sexta-feira, 4 de outubro de 2013

(2013/1154) Sobre Karl Jaspers e uma "bronca" que ele dá na Sociologia e na Psicologia - isto é, em Marx e em Freud


Essa história termina de modo divertido. E quem acabará sendo troçado é o próprio Jaspers. E por mim. Em uma série de TV, Jaspers fala sobre Filosofia e seus temas. Em uma das conferências semanais, elege Marx e Freud para criticar - e os critica a partir da sua caricatura: discípulos que lhes tomam por neo-deuses. Fica fácil, óbvio, desmontar "Marx" e "Freud" e, como troco, em cédulas de 100 reais, dar à "Filosofia", o tom de soberana crítica...

Até aí, vá lá. Há, mesmo, discípulos fundamentalistas que, em lugar de ouvir e analisar, criticamente, os "mestres" tagarelam discursos robotizados, fazendo, assim, de seus mestres, idiotas, tanto quanto eles mesmos. Quem, todavia, a partir dos tolos discípulos robotizados, cuidará estar analisando os mestres, bem, parece faltar-lhe um dedo de boa vontade - ao menos...

Seja como for, depois de desmontar os pobres rapazes recriados pela memória programática da conferência, Jaspers me sai com essa: "nem a psicologia nem a sociologia dispõe de fundamento científico próprio" (p. 91). Quando li essa declaração, gostei. Já o imaginei a antecipar Morin e, ainda mais, Jerome Barkow, a exigir que as ciências (e também a Filosofia, Jaspers!), sejam mutuamente compatíveis, de modo que não haja (e não há) uma verdade que o seja para uma ciência, mas não o seja para outra.

O fundamento das ciências é o real e as respectivas metodologias de acesso ao real - inclusive, os procedimentos teórico-metodológicos de abstração desse real na forma de modelos mentais, com os quais se pode operar à distância, mas sem perder de vista, nem por um segundo, o real. Assim, resta óbvio que uma ciência não pode inventar para si um fundamento científico que lhe seja exclusivo e que, por isso, faça dela uma mônada de verdades incompatíveis com quaisquer outras.

Todavia, depois dessa claríssima revelação teórico-categórica, eis a declaração que Jaspers fará: "Quem se dedique a pesquisas em tal campo deve possuir treinamento científico especializado, seja em filologia, história, direito, fisiologia, medicina, teologia ou qualquer outro setor. Sem tal base, a pessoa se perderá em parolagem vazia" (p. 91).

Eu li "teologia" aí? Tem certeza? Melhor checar de novo: "te-o-lo-gia". Sim, está escrito "teologia". Formidável. Para admoestar sociólogos e psicólogos caricaturados, Jaspers sapeca a... teologia (por exemplo) como um dos exemplos de formação "científica" necessária a todo aquele que deseje se dedicar às reflexões sociológicas e psicológicas.

Como assim? Em que mundo vivia Jaspers? Ah, talvez o mundo dos bunkers universitários europeus, em que a teologia é magna teoria - há séculos... Tudo bem, cada qual pensa como quer, mas, cá entre nós, receitar teologia para corrigir erros (caricaturados) de sociólogos e psicólogos é receitar loucura a quem tem toques!

Em que planeta aprende-se ciência - mesmo - para se fazer Teologia? Aprende-se (quando se aprende) ciência para combatê-la a partir da Teologia ou, os mais moderados, para encontrar ali dentro um quartinho que se possa alugar para Deus...

Para ser honesto, Jaspers deveria ter colocado a teologia junto com a caricatura que fez da sociologia e da filosofia. Entretanto, se é para lidar com caricaturas, podia ter feito desenhos grotescos da história e tê-la colocado com as três irmãs deformadas. Até a medicina, a fisiologia, o direito - ah, o direito! Todas essas "ciências", se caricaturadas, podem sentar ao lado das caricaturas de Jaspers...

A teologia, todavia, não precisa de caricaturas para sentar-se lá: basta abrir a boca e falar de Deus...

(...)



[acréscimo de 06/10]


Jura que eu perdi meu tempo para ler Karl Jaspers dizer que a ideia do Deus único agrega e une as pessoas e a ideia politeísta desagrega?! Jura?! Mas eu sou um desinfeliz completo mesmo! Vou ali meter a cabeça na parede três vezes, em homenagem ao Deus-único-que-é-três... Haja, viu, haja... Devia ter parado quando ele desancou Marx e Freud - não podia dar em boa coisa...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Karl Jaspers, Introdução ao Pensamento Filosófico. Cultrix, p. 91.

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