domingo, 13 de abril de 2014

(2014/170) E "o teu trabalho é descansar em mim"...


Pelas ruas de Goiânia, caminhando para o hotel, raios poderosos nos céus que, dizem os mitos, os deuses - tantos deuses! - fizeram, pensando na dificuldade da vida, na solidão que a vida é, tantas vezes, vem a mim, desde imemoriais eras, a antiga canção: " é meu, somente meu, todo o trabalho, o seu trabalho é descansar em mim", e me pego cantarolando por dez metros e meio...

Então, paro de cantarolar e sorrio, olhando ao redor, a ver se alguém me flagrara em gritante constrangimento...

Como assim? Como eu posso dizer uma bestialidade dessas...? Todos esses famintos do mundo, abandonados por Deus, sem que por eles ele trabalhe, e eu cantando esse perversão ética e teológica? Posso eu crer que Deus trabalhe para uns e não para outros? Pior - posso eu querer isso? Que no dia em que eu pensar assim, os raios do céu me devorem a carne...

Somos nós, sozinhos, é a sorte de ter nascido em berço fácil, é a sorte dos encontros da vida, são os acasos, é nosso trabalho, é a injustiça da vida e nada mais do que isso...

Deixo a velha canção em um banco do caminho, e percebo que estou irremediavelmente imprestável para encantamentos e alienações religiosas...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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