quarta-feira, 22 de abril de 2009

(2009/206) Milagres e eu


1. Se creio neles? Bem, depende do que essa pergunta signifique.

2. Se a pergunta significa pressupor que, volta e meia, nós, seres humanos, deparamo-nos com eventos inexplicáveis - então, sim, creio em "milagres".

3. Se a pergunta quer-me fazer refletir sobre o que uma pessoa determinada ou um determinado sistema ideológico afirma sobre a natureza dos milagres - então minha resposta muda: não, não creio em "milagres", não.

4. Digamos assim: se por milagre vamos tomar tudo quanto ocorra, fisicamente, isto é, no plano da Tabela Periódica, sem para cuja explicação tenhamos, agora, uma mínima idéia ou teoria no campo da razão, de modo que nossa atitude única é a estupefação e o assombro (mas, jamais, a instrumentalização político-religiosa), então segue ser logicamente inconcebível que uma pessoa qualquer (um santo, um mago, um sacerdote) não apenas "saiba" do que se trata (não, não sabe, não), mas, inclusive, alegue a posse de poderes de "reprodução" do milagre! É meramente psicológica a distância entre milagreiros e charlatões, e essa distância, naturalmente, está na cabeça de quem lhes concede crédito. Se, por definição, milagres são inexplicáveis, qualquer um que o explique, e o controle, e o induza, das duas uma, ou é charlatão, ou aquilo não é, por definição, milagre. Digamos assim - ainda posso lidar relativamente bem com miagres, mas não mais com milagreiros.

5. Combinemos assim, então: reservemos espaço em nossa cosmovisão para os milagres, ali, na sessão "inacessível" (mais cedo ou mais tarde, eles nos serão psicologicamente muito úteis). Eventualmente, nossa cultura evoluirá (mas isso não está garantido), e chegaremos a compreender que o que nos parecia inexplicável era apenas circunstancialmente inexplicável - e esse elemento deixará a sessão "inacessível", ocupando alguma posição nas sessões instrumentais. Eventualmente, a sessão "inacessível" permanecerá assim, como o seu nome lhe sugere. Mas que esses charlatões da TV mereciam surra em praça pública, mereciam. E que, depois, se curassem com seus lenços suados... Ah, Deus, a fé é o álibi dos charlatões.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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