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sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/167) A Fonte do Dragão


1. Em Neemias 2,13, há uma referência a uma Fonte do Dragão (em hebraico, 'ên hattannîn), em Jerusalém:
"e, de noite, saí pela Porta do Vale, para a banda da Fonte do Dragão e para a Porta do Monturo, e contemplei os muros de Jerusalém, que estavam fendidos, e as suas portas, que tinham sido consumidas pelo fogo". Isso é muito curioso, porque há muita gente que se sente verdadeiramente ofendida, quando se diz que há mitos na Bíblia. Ora, uma "Fonte do Dragão" não pode ser outra coisa que não um mito...

2. Bem, sim e não. A fonte em si é bem real (cf. mapa abaixo). A forma de designá-la é que, aí sim, faz-se por meio do recurso ao mito. E um mito muito interessante...

3. A biblioteca David Malta Nascimento, do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (Faculdade Batista do Rio de Janeiro) possui muitos livros do início do século XX, trazidos para o Brasil pelos missionários estadunidenses que construíram as instalações. Dentre tantos livros, muitos são de arqueologia - disciplina que, entre o final do século XIX, e início do XX, explodia em fama. Eram dias em que ainda se julgava que, cavando-se a terra da Palestina, as narrativas bíblicas, que as novas ciências iam pondo dia a dia em dúvida e descrédito, revelar-se-iam veríficas.

4. Num desses livros, já muito amarelado pelo tempo, comenta-se sobre essa fonte, e especula-se que ela tenha surgido quando da ocasião de um terremoto, como um daqueles a que se refere Amós 1,1. O terremoto teria provocado o surgimento de uma fonte nova, inexistente antes dele, de modo que, assim, a nova fonte teria recebido o nome sugestivo de Fonte do Dragão. Uma imagem estilizada tanto da própria fonte, quanto de sua localização, pode ser observada na imagem abaixo que, se clicada, remete o leitor a um mapa de Jerusalém, dado como de 1650.

5. Por que Fonte do Dragão? Porque os povos todos do Oriente Próximo Antigo, incluídos aí judeus e israelitas, criam num mito cosmogônico - mito de "criação do mundo" - muito peculiar. No início, o(s) deus(es) criador(es) lutaram contra um dragão aquático e o venceram. Com seu corpo, criaram a terra e o céu. Assim, sob os pés dos homens, lá embaixo, nas profundezas da terra, jaz o corpo do dragão. De vez em quando, ele se mexe, sacode o corpanzil, e, nessas ocasiões, a terra, que ele sustenta, também sacode. Uma vez que a terra tremeu em Jerusalém, e a fonte jorrou, nada mais justo - eis, brotando, a Fonte do Dragão... Na Bíblia, referências diretas ou indiretas a esse mito podem ser lidas em Is 27,1; 51,9; Jr 51,34; Jó 7,12; Sl 74,13, por exemplo.


6. Penso que, por esses dias em que vivemos, o Dragão está um tanto quanto agitado. Mexeu-se há algumas semanas, e destruiu completamente a capital do Haiti. Agora, mexeu de novo, e arrasou o centro-sul do Chile, num terremoto de 8,8 graus na escala Richter. O Dragão está tentando se soltar... Aliás, para sermos honestos, não há dia em que ele não se mexa... Um dia, contudo, ele há de mexer com tanta força e violência, que talvez não sobre nenhum de nós para contar a história.


7. Por outro lado, talvez não seja o caso. Talvez os mitos não estejam de todo certos. Talvez os dragões não sejam os inimigos. Talvez seja, afinal, um Dragão a guardar nossa Galáxia!







