segunda-feira, 16 de julho de 2012

(2012/572) A LBA me "salvou"


1. LBA - não falei LBV. Falo da Legião Brasileira de Assistência, de cuja organização a ex do Collor foi presidenta.

2. Era 1989. Votei no Collor. Recém-saído da "prisão" que foi minha infância (literalmente preso dentro de casa, sem contato com pessoas que não na escola), minha ideia de política era apenas aquilo que meu avô dizia certo - e ele votava na ARENA.

3. Votava na zona que funcionava no templo da PIB de Mesquita, onde eu era membro desde 1985. Cheguei para votar com o botom do Collor. Meus amigos da PIB me esculhambaram. Os jovens da PIB eram petistas... Lula, o "sapo barbudo"... Votei assim mesmo no Collor. Demorei algum tempo para me dar conta do processo político como um todo - como eu já disse várias vezes, foi o Seminário que me fez... 

[é, talvez, a agonia de quem não consiga (me) entender: como ele consegue ser tão independente, tão crítico, tão radical, tão "livre", tão indócil, se a formação dele foi a gente que fez? Sou filho da formação batista - e sou esse e isso que aqui está].

4. Alguns anos antes, em 1986, indo para a mesma igreja, com meu Vulcabrás 757 novo - e com calo, claro -, tirei os sapatos e entrei nas águas da enchente de Mesquita. Em seis meses, depois de ínguas gigantes nas virilhas, meu pé esquerdo ulcerou. Fui para o seminário em 1987 com o pé ulcerado, purgando. Casei em 87, no mesmo ano que entrei para o Seminário do Sul, com o sapato cortado atrás, porque não podia calçar. Em 88, perdi a capacidade de andar e trabalhar. Na prática, quase perdi o pé. Foram dois anos e meio...

5. Em 88, não tinha emprego nem casa nem salário. Bel e eu estávamos no "desespero". Alugamos um "puxadinho" na casa de uma "amiga" (que logo tornou-se uma catástrofe, mas não vem ao caso). Fiquei sem salário e "afastado". Recebi 10% de meu salário, que já era pouco, 1,5 mínimo, dez meses depois de ter ficado de cama - ou seja, contava receber 15 salários e recebi 1,5...

6. Não tinha dinheiro. Bel e eu comemos, por nove meses, na prática, as sopas da LBA. Aquelas sopas de chocolate e de baunilha. Israel, meu filho mais velho, que nasceu em 90, foi nutrido, no ventre da mãe, por aquelas sopas.

7. Bel as pegava no Centro Espírita - ironicamente, no Centro Espírita que minha mãe frequentara por décadas e eu fora levado quando criança, e me recordo de desenhos colados a feijões... Bel ia ao Centro, pegava os sacos da sopa, e comíamos.

8. Um amigo me dava algumas bolsas de compra, em troca de eu fazer trabalhos para ele, do Seminário. Eu tive de trancar o Seminário em 88, porque não podia andar. Voltei em 89. Estudei tudo de novo, porque havia lido quase todos os livros de meu amigo, para lhe fazer os trabalhos...

9. Devo muito, muito, à LBA. Ouvir o nome da LBA me comove. Aqui está o testemunho de um brasileiro que precisou de assistência - era só o que tinha! - e que se serviu dela. 

10. Bel e eu fomos salvos pela LBA.

12. Depois, aprendi teologia e política. Collor ficou no passado. Também quando a Globo o tirou do Planalto - ali eu já começara a aprender que nem tudo que se diz santo é santo e nem tudo que se diz demônio é demônio... De 89 em diante, só votei em Lula e, agora, na Dilma. Mas a LBA não me sai da memória - uma "bênção", uma lufada de ar fresco em dias de muita angústia e agonia.

13. Ironia: para a "mensagem" branca de meus anos de 84 a 89, foi na casa do "demônio" que encontrei comida... Se me compreendem a metáfora: foi na casa do diabo que Deus me estendeu a mão...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

NELSON LELLIS disse...

Osvaldo, tenho por mim que o fomentador desses julgamentos religiosos (mormente o cristianismo – e estou inserido nele de certa fo(ô)rma) se dá em duas vias: 1) a revisitação e reincidência de determinados fatos históricos e; 2) a própria consciência humana, que determina para os dias de hoje estes mesmos caminhos de violência e demonização.
Abre parênteses. Por isso não sei até que ponto vai a escolha do homem neste processo, visto já estar inserido nesta escola de demonização com cartilha pronta. Acho que o homem pode decidir por si apenas quando é desmontado com a realidade dos fatos e aprende a enxergar o outro como um outro EU. Fecha parênteses.
Mas minha leve e momentânea impressão é de que Deus e o diabo estão aonde menos aparecem. O discurso de ataque abusivo “da religião” sobre todas as demais vai demonstrando isso.
Não tenho esperanças de que isso vá mudar. Não tenho mesmo. E só tenho aprendido que caminhar “conscientemente sozinho”, gera muitas dores.

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