Mostrando postagens com marcador Wald. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wald. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de março de 2009

(2009/105) "Eu sou um acreano!"


1. De programas da MTV até a Internet, corre uma desairosa brincadeira, qual seja tratar-se o Acre como lenda, como no mans's land, como lugar que não existe, terra de ninguém, capitania de um homem só, essas coisas. Agora há pouco, contudo, o Acre invadiu a tela de meu computador, indignado! O Acre existe! - e acreanos de monte...

2. Trata-se de uma celeuma cuasada por uma regra do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que estabelece que: "'escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)]'". Nos termos do Acordo Ortográfico, o povo "acreano", doravante, deve chamar-se "acriano".

3. A população, a sociedade civil, a Assembléia Legislativa, o Governo do Estado, a Academia Acreana de Letras, gente de toda parte do Acre entrou em "batalha" contra o Acordo - recusam-se, dado que de dizem - e são! - acreanos "desde que o Acre é Acre", a verem-se transformados em acrianos por meio de um Acordo que lhes tira o senso histórico de cidadãos de um Estado que brasileiro é por opção. Prometem "desobediência civil". "Nasci no Acre, vou morrer acreano", diz Antonio Alves, jornalista e escritor, "e desde que o Acre é Acre sempre se escreveu acreano (…) Tenho 61 anos e nunca vi outra grafia aqui em nossa terra", arremata a doutora em língua portuguesa, Luísa Galvão Lessa.

4. Quanta briga por conta de um "i"! E, no entanto, eu entendo bem essa briga. Meus pais deram-me por nome "Osvaldo". Quando alguém o vai escrever, quase sempre tenho de informar se é com "v" ou com "w" - e, quando não perguntam, quase sempre grafam com "w". Com efeito, o nome deriva do alemão - wald -, de modo que meu nome, com "v", está "errado". Contudo, o mesmo Acordo Ortográfico, que exige que os acreanos transformem-se em acrianos, mais do que isso, que os acreanos vejam-se na grafia acrianos, permite que os nomes próprios, das pessoas, possam ser escritos de qualquer jeito, até com trema, de modo que a Gisele o poderá continuar carregando em seu Büenchen. Assim, Osvaldo está certíssimo. Também o nome de meu amor, Izabel, que a grafia carinhosa, "Bel", oculta, tanto pode ser escrito com "z" quanto com "s". Mas os acreanos, manda o Acordo, terão de mudar seu nome para acrianos, como, nos termos do Acordo, "açorianos" (de Açores) e "torrianos" (de Torre).

5. Ora, mas se eu, única pessoa, posso orgulhar-me de meu nome escrito errado, com "v" - quem escreve com "w" mando escrever de novo (quando alunos me entregam trabalhos com a grafia "Oswaldo" dá vontade de tirar pontos!), por que um povo inteiro terá de mudar a forma histórica e tradicional com que se reconhecem a si mesmos, ciosos de si, orgulhosos de sua cidadania? Um único cidadão do Acre não é o Acre. Ele não pode dizer "eu sou o Acre" - o único jeito de ele o fazer, de ele unir-se a seus concidadãos, é dizer-se um "acreano" (ou um "acriano", como quer o Acordo). Mas dizer-se "acriano", para um "acreano", não é o mesmo que obrigar-me a mim grafar-me "Oswaldo"? Não deve valer, para esse povo, a mesma complacência lingüística a mim - e à Büenchen - dispensada?

6. Ah, essa vale, sim, uma desobediência civil...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 19 de março de 2009

(2009/093) Wald


1. Hoje, aprendi um pouco mais de mim. Foi quando olhei para uma palavra - Wald.

2. Há algum tempo, uma criatura atormentada por seus fantasmas, cuidou diminuir-me publicamente, construindo um trocadilho até inteligente com meu sobrenome: Ribeiro. Utilizando-se de discurso paraninfal, referiu-se a mim por meio da expressão "ribeiros rasos", uma forma de dizer-me alguma coia entre ignorante e simplório, por isso menor, essas coisas de que se servem as almas tristes, coitadas, por despeito - estão verdes, disse a raposa... Em resposta e homenagem àquele pretenso insulto, reiterado em outra ocasião com um menos criativo "riachos rasos", redigi Sobre Ribeiros Rasos.

