sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

(2015/083) Sobre não amar o suficiente, sobre não gostar o bastante - e saber disso

Há uma ironia e uma contradição em mim. Se há uma frase que marca minha reflexão em todas as áreas é aquela que li em Marc Bloch há 20 anos: o historiador é como o ogro da lenda: onde há carne humana, aí está a caça. Ele escreveu isso (ou algo parecido, porque cito de memória) no Apologia da História, que li e devorei, autofagicamente.

Eu queria ter o sentimento correspondente à consciência - mas não tenho. Eu sei que tudo antropologicamente gira em torno do Homem, das pessoas, do ser humano, do ser concreto, de carne e osso, raça e sexo. Eu SEI. Não há consciência mais radical em mim do que essa - nem a minha finitude, que eu o sou, justo por homem ser...

Todavia, eis a ironia, eis a contradição, não gosto suficientemente do Homem - e não digo do Homem enquanto ser genérico, potencial, total, mas das pessoas aqui e agora. Sou educado com elas, tento ser justo, tento ser cortês, mas não há em mim amor suficiente para as querer atrás de mim, aos meus pés, perto.

Talvez a minha sina de emancipá-las seja fruto desse desamor profundo que, insisto, não decorre da consciência do desvalor delas, não, pelo contrário, está em inversa proporção à consciência que tenho. Emancipá-las, mandá-las embora, a cuidar da vida, talvez seja a minha forma de conciliar minha consciência e meu dessentimento.

Convivem em mim uma radical consciência social e uma abissal apatia pelas carnes.









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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