sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

(2015/081) Sobre a condição do casamento moderno

Nietzsche disse que o casamento por amor, inaugurado no século XIX, levaria a instituição do casamento à extinção, porque o amor não é suficiente para manter uma relação...

O que me é mais delicado, frágil, de vidro mesmo, em uma relação, é a confiança. Talvez seja a coisa mais difícil de ser construída e a mais fácil de ser destroçada. Quanto à possibilidade de reconstrução dela, acho impraticável.

Nas relações em que ela é importante, penso que essa seja a principal vítima de uma traição. A relação conjugal moderna, quero dizer, por amor, e não por acordos de família, não o velho modo dos contratos impessoais, é uma relação fragilizadora, porque a pessoa que se envolve nessa relação abre todas as suas guardas, vulnerabiliza-se, fragiliza-se, porque não há relação moderna de amor possível sem fragilização de si, sem vulnerabilização de si. Encontrar o outro na relação conjugal de amor moderno é derrubar todas as cercas de proteção...

Por isso, a confiança é a qualidade indispensável. Morar junto dentro de uma casa é possível. Uma relação de amor moderna, sem confiança, não. Morar junto não significa estar em uma relação de amor moderno. Pode significar sexo, comida, conversas - mas amor, encontro inter-subjetivo? Duvido.

Por isso que considero - na minha experiência - a traição um problema sério. Ele inviabiliza a relação de amor. Mesmo se não descoberta, porque em que sentido o traidor pode olhar para o fundo dos olhos da pessoa traída?

Não se trata de carne aqui - apenas. Se trata de espírito, se trata de sentimento, de relação, de emoções...

Mas é só minha percepção da coisa. Não descarto a hipótese de ela constituir uma idiossincrasia, um "defeito" hiperbólico de minha consciência.









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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