domingo, 17 de março de 2013

(2013/269) Sobre o diálogo possível à fé


No espaço público, guardar a própria fé para si é demonstração civilizada de respeito ao próximo.

Ao contrário, a manifestação programática da fé em público traduz a consideração do outro como caça e objeto de conquista, agravada pelo radical desinteresse, por óbvio, quanto ao que o outro tenha de valor religioso em si mesmo - ele é a priori e categoricamente reduzido a vazio.

Para mim, a única oportunidade ética de se tratar de fé é em diálogo - o que pressupõe, sem artimanhas missionárias de disfarce da operação de conversão em operação de "amor", na abertura verdadeira para o conteúdo do outro - sua fé, seus deuses, seus credos.

De um ponto de vista ético, se eu não estou honesta e visceralmente interessado nesses conteúdos, a ponto de arriscar-me a aderir a eles, não devia falar de minha fé com ninguém, porque, se não estou disposto a abrir mão da minha fé em benefício de outra fé, por meio de que valor humano penso que posso propor a alguém abrir mão da sua fé em benefício da minha?

Ora, se a minha própria fé me diz que não posso fazer a ninguém o que não quero que ninguém faça comigo - e mais ainda, que devo fazer a todos o que desejo que todos façam comigo - como posso pretender agir com eles de um modo que não quero que eles ajam comigo?

E ainda tem gente que acha que o nome que deveríamos dar ao monoteísmo bíblico é "monoteísmo ético-profético"...

Não, meus amigos - ele não é nem profético nem ético.

Nem ele, nem nós.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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