes. Nesse caso, resta dizer que um diabo qualquer, depois de anjo ter sido, e dos bons, geralmente as traições dos mais próximos soam mais trágicas e sensíveis aos enredos, há de ser o responsável pelos males. É aceitável.

5. Está resolvido esse ponto, então: os males, parindo-os vai a cloaca dos diabos, e vedes quão férteis são que entre o parágrafo anterior e este já são plurais os coitos e as castas...

6. Caberá, no entanto, uma questão? Oh, sim, caberá, decerto, mas qual? A seguinte: por que aos homens é cabível o perdão, e não aos pobres dos diabos? Que não serão decerto, piores do que nós...

7. Oh, sim, bem pensado. Mas é que assim se deve pensar para fecharmos as contas: se os males hão de não ter fim, segue-se que sua fonte deve estar permanente aberta. Se, contudo, Deus perdoa aos diabos expiatórios, como se há de explicar ao bom Deus que os males não é ele mesmo quem os faz?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

(2009/162) Das desgraças

1. As desgraças desenvolvem-se em cadinhos. Nunca, no ermo. Então, quando o cadinho está cheio, ele entorna, vira, derrama toda aquela infusão de tragédias. Aí, se você está debaixo, pobre de você. Não há nada que faça o cadinho não entornar. A única coisa com que podemos contar é com a necessária dose de força, venha ela de onde vier, de Deus, da fé, dos amigos, da família, dos recursos, para atravessar o vale de lágrimas. Às vezes, passa. E, quando passa, é bom. Às vezes, não. É ai que alcançamos o sentido da dor humana.

2. Há centenas de anos atrás, nosso ancestrais israelitas/judaítas criam que as desgraças eram causadas por Yahweh, que ele fazia tanto o bem quanto o mal. Escreveu-se isso, para memória das nações: Is 45,1-7.

3. Depois de seu contato com os persas, que ensinavam que o bem é feito por um deus-do-bem, e o mal, por um deus-do-mal, deuses, ambos, os judaítas refletiram, refletiram, refletiram - por uns trezentos anos! -, até que chegaram à conclusão de que o bem, apenas o bem, é feito por Yahweh, enquanto o mal, a correição desgraçada das misérias humanas, é perpetrado pelos diabos, aos milhões, que a mãe dos diabos é uma enorme rainha-cupim, que só faz parir demônios.

4. Sei lá. Não importa quem faz a desgraça, se Deus ou os diabos. O que importa é que, quando chega uma, pode deixar a porta aberta, que ela traz acompanhantes. Às vezes, além do sofrimento, não é nada que recursos financeiros não resolvam. Mas as desgraças costumam ser piores do que aparentam. Contra elas, nossos melhores aliados são os familiares amigos, os amigos, quando não fogem, o tempo. É só com eles que, efetivamente, podemos contar.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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