2. Mas Deus não está na doutrina. Doutrinas são invenções humanas, datadas, circunstanciadas, cheias de intenções, cheias de sangue, também.
3. Quando se dá conta disso, o cristão olha para todos os lados, à busca de salvação. E encontra a mística...
4. Estou salvo, ele grita...
5. Está, não. A mística não é um fenômeno não-antropológico. Não tem a mesma dimensão da doutrina, mas tem o mesmo fundamento. Nasce da crença e é tributária dela: não é verdade que a mística dribla a crença e a doutrina - não, ela apenas lida com elas de modo fluido e não fixo, mas não fixo em palavras, mas ainda assim, fixo em significado. Na mística, Deus permanece Deus, Jesus, Jesus, o Espírito, o Espírito... As estradas para chegar ao pensamento dessas grandezas é que se faz de luz, não de celulose: mas é ainda lá que se deve chegar - e se chega.
6. O cristão dá-se conta disso - de modo sofrido, é verdade -, e, então, já em desespero, olha freneticamente para todos os lados, atrás de salvação.
7. E encontra a poesia... A poesia é o caminho para Deus... E aí já se revela que não se saiu do lugar. Trata-se, sempre, de caminhos alternativos, de picadas na mata, para, todavia, chegar-se ao mesmo lugar: àquele destino mítico/doutrinário/místico/poética - e político - que é a crença.
8. O cristão dissolve a crença em formas tão fluidas - mística, poesia - que perde a capacidade de perceber que é, ainda, a doutrina quem o maneja e manipula. A Ideia - a tese é de Morin - possui-nos tão fortemente, que nos entregamos a ela. E, quando ameaçada, ela se disfarça - e a mística e a poesia são disfarces sutis da Ideia: quem a essas máscaras empresta a face, cuida ter-se libertado, e, pecado!, continua lidando com o mesmo mundo de sempre: doutrina.
9. O risco não é apenas manter-se acorrentado, julgando-se livre.
10. O risco que me parece maior é a soberba: cuidar-se "espiritual", "estético", "superior", em relação aos "doutrinados" - é a síndrome da soberba da mística e da poesia: e eis um cristão duas vezes pior do que era. Tão cego quanto antes, mas, agora, soberbo... Ainda mais.
10. O risco que me parece maior é a soberba: cuidar-se "espiritual", "estético", "superior", em relação aos "doutrinados" - é a síndrome da soberba da mística e da poesia: e eis um cristão duas vezes pior do que era. Tão cego quanto antes, mas, agora, soberbo... Ainda mais.
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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