quarta-feira, 26 de junho de 2013

(2013/631) Duas palavras em torno de Feuerbach

_ Por onde devo começar com a Teologia? Paulo, Agostinho ou Lutero, professor?

_ Feuerbach.

(...)

E aproveito para deixar duas reflexões sobre esse monstro.

(I)

Feuerbach, o teórico sobre religião e teologia mais importante dos últimos séculos: teologia é antropologia.

Tillich, o teólogo mais importante das Américas - ao menos até a TdL: Deus é símbolo para Deus.

Se Tillich ficasse apenas no primeiro Deus, era feuerbachiana a sua teologia. Mas ele faz que faz, mas não faz. No fundo, a sua teologia apenas estabelece o estatuto frágil do discurso - mas Deus, realidade por trás do símbolo, permanece (conquanto não se saiba por que meio ele, Tillich, o sabia, uma vez que o primeiro - a doutrina - é simbólica. Ficou a dever a explicação lógica do procedimento teológico...).

Aceito que se trata de uma concessão: afirma-se ontologicamente Deus, mas fragiliza-se o discurso clerical-teológico. Ao menos, na intenção. Na prática, ainda estou para encontrar alguém que leve realmente a sério esse artifício de fazer de conta que não é o que el, na prática, faz que seja todos os dias.

Acho que quando se chega a Tillich, chega-se a um passo de Feuerbach. Por que não se dá esse passo? Muitas razões - nenhuma delas, teóricas.


(II)

Um amigo meu disse, mas não para mim, e em tom de autoridade, em uma conversa formal com terceiros, a que eu ouvia, que Feuerbach está desatualizado, porque Marx o criticou...

Não sei se olharam para minha cara e se perceberam minha reação, que tentei conter, educadamente...

Já ouvi asneiras: mas essa foi assim, das 10+.

No que diz respeito ao que interessa à epistemologia, Marx não criticou Feuerbach. Marx acata integralmente Feuerbach - é só ser suas Teses Sobre Feuerbach.

Marx criticou Feuerbach não pelo que ele disse, mas pelo que ele não disse. Marx disse que Feuerbach diz o óbvio, que teologia é antropologia, mas não avança na denúncia de que a essência da religião e humana não são "teóricas", mas práticas - são construídas historicamente, dialeticamente, ecologicamente...

Feuerbach pára numa essência abstrata, dada, atemporal, fixa, diz Marx. Ao passo que, segundo Marx, ele deveria ter revelado que não há essência humana, nem religiosa, que não seja fruto da histórica, produto da história, construída na história e pela história, nas condições concretas de vida e morte.

Assim, mesmo quando ouço pessoas falarem em tom professoral, sei que, no fundo, posso estar diante de uma pataquada para competição internacional...

Feuerbach, para o que me interessa, é o cara.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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