segunda-feira, 16 de setembro de 2013

(2013/1088) Arregou, professor?


Não é minha área de preferência, mas sou bem mandado. Coube-me lecionar Teologia da Educação Cristã para as turmas de primeiro ano - Teologia (MEC). Hoje de manhã, tivemos uma discussão acalorada.

A questão, como sempre, desde sempre, nunca muda é: os membros das igrejas podem ouvir o que graduandos e/ou seminaristas ouvem? Pela enésima vez em 20 anos, ouvi - e não é surpresa que tenha sido de um já pastor! - que as pessoas da igreja não têm maturidade para ouvir o que os estudantes ouvem.

A turma se divide - e eu fico com as carnes queimando...

Respirei fundo e respondi o seguinte.

Bem, no fundo, eu não sei exatamente como a vida é, como a humanidade é, como as sociedades são. Se, como queria Lutero e Voltaire, como queriam Kierkegaard e Nietzsche, o conjunto dos homens e das mulheres constitui-se - naturalmente! - de duas classes: os que nascem para trabalhar e só, para sustentar o topo da pirâmide, gente que não nasceu para aprender, estudar, libertar-se desse destino, e, de outro lado, a nobreza, a aristocracia, a elite, aquele pequeno contingente de eleitos para dirigir o carro da Fortuna, a carruagem da Cultura e do Gênio - bem, se a sociedade é assim, então o pastor está certo e tudo o que eu faço está errado - tudo o que eu faço e tudo o que a Educação faz - inclusive a LDB.

Será a sociedade assim?

Agora, se ela não é assim, se ela é constituída de pessoas potencialmente iguais, seja em dignidade, seja em capacidade, seja em direitos, de modo que apenas circunstancialmente, mas não determinativamente, uns mandam e outros obedecem, quem mandar hoje, obedece amanhã, e quem obedece hoje, pode mandar amanhã, se todos são iguais, então não procede a insistência cômoda que eu ouço há 20 anos, sempre dos mesmos sujeitos de poder, que as pessoas da igreja não têm maturidade para ouvir o que os "iluminados" podem ouvir...

Será a sociedade assim?

Não decidi a questão. Deixei que cada um pensasse em como é a sociedade - se é do jeito kierkegaardiano, as escolas deviam fechar. Todas. Deveriam ficar abertas apenas escolas de elite, para elite. Já, se a humanidade não é como o pastor sugere em sua estratégia de educação (?), então todas as retóricas de que as pessoas não estão preparadas é estratégia de manutenção do status quo.

Terminou a aula.

Um aluno me procurou, aborrecido, e disse-me assim: arregou, professor?, recuou?, voltou atrás?, deixou o pastor justificar a sua tirania...?

Eu olhei para ele e sorri. E fiz-lhe saber que eu não seria leviano de decidir, por mim mesmo, como é a sociedade. Cada qual decida-se. Para mim, todos são iguais, mas eu me pergunto cada vez mais se são mesmo. E, se eu, honestamente, tenho as minhas dúvidas, por que haveria de fingir que não as tenho e impôr à classe a minha opinião...?

Deixei claro as duas possibilidades: cada um assuma o risco de fechar-se dentro de sua auto-compreensão aristocrática/teocrática ou de abrir-se para uma compreensão radical da igualdade humana, humanista - e que cada qual haja, então, conforme a sua consciência.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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