quarta-feira, 11 de setembro de 2013

(2013/1051) Eternos, só meus átomos: viver e ser feliz por três minutos


Eu sou multidão...

Nenhuma referência à resposta do endemoninhado... Eram poucos ali dentro. Em mim, há bilhões de coisas. Nenhuma nuvem de diabos se compara aos seres que há em mim...

Minha consciência tem quase um lustro - e, talvez daqui a outro lustro, ela se apague, como a vela, quando chega ao fim o combustível de cera...

Eu, essa consciência que eu sou, tenho pois, enquanto essa consciência, metade de um século. Mas eu, enquanto a soma dos seres que sou, bilhões de átomos, tenho uma história de bilhões de anos...

Eu, essa abstração consciente que sou, viva e pulsante, tenho muito pouco tempo, muito pouco mesmo, para viver. Eu, esses trilhões de pequenos seres que sou, tenho todo o tempo do Universo..

Dependendo, pois, de como eu me olhe a mim mesmo, posso ver-me como esse eu-bilhões-de-seres e esse eu-uma-consciência-datada-e-finita. 

Encaro-me como essa consciência que escreve aqui e agora. Ela sabe que vai acabar dentro de alguns anos. Ela não guarda ilusões de eternidade (quem sabe, seja ela surpreendida?). Ela, pois, quer viver. Ela, pois, quer falar. Ela, pois, quer expressar-se...

Eu sou o inverso do que é um budista. Ele está certo - o Budismo está certo: a consciência é um epifenômeno, uma fagulha a saltar, por segundos, da fogueira do Universo. Ela acende e apaga, e não sobra nada mais... Eu aceito essa leitura da vida. Mas não aceito as implicações que o Budismo tira daí - recusar-se a assumir essa fatuidade, essa vaidade de vida, esse brevíssimo instante... Pelo contrário: é ele que sou eu, e, a despeito do sofrimento de o saber, é isso que assumo...

Assim, viverei sem negar-me, mas assumindo-me - até à cova, serei eu, querendo ser eu, agarrando-me a mim mesmo.

Quado eu tiver partido, e partido for meu corpo em trilhões de pequenas fadas, não será mais eu, mas a narrativa física do Universo - e eu terei terminado.

Por isso, enquanto não termino, vivo; enquanto vivo, me assumo; enquanto me assumo, sofro - mas, enquanto sofro, amo desesperadamente esse estado fortuito, essa graça, essa dádiva de amar e ser feliz por três minutos...





OSVALDO LUIZ BEIRO

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