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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

(2009/647) História dos efeitos no pop rock - REM e "Losing my Religion"


1. Losing my Religion é uma música extraordinária. O vídeo nem se fala. Não vou comentar muito, porque, ao final, remeto o leitor a um texto muito esclarecedor. Preste-se atenção à letra, observe-se o vídeo do Gregorian, grupo que regrava, em estilo gregoriano, clássicos do pop rock. Certamente, uma "idéia" a respeito da música/letra há de se formar, acentuada pela tradução literal de "losing my religion"... É como o Sl 53, que começa assim: "diz o insensato em seu coração - não há Deus", e, contudo, nada, absolutamente nada, tem de ateísmo...

2. Primeiro, os dois vídeos, começando pelo R.E.M., uma de minhas músicas prediletas. Depois, o Gregorian.




3. Agora, depois do prazer de ouvir as duas versões, atente-se para o seguinte comentário, recolhido junto ao blog Pensão Estrelinha:
Este vídeo sempre me fascinou desde o 1.º momento em que o vi, teria eu cerca de 13 ou 14 anos. A música faz parte do álbum Out of Time, de 1991, e durante muito tempo pensei que fosse uma espécie de confissão pública de Michael Stipe, um icréu, atormentado pela perda de fé. Nada disso! Afinal, como ele próprio disse, a expressão “losing my religion” é muito usada no Sul dos Estados Unidos e que significa “perder a cabeça”, “perder o juízo”. Stipe diz que se trata de uma música sobre alguém que deseja outra pessoa, mas não é correspondido. Nessa medida, trata-se de uma música sobre uma obsessão, daí que ele próprio a tenha comparado a “Every Breath You Take” dos The Police. E lendo bem a letra, não há muitas dúvidas!O vídeo é, para mim, extraordinário! Foi realizado por Tarsem Singh (sim, o mesmo do indescritível filme The Fall) cuja ideia era fazer algo com um estilo semelhante ao dos filmes indianos, com uma atmosfera um pouco melodramática e onírica. O vídeo está povoado de imagética religiosa, destacando-se a figura da São Sebastião e de várias divindades hindus. O conceito do qual partiu o vídeo é baseado no conto de Gabriel Garcia Marquez, Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes, que narra a história de um anjo caído dos Céus e que é explorado pelos Homens que o exibem por dinheiro. Tarsem inspirou-se também nos quadros de Caravaggio, no que toca aos contrastes de luminosidade que vemos no vídeo, e na arte soviética. Ainda hoje, fico impressionada ao vê-lo. E, devo dizer, em jeito de confissão, que no início da minha adolescência achava a dança descoordenadamente coordenada de Michael Stipe extremamente atractiva. (Enfim, era uma miúda, mas já na altura me deslumbrava mais pelas características artísticas e criativas do sexo oposto, do que pelas características “abdominais” e “bicepais”!). O vídeo foi nomeado para 9 categorias nos MTV Video Music Awards em 1991 e ganhou 6 (Video of the Year, Best Group Video, Breakthrough Video, Best Art Direction, Best Direction, and Best Editing).

4. Viu? A letra, em si, nada tem a ver com "perder a fé"... Trata-se de outra coia, de outra expressão. Esse é um bom flagrante de "história dos efeitos": na maioria das vezes, dos "defeitos". Assim, se você quer fazer de Losing my Religion uma música contra-religiosa, vai em frente. Não fizeram do Antigo Testamento um livro cristão? Não quero crer que Deus esteja esquentando a cabeça...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 30 de abril de 2009

(2009/234) Da esperança que se desacostuma a esperar


1. O Sl 53 não tem nenhuma relação com o ateísmo contemporâneo, tão-pouco se refere a uma "humanidade" ou a uma "cristandade". Em termos histórico-sociais, trata-se da denúncia apresentada contra os benê-adam, os "filhos de Adão", grupo social constituído pelo rei de Jerusalém, acompanhado de todo o sistema de governo da cidade (aparato militar, religioso e burocrático). O insensato ou desajuizado do v. 1, aí, é o rei, o mesmo "tu" do v. 5 - o chefe da canalha...

2. A denúncia apresentada dá conta de que, em lugar de "apascentarem" o povo - vale aí a metáfora próximo-oriental do rei como "pastor" - o rei e seus oficiais devoram o povo. Esse povo, ele, sim, é chamado de "meu povo". É o "meu povo" que o rei devora...

3. A opressão que o rei exerce sobre o povo é contínua. Todo dia, o dia inteiro. Do v. 1 ao 4, essa é a crítica. No v. 5, o salmista (profeta?) remete a lembrança do ouvinte até o dia do cerco de Jerusalém (o rei, o obreiro da injustiça, será Ezequias?), quando os benê-adam, achando que iam morrer, apavoraram-se - sem razão, alega o salmista, porque Deus destruiu o exércio sitiador. Assim, o rei ficou envergonhado, já que Deus rejeitou o inimigo e poupou a cidade - e, com ela, também o seu próprio rei.

4. Aí está a questão. No v. 6, final, o salmista conclui com uma nota de esperança desesperançada. Ele sabe que de Sião, isto é, Jerusalém, vêm opressões. Ele, então, se expressa assim: "quem dera de Sião viessem as salvações de Israel...". É, quem dera! Mas não vêm. Vêm, ao contrário, as opressões - é o "pastor" quem as envia...

5. Essa esperança desesperançada faz-se seguir por uma consciência da solução: "quando Deus mudar a sorte d seu povo", isto é, quando a situação mudar, quando o povo, que está embaixo, oprimido, ficar por cima, como aquela esperança de Ana (1 Sm 2) e do Sl 113, que afirma que o Senhor ergue o pobre do monturo e o faz assentar-se com os príncipes da terra. Só nesse dia, Jacó celebrará.

6. O salmista sabe que Deus pode mudar a sorte do povo. Basta que ele queira. Por outro lado, não está muito seguro de que as coisas mudem - "quem dera!"... Triste situação: o convívio com a injutiça, com a leniência, com a covardia, com a opressão, às vezes, causa indignação e furor profético. Outras vezes, desesperança. Nos dois casos, reconhece-se que Deus pode fazer o que precisa ser feito. A diferença é que a desesperança está sobremodo desesperançada: os pobre, ah, os pobres, eles sempre estarão entre vós... conquanto Deus pudesse fazer algo a respeito... Talvez por isso haja quem prefira cantar que quem sabe faz a hora, porque a hora do "quem dera!" pode ser essa, agora...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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