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Ih...! Se Pat Robertson descobre esse mito, aí que vai ter pruridos de ir a público para afiançar, evangelicamente, que o Haiti tem um pacto com o diabo, e, o Chile, com o Dragão...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

(2010/087) O que não perdoamos em Pat Robertson



1. O pastor evangélico estadunidense e fundamentalista (nem sempre os dois termos são sinônimos), Pat Robertson, afirmou que o terremoto do Haiti tem a ver com um pacto "histórico", história real, ele, diz, entre os haitianos e a diabo, no início do século XIX, aceitado e ratificado pessoalmente pelo demônio, cuja parte no acordo era livrá-los dos franceses - o que fez! -, e cujas palavras, proferidas na ocasião, delas ainda se lembra o reverendíssimo, tanto que as cita, e, agora, todos as conhecemos. Você, com um pouquinho de espanhol e/ou inglês, pode ler/ouvir o servo de Deus, amantíssimo, dando-nos a saber do fato, certamente revelado a ele pelo Espírito Santo, que tal privilégio têm os servos de Deus:


2. Está-se diante da união perfeita entre misericórdia e verdade, não? De um lado, o candente amor evangélico pelas almas - também dos haitianos - e, de outro, a baba komodiana da verdade condenatória, própria da alma evangélica e protestante, cristã, é verdade (se Deus não vive sem o Diabo, os evangélicos não vivemos sem o pecado e a condenação!). Conquanto seja nauseabunda, sua figura e fala é plenamente compreensível, porque, se cada cristão puser a mão na consciência, cada um é um Pat Robertson - e não em potencial, mas em pessoa, conquanto maquiado...

3. Não? Fico confuso, então... Não é a interpretação cristã de Gênesis que põe a humanidade inteira, personificada em Adão e Eva, a dar ouvidos, a negociar, a pactuar com o Diabo, personificado, agora, na serpente? Não é ali o Diabo a prometer a Adão e Eva o "conhecimento do bem e do mal", a fazê-los "como os deuses"? E eles não "toparam"? Não é a teologia cristã, toda, que quase entra em êxtase homilético ao afirmar que cada ser humano jaz sob o Diabo, é mesmo seu irmão e filho, desde a concepção, por causa do "acordo" de traição" prefigurado lá no Éden? Não é a teologia cristã, boníssima, amantíssima, cardíaca!, que ensina o pecado original, gerado teologicamente no ménage à trois entre Adão, Eva e Satanás, e reencenado na cópula humana, de modo que sêmen e óvulo, quando se unem, produzem um pequeno diabo desde sempre desgraçado?

4. Ah, sim, a misericórdia divina (n)os salva dessa condição - histórica e real (outra vez, coincidência entre nossos termos, cristãos, e os de Pat Robertson). Disso todo bom cristão fica sabendo. Mas, se você ouvir bem a fala do pastor amoroso, também ele o dirá, conclamando amor e orações sobre o povo haitiano, coitado... Pat Robertson está com o coração quebrantado pelo sofrimento do povo do Haiti, como todo bom cristão condói-se da condição geral humana - ao mesmo tempo em que ambos sabem e ensinam e pregam e anunciam que são todos culpados pelas suas próprias desgraças, porque deram ouvidos - o corpo inteiro! - para Satanás. Alguém vê diferença? Talvez seja necessário limpar os óculos...

5. Será que não nos damos conta de que não faz lá nenhuma grande diferença apontar para um povo - "fez pacto com o diabo!" - e para a humanidade toda - "o mundo jaz no maligno!"? Será que cuidamos que somos melhores do que Pat Robertson, porque nossas palavras são floridas? Qual a diferença entre Pat Robertson e o professor de "inculturação da fé", que me ensina, de um lado, Clifford Geertz e, de outro, a levar a fé - só a fé, ele diz - aos povos não alcançados, todos, sem exceção, perdidos no diabo? Não me forcem a dizê-lo!

6. Eu tenho diversas vezes dito que não vejo diferença nenhuma entre evangelicais - nome pomposo! - e fundamentalistas. É tudo a mesma coisa. A única exceção é a dissimulação. Nisso, Pat Robertson tem muito que aprender conosco, coitado... No fundo, no fundo, o problema de Pat Robertson é que ele não entende nada, nada, de marketing, e, então, diz as nossas mesmas e velhas verdades, mas de um jeito indisfarçável, que quase não dá pra comprar... É isso que não perdoamos nele.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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