domingo, 10 de março de 2013

(2013/226) Quando religião e política precisam ser vendidos como outra coisa


1. No século XVIII e no século XIX, a Europa e o Ocidente cristão foram invadidos pelas religiões do passado: depois de algum período em contato com as religiões africanas, imediatamente demonizadas no todo, o Cristianismo sofreu um golpe profundo, descobrindo que suas raízes - sem nenhuma exceção - estavam fincadas no solo fértil das antigas religiões da Mesopotâmia, da Grécia, do Egito - e que suas doutrinas foram, por muitos séculos, mito de outros povos...

2. Foi um golpe duro na presunção cristã...

3. Estratégia para sair da situação vexaminosa? Simples - recorrer à retórica: nós não somos uma religião. Eles eram religiosos, nós somos cristãos, eles tinham religião, nós temos fé.

4. Não importava o fato de que o Cristianismo tinha deuses como todas as religiões - Deus, Jesus, Espírito Santo, Maria -, o fato de que tinha seres celestes com o todas as religiões - anjos, demônios, querubins, arcanjos -, de que tinha sacramentos mágicos como todas as religiões, de que tinha sacerdotes como todas as religiões, de que tinha doutrinas como todas as outras religiões, de que tinha templos, rituais, sacrifícios, fiéis. O Cristianismo era uma panelada de feijão com tudo quanto é de porco - orelha, rabo, língua, pé, lombo, miúdos, carne, pele, gordura - mas não era feijoada...

5. Resolvida a questão.

6. Como insetos cegos pela luz, os cristãos podem enganar-se de que não são religiosos e de que o Cristianismo não é religião - desde que só ouçam a própria voz...

7. A mesma coisa de deu na construção retórica do fundamento bíblico dessa não-religião. As pesquisas revelaram que tudo em Israel e Judá era derivado dos povos ao redor - cananeus, assírios, babilônicos, egípcios, persas, gregos. Assim como o Cristianismo nascia nas religiões anteriores, Israel e Judá eram desdobramentos dos povos anteriores...

8. Outro golpe. O que se fez? Cordão de isolamento. É impressionante como as pesquisas param às portas de Jerusalém. De certo modo isso salvou minha tese de doutorado, porque eu investiguei Gênesis 1,1-3 e o sentido histórico-social dessa passagem.

9. Todos os especialistas que estudam os mitos de criação egípcios, assírios, babilônicos, cananeus chegam à mesma conclusão - cada povo tinha mitos de criação para sua própria terra. Os mitos babilônicos falam da criação da Babilônia, os mitos do Egito falam da criação do Egito, assim por diante. Era o que eu queria dizer de Gênesis 1,1-13 - aplicava-se somente a Judá - quando li as pesquisas próximo-orientais, gelei. Imaginei que era tão óbvio, que alguém já teria dito... E, se alguém já tivesse dito, não era mais uma tese de doutorado...

10. Com efeito, muita gente chegou perto, muito perto. Mas, quando chegavam às portas de Jerusalém, mudavam radicalmente o discurso. Judá é diferente!

11. Salvei minha tese - disse que não é diferente coisa nenhuma, que a criação em Judá é apenas de Judá - e, mais uma vez, flagrei o modelo de concepção de Judá e do Cristianismo - eles versus nós, eles, os outros povos, nós, Judá e o Cristianismo...

12. Pensei isso, agora há pouco, porque vejo um movimento interessante sendo criado na política nacional. 

13. Mudarei de conteúdo, mas vejo o mesmo fenômeno - chamar o que é o mesmo por outro nome...

14. Ora, estamos numa democracia. Vivemos num país constituído sob o regime de três poderes. O presidente não manda. Para governar, depende do Congresso. Tem de fazer alianças. Não há santos lá. Há dezenas de partidos, interesses os mais variados - publicáveis e impublicáveis.

15. É política que se exerce ali - política. Goste-se ou não dela, alguém imaginar que, se chegar lá, vai fazer diferente, não vai ter que fazer as mesma alianças, as mesmas negociações, das duas uma: ou se engana ou engana a mim, ou mente para si, ou mente para mim.

16. Salvo se, no fundo, imagina que, quando chegar lá, fecha o Congresso. Ou acha que a carinha de santo ou de santa vai mudar as coisas em Brasília? 

17. Não adianta mudar o nome da coisa. A coisa continua sendo política e a coisa continua sendo partido político e a coisa continua sendo jogo político.

18. Temo que juízos morais alimentem vaidades éticas e leituras ideológicas e moralistas de um processo que é democrático e político - com todas as implicações, boas e ruins, disso.

19. Só há um modo de você não repetir as negociações a que um Presidente da República se vê forçado, pelo jogo político: mudar o jogo político. Mudar o jogo - não o nome do jogo. Porque chamar um partido político por outro nome não faz dele outra coisa, e não assumir publicamente que terá de fazer as mesmas negociações que todos os mandatários anteriores tiveram de fazer não significa que você não vai fazer.

20. Porque só há um jeito de você não fazer as negociações - acabar com os negociadores... Transformar a democracia numa autocracia - eventualmente, sob as bênçãos de Deus...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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