domingo, 17 de março de 2013

(2013/268) Da impossibilidade da fé monoteísta conviver com a fé não-monoteista - da megalomania insuperável da fé pantofágica


1. Está na moda falar de Teologia Pública. Há livros aos montes falando dela.

2. Eu tenho muitas suspeitas sobre ela. Muitas. Sem generalizações, temo que ela seja a velha teologia, mas com nova retórica - o modo como a religião (cristã!) encontrou de virar o jogo contra a segregação laica - "ei, eu tenho direitos!", ela grita...

3. Mas é só uma suspeita e, ainda assim, não a posso, impunemente, aplicá-la a todos.

4. O que eu quero dizer é da impossibilidade da fé monoteísta conviver com outras.

5. Se um politeísta vai em praça pública e diz que seu deus lhe fez isso ou aquilo, ele está falando de si. Isso não tem implicações políticas, éticas ou morais sobre quem quer que seja, salvo ele mesmo.

6. Um cristão, todavia, quando vai a público e se pronuncia em nome de "seu" deus, na cabeça dele ele não se pronuncia em nome de "seu" deus, mas em nome do "único" deus, diante do qual todos os homens e mulheres devem se curvar e diante do qual todos os demais deuses tornam-se mentiras, quado não, demônios.

7. Há uma impossibilidade ética insuperável no monoteísmo - porque não é um defeito do monoteísta, mas a característica da própria estrutura dessa fé pantofágica, que tudo come, que tudo enfia na goela e no bucho.

8. Não há cura possível para isso.

9. Duas alternativas:

a) ou se trata o monoteísta sob controle severo, recolhido ao gueto da fé - como se pretendeu após as revoluções burguesas/iluministas dos séculos XVIII e XIX;

b) ou se acaba definitivamente com a fé monoteísta;

10. No primeiro caso, não adiantou - depois de algumas décadas, lentamente a religião - cristã! - volta a aproximar-se do poder político. Ela quer, de novo, o mundo. Esse é o problema do controle: a coisa controlada não se transformou e, na primeira oportunidade, volta ao seu projeto de poder - o mundo tem que ser de Deus...

11. No segundo caso, apenas um trabalho crítico-pedagógico de décadas, talvez séculos, pudesse reverter a neurose monoteísta - sim, é uma neurose, uma patologia filosófica, convertida em fé religiosa e vício psicológico.

12. Assim, durante muito tempo, teremos de administrar a fé monoteísta, proteger-nos, à sociedade e aos próprios monoteístas, vítimas-cúmplices de sua psicopatia político-religiosa. E ética.

13. Tal tarefa demanda atenção constante, espírito crítico e de vigilância - e não apenas no nível pessoal, mas, inclusive, no nível das autoridades públicas...

14. O que nos leva a um ponto de ainda maior risco: num quadro desses, que futuro nos reserva o interesse cada vez mais acentuado da política nos dividendos de poder que a manipulação político-eleitoreira dessa fé monoteísta? Se quem deveria operar de modo mais sistêmico a vigilância torna-se o grande interessado na inflamação dessa glândula, não se dá sério risco de sepsemia?





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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