3. Sobre Ribeiros Rasos foi uma feliz oportunidade para pensar-me a partir de meu nome. E, ali, "abri" o segredo de Osvaldo, Wald em alemão - que, então, traduzi como "floresta". Asim, Osvaldo Luiz Ribeiro remetia às águas rasas dos ribeiros da floresta, à luz que entremeia a copa das árvores, a luz que resvala as águas rasas do ribeiro... Uma belíssima imagem. O tiro saíra pela culatra, e a resposta, conquanto tardia, reverberava elegância (há elegância também no fio do machado!).

4. Li, contudo, em Alain Gerreau, que Wald indica, mais precisamente, o espaço selvagem, sim, a floresta, mas sob a rubrica de ser, a floresta, selvagem, termo que teria por parente, ainda, o inglês wild. Não contive, na hora, o sorriso, como quando você se vê a si mesmo, de repente, quando, então, você levanta a cabeça do livro, olha para nada e ninguém, e ri-se.

5. Selvagem, sim, eu o sou. Ainda penso que por conta de não ter sido criado por um pai. Apenas minha mãe. Essa experiência fez-me, de um lado, primeiro tímido ao extremo, inseguro à beira da patologia, imaturo à extravagância, fruto de ausências afetivas dificilmente superáveis em outra circunstância. O encontro formidável com Bel, contudo, deu-me ocasião de superar essas inconveniências afetivas, e, então, curado eu dessas patologias "maternas", emergiu, desde dentro de mim, um "monstro" indomável, um ogro, de clava e tudo, um eu não castrado pela presença do pai, um eu que não se submete, não se curva, não acata autoridades onde não há autoridade, que não sabe o sentido de uma palavra de patente, uma ousadia de pele, um instinto waldiano.

6. Wald - selvagem. Por isso, agora compreendo, não me acanho diante de um Gadamer, por exemplo, de um Lévinas, de um Vattimo, de um Habermas, não pelo nome que carregam sobre a carne, mas os enfrento, ousadamente, sob o risco de perder a luta. Não importa! O que não posso, não um Wald, é considerar que a luta está ganha porque, do outro lado, está a Autoridade. Não, não há autoridades na floresta selvagem - só as feras, os javalis, a umidade, o calor, a caça... Quer vir o caçador? Venha - mas se benza sete vezes!, e encomende a alma...

7. "Os caçadores utilizavam um animal doméstico no espaço selvagem (Wald, wild) e, ao contrário, um animal selvagem um pouco adestrado no espaço cultivado: tratava-se de uma forma de inversão, e sabe-se que os ritos de dominação apresentam-se sempre como ritos de inversão" (ALAIN GUERREAU, Caça, em Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt, Dicionário Temático do Ocidente Medieval - I, EDUSC, 2002, p. 145). Lá está - sou um espaço selvagem, uma floresta. Aquele meu tristíssimo desafeto poderia ter aproveitado também esse termo, e ter-me dito não apenas "ribeiro raso", mas, ainda melhor, "floresta inculta". Com isso, acertaria duas vezes, posto que eu não apenas sou raso: sou também inculto - nas árvores da minha floresta ninguém há de bater o machado, nas terras das minhas carnes ninguém há de fincar suas enxadas, ninguém há de arrotear-me, plantar em mim suas daninhas, afundar em mim suas raízes, viver da minha terra, posto que o ribeiro raso corre em terra inculta, chão selvagem e inóspito - morada, todavia, da ninfa dos pés mimosos, náiade fantástica, canela do meu tronco, fada feérica, ent mitológico da floresta inculta - Bel. Para ti, donzela, a floresta selvagem faz-se romântico recanto.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio