1. Saiu na última Correlatio: Teologia, ciência ou metafísica?, de Júlio Fontana. Não pretendo, aqui e agora, analisar, como gosto, ponto a ponto, o artigo. Minha primeira impressão não foi boa, pela razão de que não se está, de fato, aí, interessado em trazer a teologia para o campo da ciência. O propósito é, primeiro, perguntar se ela é uma ciência - não é, concluirá. Para o fazer, serve-se de Popper. Corretamente, eu diria - se uma teoria não é refutável, não pode ser considerada científica, o que não significa que esteja, necessariamente errada. Todavia, não é científica, logo, em termos epistemológico-científicos, não é "conhecimento", não é "saber", porque o sujeito não pode afirmar que sabe o que diz saber, já que, para o saber, deveria poder checar, e não pode, porque o que diz ser "saber" não é refutável. Assim, o que não é refutável, não sendo, por isso, científico, só pode ser assumido como "fé" ou tradição, ou, para sair do campo da religião, como um a priori metafísico normativo-dedutivo: independentemente de eu saber se a coisa é assim, tudo irei analisar como se assim fosse.
2. O artigo, portanto, reconhece que a teologia não é ciência. Ponto para o artigo. Bem, se a teologia não é ciência - é metafísica e mito, como o reconhece Júlio Fontana -, qual a conseqüência, então? Nos termos do artigo, na prática, nenhuma. Prova-o o artifício de, primeiro, argumentar-se a respeito de uma superioridade "racional" da doutrina cristã criacionista sobre todas as outras mitologias criacionistas, desde as pré-socráticas até as concorrentes domésticas. O argumento do autor é que a teologia cristã da criação impôs-se pela sua relativa superioridade em face das demais - o que, a meu ver, é um exemplo típico de abstração da história concreta: as questões relacionadas à política romano-cristã, Nicéia, o Império, a cassação de todas as doutrinas contrárias, a coerção político-religiosa, o engessamento, a hegemonia, o aggiornamento, as perseguições, nada disso serve para trazer à luz o fato de que, assim como as doutrinas teológicas de Nicéia, o criacionismo imperou onde e quando imperou por meio exclusivamente da força política, até que a massa cristã estivesse estupidificada demais para chegar a ter razões e/ou forças para a confrontação, o que, contudo, logo aconteceria, após a introdução de Aristóteles na Europa. Para Júlio Fontana, contudo, o criacionismo disputou com as demais mitologias um concurso público, e levou o primeiro prêmio porque é extraordinariamente coerente e bem-formulada. As demais mitologias até aplaudiram a sua "vitória", não se sabe...?
3. Mas tem mais. Partindo para um campo que Popper não legitimaria, muito pelo contrário, o campo epistemológico do não-fundacionismo, ou seja, a pós-modernidade, Júlio Fontana vai fazer o seguinte. Uma vez que o criacionismo é a mitologia campeã da história dos mitos, tendo alcançado o campeonato por meio dos méritos racionais que o constituem - ele conseguiria responder o máximo de questões, enquanto que as demais mitologias ficariam, em relação a ele, devendo... -, o criacionismo é posto lado a lado com o evolucionismo, como teorias equivalentes. Não importa quem ganhará essa disputa que Júlio Fontana promove. A epistemologia, aí, foi absolutamente, corrompida. De um lado, um mito, de outro, uma hipótese das ciências - a mesma coisa... É só promover, agora, uma eleição...
4. A meu ver, o artigo de Júlio Fontana persegue um caminho semelhante àquele que perseguiu Júlio Zabatiero, no seu artigo da Estudos Teológicos 47/2 - teologia não é ciência, mas manda ver... Não é coincidência que ambos tenham recorrido ao não-fundacionismo, Zabatiero, por meio de Habermas, Júlio Fontana, recorrendo a um "é assim que é hoje". Porque, nesse jogo, afirma-se que a teologia não é ciência, com o que se livra a teologia das regras do jogo científico, e, ao mesmo tempo!, afirma-se que, contudo, ela é, sim senhor, plenamente racional, e o que ela diz tem tanto "valor" quanto o que a ciência diz, ou seja, ela e a ciência são "visões" equivalentes sobre o mundo, a vida e o homem. É, pois, necessário recorrer-se ao não-fundacionismo, porque, assim, transforma-se a ciência num jogo de palavras, sem qualquer base na realidade, e a faz equivalente à teologia.
5. Movem-se céus e terra, mas tudo permanece do modo como está - é a "revolução" dos astros, que, partindo do mesmo ponto da elíptica, chegam novamente a ele... O Eterno Retorno retórico da epistemologia não-fundacional pós-moderna - a serviço da contra-crítica.
6. O que está em jogo, contudo, é o que faz a teologia na Universidade. O que ela quer, é, de fato, sob as regras das ciências, sem burlá-las, conhecer-se, ou, ao contrário, dona de si, de seu nariz, quer-se fazer faceira, dizer o que lhe vem à telha, tricotar seus mitos à mesa comensal, como se direito a isso tivesse, justo ali, esse espaço construído à força de expulsá-la do controle da sociedade? Não aprendeu nada essa teologia, meu Deus?
OSVALDO LUIZ RIBEIRO