quarta-feira, 2 de abril de 2014

(2014/117) Vitória/ES, presídios, evangélicos e uma conversa muito triste


Uma conversa angustiante com o futuro mestrando da Faculdade Unida, Carlos Maximiliano - dessas conversas que deixam a gente frustrado, pra baixo, mas, ao mesmo tempo, considerando que a crítica que costumeiramente faço e, todavia, insistentemente recalcada pelo "estabelecimento" tem procedência...

Policial. Seis anos na força militar. Segundo Carlos, 90% de todos os presos com que já lidou nesses seis anos estão diretamente ligados à tradição evangélica - mormente, mas não exclusivamente, Assembleia de Deus. Nenhum outro religioso, ele me disse. Só evangélicos. Ricardo Quadros esteve aqui na semana passada, Carlos teria comentado com ele esse fato, e Quadros teria dito que conhece a proporção de evangélicos nos manicômios, mas, em presídios, não...

Depois, uma informação ainda mais triste, mas, nesse caso, carente de mais materialidade. O ES é o Estado campeão em violência doméstica contra a mulher. Perguntei a ele se tem informação do percentual de evangélicos nesse contexto e, desgraçadamente, eis o que ele me diz: bem, Osvaldo, conheço vários casos, mas a mulher evangélica não denuncia - faz parte da espiritualidade da mulher evangélica considerar que o fato de ela estar com o marido o salva, de algum modo, então, ele pode quebrar-lhe a cara, literalmente, que ela não denuncia...

Não tenho palavras...

Carlos Maximiliano tentará perseguir uma hipótese no mestrado - mas, a rigor, é mais uma tese. A heteronomia religiosa evangélica no campo da Ética faz com que o sujeito, quando se torna adulto e vai para a vida, não tenha construído uma estrutura ética própria e, então, mete-se com drogas, roubo, violência... Parte-se, aí, para argumentos mais complexos. 






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Allison Duarte disse...

Dados muito interessantes!Tem de se ter cuidado pra não abordar isso moralmente. Que a confissão evangélica é incapaz de fornecer alguma autonomia ética estamos fartos de saber também pelos exemplos de religiosos bem-sucedidos como alguns políticos e pastores.Há que se ter em vista os problemas de conflitos de classe internos ao legislativo e judiciário. Sabemos o quanto o sistema prisional não afeta igualmente as classes altas e baixas. E sabemos o quanto as classes baixas são os usuários privilegiados de igrejas como Assembléia de Deus. Por ex. moro num bairro da região metropolita de Fortaleza, um dos mais violentos. Maracanaú, e igualmente um dos mais evangélicos. Todos aqui em sua maioria já tiveram alguma passagem por igrejas pentecostais. Gente como eu e outros amigos aprenderam a gostar de ler lendo a Bíblia, e mesmo pobres foram dar numa vida acadêmica. Outros, que por ex. foram do conjunto de adolescente que eu liderava foram assassinados por traficantes ou traficam. É complicado. Penso que considerar a pobreza, que não é acidental, mas efeitos de determinada conjuntura é importante.

Obrigado por compartilhar isso.

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