domingo, 27 de outubro de 2013

(2013/1247) Sobre Gálatas 3,13 - maldito o que for pendurado no madeiro


As doutrinas que o Novo Testamento esboça e que, mais tarde, se transformarão em dogmas pelos quais já se matou e, pelo andar da carruagem, se mataria de novo, são, arrisco dizer, todas, fruto das circunstâncias...

Nasceram aleatoriamente, no calor da batalha retórica entre grupos em conflito no campo judaico. Organizados em "bando", em torno do tema tradição e Jesus Cristo, os grupos se autocriticavam constantemente, cada lado anulando a fala do outro e valorizando a própria fala, mas num jogo próprio da cultura próximo-oriental: usar o que o outro fala contra ele mesmo...

Assim, a cada crítica recebida, reagia-se não com base no próprio objeto em discussão, mas usando a crítica como tijolos, construindo, com ela, um degrau, sobre o qual se sobe e se ganha o round, a batalha. A guerra se ganha quando não há mais como o outro grupo criticar...

Não se faz teologia de academia aí, nem teologia de cartilha, nem teologia de catequese - é puro enfrentamento sócio-político, o "novo" sendo criado da dinâmica do enfrentamento, minha munição sendo preparada com as balas que o outro dispara contra mim...

O ponto zero, eu acho, para a teologia cristã foi a cruz. A tradição afirma que é maldito todo o homem que é pendurado no madeiro. Não é à toa que a citação esteja em Gálatas, uma das cartas mais polêmicas do NT - Paulo em luta aberta contra os judeus (de Jerusalém, provavelmente).

O lado não-cristão alega que Jesus é maldito, porque foi pendurado no madeiro. Os cristãos reagem e, não podendo negar a tradição, contornam-na: como ele pode ser maldito e messias ao mesmo tempo?

O cheiro do sacrifício do altar de Jerusalém lhes deu a resposta criativa: ele foi maldito por nossos pecados, ele é o Cordeiro - e lá se foi a índole contra-sacerdotal de Jesus para o saco...

O que importa é que o grupo vença: se, vencendo, continua se afirmando, é o que vale... Se vai dizer coisas novas, nada relacionadas às origens, tanto faz. Não é a origem que importa: é vencer a batalha campal...

É assim até hoje...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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