domingo, 18 de agosto de 2013

(2013/902) Sobre os modelos de ENSINO RELIGIOSO PÚBLICO e por que eu acho que verdadeiros religiosos não têm condições de exercer a profissão


Temo que o verdadeiro religioso seja imprestável para Ensino Religioso Público (ERP).

Há quatro modos de se defender ERP.

a) catequese - nesse modo, o religioso verdadeiro nada de braçadas - mas só pode ensinar a sua própria religião, porque, se ensinar a dos outros, será para condenar e revelar os diabos escondidos.

b) "transcendência" - que chamo de catecismo soft: ensinar a doutrina de que existe o mundo sobrenatural, um mito, como se fosse um dado objetivo, indiscutível e universal. O verdadeiro religioso tem alguma facilidade com isso, mas terá alguma dificuldade em imaginar Exu como fazendo parte dessa "transcendência" - salvo, claro, no papel dos demônios que habitam esse universo mitológico filosoficamente tratado como "transcendência". Aqui, ele fará da "transcendência" uma espécie de Deus espalhado em sua extensão única... O cristão tem boca torna, não adianta...

c) ensino moral - o ERP como ensino moral público é um fóssil - antes do advento moderno dos Estados Democráticos de Direito, praticava-se e defendia-se isso. Ele parte do pressuposto de que a massa, as crianças e o povo devem ser controlados pelos mitos religiosos - se eles acreditam que Deus capa, não adulteram; se acreditam que Deus arranca a mão, não roubam; se acreditam que Deus arranca um olho, não cobiçam nem compram Playboy. Coisas assim, do tipo "Papai do Céu não gosta", "Papai do Céu está vendo" - mitologia transformada em coação psicológico-social. Um professor que use a religião para fazer crianças deixarem de fazer coisas ruins ou passarem a fazer coisas boas não as está educando - as está preparando para a hipocrisia, para a heteronomia, para a má consciência. Além disso, engana-se ou mente para nós, ao pressupor que todo religioso é bom e todo não-religioso é mau. Não tem ética nem conhecimento histórico: está fazendo o que, lidando com crianças?

d) fenômeno religioso - esse, o modelo que me parece o único defensável, hoje, cuido ser imprestável para o verdadeiro religioso. Por duas razões: a) ele exige que a fé do/a professor/a seja deixada de lado, ainda que pelo tempo da aula - para o verdadeiro religioso, isso já é apostasia; b) segundo, ele e ela têm de tratar Jesus e Exu como iguais - você acredita que um religioso de verdade consegue?

"Religioso de verdade" é o sujeito que vive em alienação de si. Que não tem a mínima noção de que, no fundo, são os homens e as mulheres que praticam a religião, que as inventam, que as administram. Ele e ela vivem a religião como Norma: não analisam, não questionam, não pensam. Obedecem. O que aprendem, é Lei. São honestos, ao ponto de porem a religião acima da ética. Dane-se o outro: o que vale é a fé. Pôr o outro acima da fé é pôr o outro acima de Deus. 

Uma pessoa assim não pode dar aulas de ERP. Não pode porque não consegue. Fará catequese. A doutrina se apossa dele e dela, como um Espírito, e, ele e ela, zumbis, repetirão apenas o que seu coração engoliu a vida toda.

ERP pressupõe uma sociedade madura, plural.

Não, a nossa não o é - a nossa está longe, muito longe de o ser.


(...)

Moral da história: para ser professor/a de ERP, o religioso tem que ser, já, alguma coisa entre "herege" e cidadão plural. Do contrário, não vai...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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