segunda-feira, 14 de novembro de 2016

(2016/122) Só se não se tratava de literatura


Se os textos da Bíblia foram produzidos como literatura, não me interessam. Se quem os escreveu estava elaborando peças semanticamente abertas, textos sem nenhum sentido específico, sem nenhuma mensagem própria, caixas de sentido, esperando que algum gênio da literatura os viesse atualizar, então, juro pelos deuses, nunca mais leio uma linha sequer, porque texto de literatura bíblica algum chegará aos pés de duas horas de The Witcher 3...

Só me interesso por textos da Bíblia Hebraica, porque os considero instrumentos de intervenção social. Para mim, são como ancinhos, enxadas, pás, martelos, garfos e facas, instrumentos de uso específico, que se pode até aproveitar para algum uso desviante, mas foram produzidos para uma função determinada e certa. Para mim, um texto bíblico é um instrumento que alguém escreveu para com ele fazer pessoas fazerem cisas, deixarem de fazer coisas, pensarem coisas ou deixarem de pensar coisas.

Não me interesso pela criatividade do escritor, pela beleza do texto - interesso-me pelas relações histórico-sociais entre quem os produz e as pessoas a quem seu uso se destinava. Como instrumentos de intervenção social, escritos para tentar controlar a vida de pessoas, seus efeitos ainda estão presentes, tanto neles quanto na esmagadora maioria indiscutível de quem os instrumentaliza nos espaços religiosos: descortinar sua intenção genética, descobrir para que foram escritos, é, para hoje, uma tarefa de defesa e denúncia. O resto é aproveitar-se da instrumentalização intrínseca que os caracteriza...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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