quinta-feira, 19 de junho de 2014

(2014/632) Agradecer a Deus (e) (é) agradecer ao ladrão


Não espere lógica ou coerência de raciocínio na prática popular da religiosidade, espiritualidade, fé ou qualquer coisa. Não espere, para não se frustrar. Ele crê em um Deus que tudo pode. Aí, o assaltante rouba o carro, leva a mulher do cara junto, saca o dinheiro todo que a família tem no banco, fica rodando com a mulher, sem destino e sabe-se lá pensando fazer o que, pela madrugada, depois de muita ameaça psicológica, abandona-a em uma autoestrada, e a polícia a encontra, uma hora depois...

O sujeito, então, vem no Facebook para agradecer a Deus o livramento...

Deixa eu ver se entendi.

Deus é todo-poderoso, ele diz.

Podia ter evitado o assalto.

Não o fez.

Podia ter livrado a mulher de ser levada.

Não o fez.

Podia ter livrado o roubo do dinheiro.

Não o fez.

Podia ter feito o marginal libertar a mulher logo que pegou o dinheiro.

Não o fez.

Podia ter evitado que ela sofresse ameaças psicológicas, e sabe-se lá mais o que.

Não o fez.

Podia ter feito o que quisesse.

Mas o bandido é que fez o que queria.

E ele vem agradecer - pelo quê?

Eu entendo a lógica dele: é uma lógica ilógica. Tanto faz ele agradecer a Deus ou ao bandido, dá na mesma. Obrigado, marginal, por ter apenas roubado o carro, levado minha mulher, roubado o dinheiro, ameaçado minha esposa e sabe-se lá mais o quê, mas muito obrigado por você não a ter estuprado nem matado...

Aplique a mesma oração a Deus.

É disso que se trata.











OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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