sábado, 24 de janeiro de 2015

(2014/115) Dois pesos e duas medidas - no próprio pode, no de terceiros, não sobra má fé ou falta percepção?

Compreendo e avalio positivamente a decisão profissional/técnica de alguém em dedicar-se à história da recepção de textos, e não pelo seu sentido histórico original e os efeitos político-retóricos que lá ele então produziu... Não é de meu interesse imediato e direto essa história dos efeitos, mas eu considero útil e procedente a tarefa.

Considero legítimo o desejo de alguém, por circunstâncias do curso a que está vinculado, dos orientadores, essas questões político-institucionais que acabam determinando os gostos e a vida acadêmica de alguém, interessar-se, dedicar-se e criar argumentos retóricos para a atividade de pesquisa sobre a história dos efeitos de um texto...

Agora, considero completamente despropositado, sem nenhum fundamento e, em certo sentido, um tanto quanto desleal, defender a pesquisa da recepção de um texto argumentando que o seu sentido histórico-original é inalcançável...

Poderia dizer muita coisa quanto a isso, mas direi uma só: se o sentido histórico original de um texto, que texto é, é inalcançável, que mágica fazem os pesquisadores da história da recepção para descobrirem o sentido que esse mesmo texto ganhou há 500 anos, já que ele ainda continua sendo... texto?

Eu confesso que sinto constrangimento quando isso se dá, porque lembro-me do que aquele famoso indígena escreveu sobre os cristãos: arrancaram nossa flor para que a deles brotasse. Parece que tem pesquisador que, para ter seu jardim, acha que precisa pisar o dos outros...

Tolice.

Se posso saber como Agostinho lia Paulo em sua época, então posso saber o que "Paulo" dizia na época dele. Ponto. Se não posso saber, pelo texto de Paulo, o que Paulo dizia, então, meus amigos, vamos todos trabalhar em outra coisa, porque também o texto de Agostinho não pode ser alcançado por nós: salvo, claro, se o que de fato está dito é que você sabe e pode, os outros, não...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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