terça-feira, 31 de março de 2015

(2015/364) Meu problema com a insistência próximo-estruturalista do conceito de gênero literário agregado à exegese

Bem, eu não acho que o conceito de gênero literário seja o ponto de partida para análise de textos. No máximo, no máximo, para definir o regime retórico, já que gêneros mais próximos do fantástico tendem a autorizar um exagero de linguagem figurada. Para mim, o gênero literário é útil enquanto conceito de grade instrumental, que o escritor usa de acordo com a autonomia dele, autor.

Confundir deliberadamente, epistemologicamente, conteúdo e forma, meio e mensagem, me parece estruturalismo ou descarada ou dissimulado. Nenhum escritor se submete absolutamente a uma grade/gênero literário. Ele o usa. Mas se você inverte os termos, então quem usa o escritor é o gênero - o que me parece um equívoco enorme...

Não começo exegese a partir do "gênero". Quando alguém o faz, acaba por aprisionar o encaminhamento do exercício dentro da estrutura que o gênero pré-determina... Tudo será enfiado dentro da categoria do gênero. E mesmo que se pretenda depois alguma liberdade do escrito, é a liberdade da mosca dentro do tubo de ensaio: não é verdadeira liberdade...

Um exemplo: quando se começa a tratar Ezequiel, Zacarias, Malaquias, dentro do "gênero literário" profético... Pronto. Já se passa a pensar essa literatura a partir do leito "profético" que, em si mesmo, já não é um movimento, mas vários. Pior - o exemplo clássico do "gênero profético" - Amós - nega ser profeta! Mas mo gênero é profético!

Para além desse problema terminológico há outro pior: nenhum dos três senhores citados acima é profeta. Seus livros são sacerdotais e eles mesmos são sacerdotes. Mas o gênero é "profético"? Não vejo utilidade nisso...

Vejo, todavia, utilidade em se perceber que os escritores desses livros emulam a fala de um "profeta", querem se fazer passar por profetas - e isso nada tem a ver com o gênero, mas com o contexto em que eles vivem, sua intenção, seu jogo político.

Ou seja: importa a vida por trás do papel. E tudo quanto do papel se há de tirar - se o exercício é histórico-social - estará inexoravelmente ligado ao seu momento de produção, à intenção de quem o escreveu como instrumento de intervenção social.









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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