quinta-feira, 8 de novembro de 2012

(2012/737) Bíblia como botão de controle remoto...


1. Um pastor profundamente preocupado com sua função pastoral, que ele entende libertadora, escreve-me. Trocamos impressões sobre determinada passagem bíblica - que, aqui, não vem ao caso. Ao cabo, fiz-lhe observações da seguinte ordem: não sei quanto a você e, seja como for, você não está obrigado nem a concordar comigo nem - e muito menos! - em pôr em prática minha orientação, mas, quanto a mim, discordo veementemente de se fundamentar qualquer valor ou prática na Bíblia como normativa...

2. Sua resposta foi honesta e dialogal - o que é raro. E a transcrevo, reservado o anonimato da fonte:

certo
mas veja...
no meu caso
como pastor
a leitura da Bíblia é o único instrumento para produzir mudanças
e se, de alguma forma, compreendê-la mais a fundo pode ser libertador, eu quero esse caminho.
entende
?

3. Sim, entendo. Talvez entenda até demais. E lhe disse que essa é a glória e a inglória, a graça e a desgraça da pastoral: ver-se obrigado à "libertação" por um método que é não-libertário - ensinar a pessoa a libertar-se de valores retrógrados, mas por caminhos cada vez mais heteronomizantes - ainda que tendo-se em vista um passo de "libertação"...

4. Pensemos. A Bíblia manda-me destruir altares de outros deuses. Não faremos - posto que estamos um pouco crescidos para essas coisas. Nenhum pastor, na plenitude de suas faculdades mentais tidas por normais há de recomendar uma sandice dessas a um crente seu.

5. A Bíblia manda apedrejarmos a mulher adúltera, o filho rebelde, a não poupá-lo, sob nenhuma desculpa, mas a sermos o primeiro, nós, pais, a lançar a primeira pedra. Não fazemos. Ainda bem! Podemos até dizer que não fazemos em função da contra-orientação do Cristo - quem não tem pecado... Mas, se aplicarmos a orientação do Cristo, desmontamos a Teologia inteira... Seja como for, não fazemos essas barbaridades, porque deixamos os tempos bárbaros para trás...

6. Tantas outras coisas, maiores e menores do que essas, a Bíblia manda fazer ou proíbe fazer e, a despeito disso, fazemos ou não fazemos, desobedecendo conscientemente o texto - sempre, insisto, graças a Deus! Logo, senhores, é sempre nós mesmos, não, senhoras?, a nos pormos eticamente acima dessas injunções culturais que consideramos perversas e ultrapassadas...

7. Ora, se nos colocamos eticamente acima dessas injunções, colocamo-nos, quer queiramos admitir ou não, inteiramente acima da Bíblia. O fato de não o confessarmos não significa nada - salvo o fato de que somos muito dissimulados e bastante hipócritas: fazemos, mas não podemos dizer que fazemos...

8. Sendo assim, se, na prática, já me coloquei acima da Bíblia para julgar, graças a Deus, eticamente, suas injunções e ordens, por que - eis o que pergunto - por que preciso ainda usar a Bíblia para a "orientação" de minha comunidade?

9. Fetiche? Patuá? Cajado mágico? 

10. Não, não. Não acredito que as coisas devam ser assim. Acredito que nossos valores devem ser construídos criticamente, independentemente do que deles pense quem escreveu as centenas de textos bíblicos - há algo entre três e dois mil anos atrás...

11. Escandalizam-se meus leitores? Porque digo que devemos nos "libertar" da necessidade de usar a Bíblia para nossos valores e práticas? Depois de eles mesmos, meus leitores, já o terem feito em relação a inúmeras passagens, sem, contudo, ter a coragem de o assumir?

12. Do que eu chamava mesmo essa atitude? Foi ali pelo parágrafo sete...

13. Não defendo que a Bíblia saia do meio da comunidade - defendo que a comunidade reconheça, definitivamente, que ela, a comunidade, é infinitamente maior do que a Bíblia.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

2 comentários:

Luciano disse...

Osvaldo,

a comunidade a que você se refere - a igreja considerada como o conjunto dos seus membros - é constituída sobre a base dos postulados encontrados na Bíblia.
Sobrepor-se a comunidade à Bíblia sai como um tiro no pé, já que a própria base para a formação e manutenção daquela se esvairia e, com ela, a própria comunidade.
Por outro lado, a libertação no contexto dessa comunidade não é a libertação buscada pelas pessoas num contexto secular - não é a libertação, através da crítica, das ideologias -, mas a libertação do mal metafísico, personificado em Satanás e seus anjos, e dos seus reflexos na vida do homem - aceite-se ou não esse sistema.
Essa libertação não pode prescindir da Bíblia onde se narra exatamente a vitória do Bem/Deus sobre o Mal/Diabo, de onde, inclusive, se retira o instrumental teórico para se identificar a origem da opressão da qual se busca libertar no contexto dessa comunidade.
Então, a comunidade reconhecer que é maior que a Bíblia, que é quem decide na Bíblia o que é e o que não é válido ou considerável, retira dela seu fundamento e o de todo o sistema em torno do qual ela vive, deixando de existir, então, o próprio meio em que tudo se dá.
É mais ou menos como naquelas suas postagens sobre Bíblia e Oração, em que você apontou essa metodologia e a ausência da crítica dentro das igrejas de então como a responsável pela penetração das igrejas neopentecostais hoje, e eu comentei que a crítica dentro das igrejas de então resultariam em nenhuma igreja hoje, neos ou não, já que a crítica demole tudo em que se fundamentam as igrejas como comunidades, a par das lideranças.

Luciano disse...

Só pra fechar, se a comunidade se reconhece infinitamente maior que a Bíblia, pra quê a permanência da Bíblia em seu meio, e pra quê essa comunidade afinal?
Fechem-se as portas e vamos todos embora brincar de outra coisa - a sugestão é aprender a língua klingon e frequentar encontros anuais de fãs de Star Trek... sempre haverá "a força", ainda que emprestada de Star Wars para fundamentar tudo.
Grande abraço!

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